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UMA CURTA HISTÓRIA SOBREFLUXO DA BONDADE

Tem­po esti­ma­do de lei­tu­ra : 6 min

Ontem fomos ao jar­dim zoo­ló­gi­co.
Eu, espo­sa e duas cri­an­ças… de trem. No verão infer­nal do Rio de Janei­ro.
Fiquei mui­to con­ten­te por­que o ar-con­di­ci­o­na­do do trem esta­va fun­ci­o­nan­do, mas o que me encan­tou foi a edu­ca­ção de quem, ao me ver com o meni­no de um ano no colo… cedeu o lugar !

Sim, eram qua­se 10 horas da manhã e fomos con­for­ta­vel­men­te sen­ta­dos : não tenho uma vír­gu­la a recla­mar do ser­vi­ço pres­ta­do pela Super­via, tan­to na ida quan­to na vol­ta… inclu­si­ve um epi­só­dio des­con­cer­tan­te ocor­reu den­tro do trem, bem no final da aven­tu­ra, e teve con­sequên­ci­as didá­ti­cas que, espe­ro, fiquem mar­ca­das em meu cora­ção para sem­pre.
Vou con­tar…

O PASSEIO FOI COMEÇO

E não pos­so negar que foi um dia mara­vi­lho­so, da mes­ma for­ma que se eu dis­ses­se que não estou sofren­do por con­ta da atu­al fase de meu filho seria men­ti­ra : ele é inte­li­gen­te, tem uma memó­ria difí­cil de dis­trair e quan­do quer uma coi­sa gri­ta como se não hou­ves­se ama­nhã !
Esses gri­tos não só cha­mam a aten­ção de qual­quer um que este­ja a dois quilô­me­tros como pare­ce ras­gar, atra­vés da ampli­fi­ca­ção dos apa­re­lhos audi­ti­vos, bem no meio de meu cére­bro : é ver­da­dei­ra­men­te dolo­ro­so, extre­ma­men­te des­gas­tan­te e só me res­ta, enquan­to ten­to con­ver­sar e edu­car, aguar­dar que ele avan­ce para a pró­xi­ma fase — atu­al­men­te esta­mos entre duas e três síla­bas — de ver­ba­li­za­ção e comunicação.

Esse com­por­ta­men­to de gri­tar como se esti­ves­se sen­do evis­ce­ra­do quan­do nega­mos algo que ele quei­ra tem sido até um pou­co vexa­tó­rio e foi o que ocor­reu ontem den­tro do trem, após o pas­seio, pou­co antes de desem­bar­car­mos : não lem­bro bem o que ele que­ria, mas lem­bro que os gri­tos que ele deu cha­ma­ram a aten­ção de todos ao redor… e isso num daque­les trens que não tem nem divi­são entre as com­po­si­ções.
(E, pelos meus cál­cu­los, os gri­tos do meni­no devem ter alcan­ça­do uns cin­co vagões de dis­tân­cia!!)
A coi­sa foi tão dra­má­ti­ca e pun­gen­te que até um ven­de­dor ofe­re­ceu um copo de gua­ra­ná para que o garo­to paras­se de gri­tar, mas nós, os pais, mor­ren­do de ver­go­nha, recu­sa­mos, afi­nal evi­ta­mos que beba açú­car e ele nem esta­va com sede… e aque­le homem, com toda a sua gene­ro­si­da­de, então pegou uma gar­ra­fa d’água e colo­cou, sem per­mi­tir devo­lu­ção, nas mãos da cri­an­ça bem no momen­to em que as por­tas se abri­ram e tive­mos que desembarcar.

Des­ce­mos com mochi­las, car­ri­nho e cri­an­ças e fica­mos ali, nos entre­o­lhan­do, pois o trem já tinha cer­ra­do as por­tas e par­tia, sem per­mi­tir que sequer tivés­se­mos tem­po de alcan­çar a car­tei­ra para ten­tar pagar por aque­la água…
Guar­dem essa infor­ma­ção que a his­tó­ria segue em frente.

A ABESTADABESTA SURDA

Hoje pela manhã esta­va con­cen­tra­do, absor­to no silên­cio das mui­tas idei­as cine­ma­to­grá­fi­cas e legen­dá­ri­as que iam pas­san­do den­tro da minha sur­dez pro­fun­da quan­do alguém con­se­guiu cha­mar minha aten­ção ao bater com algo metá­li­co, pro­va­vel­men­te uma moe­da, na madei­ra do por­tão entre­a­ber­to de minha gara­gem.
Um pou­co assus­ta­do por ter ouvi­do algo e des­con­for­tá­vel por estar sem cami­sa e suan­do em bicas, fui olhar pela fres­ta e eram duas mulhe­res, uma bem ido­sa e outra mais jovem, que fala­ram algu­ma coi­sa que, ao con­trá­rio do pri­mei­ro som, não foi capaz de ultra­pas­sar minha bar­rei­ra de silên­cio.
Expli­quei que sou sur­do e elas então, pedin­do, fize­ram sinal com o dedo indi­ca­dor e arti­cu­la­ram com per­fei­ção : “UM RE-AL”!!
Inco­mo­da­do por estar semi­nu e sua­do, cons­tran­gi­do por ter sido inter­rom­pi­do em minha desa­gra­dá­vel tare­fa e sequer con­si­de­ran­do ir enla­me­ar o chão de casa para pro­cu­rar minha car­tei­ra, dis­se que não tinha e, meio con­tra­ri­a­das, elas foram embora.

O que vou con­tar a par­tir de ago­ra não é para me engran­de­cer : nun­ca apre­sen­tei antes e nun­ca mais pre­ten­do apre­sen­tar qual­quer boa pra­ti­ca­da por mim, prin­ci­pal­men­te por crer que quem tem de ver tais atos e recom­pen­sá-los, tudo em secre­to, é somen­te Deus. Nem a minha espo­sa eu con­to das coi­sas que às vezes faço !
Mas é que des­sa vez foi algo bas­tan­te mais fora do comum…

Eu fui ali, lavan­do a gara­gem e lem­bran­do da expres­são no ros­to daque­las mulhe­res… e me dan­do con­ta de que se esta­va ruim para mim ali, debai­xo da som­bra do telha­do da gara­gem, deve­ria estar mui­to pior para elas andan­do ape­nas com suas som­bri­nhas para pro­te­gê-las des­se sol devas­ta­dor. Cer­ta­men­te elas não esta­ri­am fazen­do tan­to sacri­fí­cio para com­prar cacha­ça…
Aí lem­brei de ontem, quan­do um sim­ples ven­de­dor de trem entre­gou aque­la gar­ra­fa d’água para uma cri­an­ça que, na ver­da­de, nem pre­ci­sa­va… e meu cora­ção que­brou : pen­sei nas afli­ções daque­le homem andan­do e gri­tan­do pelos vagões dos trens, ten­do que ven­der suas bebi­das para poder sobre­vi­ver… e ain­da assim foi gra­ci­o­so de ofe­re­cer espon­ta­ne­a­men­te UM REAL (o pre­ço da gar­ra­fa de água), com um sor­ri­so e sem nem pen­sar mui­to se aqui­lo iria lhe fazer fal­ta ou não ao final do dia !

Mal­di­ção : pelo menos o um real que não paguei na água de ontem eu tinha a obri­ga­ção de ter !
Que raio de ser huma­no esta­va sen­do eu de nem ter lem­bra­do dis­so e dei­xa­do aque­las mulhe­res ir embo­ra, sob esse sol escal­dan­te, para con­ti­nu­ar pedin­do por um valor tão peque­no ?
Não que eu este­ja esban­jan­do dinhei­ro, pois na ver­da­de aca­bo sen­do tam­bém nada mais que outro pedin­te : as neces­si­da­des de con­sul­tas, remé­di­os, con­ser­to das pró­te­ses e até a ter­rí­vel rea­li­da­de de, de repen­te, pre­ci­sar adqui­rir novas pró­te­ses se soma­ram às ina­diá­veis neces­si­da­des coti­di­a­nas e eu estou aqui, ten­tan­do ven­der cami­sas pela inter­net para refor­çar a fra­ca apo­sen­ta­do­ria que rece­bo por ter sido refor­ma­do com ape­nas 20 dos 30 anos de ser­vi­ço que deve­ria cum­prir… mas, que dro­ga, um real eu tenho e, se pudes­se… se tives­se recur­sos… minha von­ta­de seria a de per­gun­tar qual era a neces­si­da­de daque­las mulhe­res e aten­dê-la de uma vez !

ESTOU VENDENDO CAMISAS :
PODE ME AJUDAR ?

Me dei con­ta de que Deus tinha aca­ba­do de me dar um tapa na cara, per­mi­tin­do a mim uma gen­ti­le­za que eu, absor­to em mim mes­mo, ia dei­xan­do de retri­buir !
Cor­ri, só de cal­ção, peguei a car­tei­ra e as cha­ves do car­ro, oran­do para que ain­da con­se­guis­se encon­trar aque­las duas pelas ruas : não con­se­guia enten­der como podia ter sido tão estú­pi­do e ingra­to.
Fui diri­gin­do e olhan­do para todos os lados, ima­gi­nan­do qual a rota que duas pes­so­as caren­tes fari­am, pro­cu­ran­do rua por rua e cho­ran­do num arre­pen­di­men­to deses­pe­ra­do, pedin­do a Deus que não me tiras­se a opor­tu­ni­da­de de fazer algum bem àque­las pes­so­as… nin­guém ia estar andan­do naque­le sol e pedin­do tão pou­co de não esti­ves­se em neces­si­da­des !
Meti a mão na car­tei­ra e des­co­bri três notas, as úni­cas que tenho de hoje até o final do mês. Tenho, sim, fé, mas não seria pru­den­te dei­xar meus filhos pas­sar neces­si­da­de : no momen­to em que puxei duas cédu­las, avis­tei a dupla andan­do no final da rua prin­ci­pal do bair­ro atrás do meu, pres­tes a virar uma esqui­na !
Ace­le­rei e fui abrin­do a jane­la até che­gar ao lado delas que, com dig­ni­da­de, sequer olha­ram para aque­le auto­mó­vel que pas­sou a escol­tá-las. Ven­do que não iri­am olhar, resol­vi então gri­tar :
— Ei ! Eu esta­va lá atrás, lavan­do o quin­tal !
Aí elas olha­ram e, meio enver­go­nha­do e sem dar tem­po para nenhu­ma rea­ção, esten­di a mão, colo­quei as duas cédu­las na mão da mais ido­sa e par­ti.
(Prin­ci­pal­men­te por­que, sem apa­re­lhos, não seria capaz de escu­tar nada do que dis­ses­sem mesmo…)

Pelo retro­vi­sor pude vê-las olhan­do uma para outra e sor­rin­do : muda­ram de dire­ção, atra­ves­san­do a rua e, sin­ce­ra­men­te espe­ro, indo solu­ci­o­nar suas necessidades.

Vol­tei pra casa cho­ran­do que nem bezer­ro des­ma­ma­do, sen­tin­do que Deus me deu um reca­do : quan­to mais eu tiver, mais eu devo aju­dar !
Para com essa mania de achar que as pes­so­as estão pedin­do com fina­li­da­des des­ne­ces­sá­ri­as e aju­de àque­les que se expõem, que lar­gam qual­quer orgu­lho e, pela mais pura neces­si­da­de, saem para pedir, pois essa é a úni­ca for­ma de suprir suas mazelas.

Não vou vin­cu­lar essa con­clu­são à minha fé cris­tã — prin­ci­pal­men­te por já ter vis­to mui­ta gen­te que nem é cris­tã reve­lan­do um cora­ção extre­ma­men­te mais gene­ro­so que alguns lobos devo­ra­do­res que se tra­ves­tem, até, de pas­to­res —, mas a lição é de que o bem tem, sim, um flu­xo : este de hoje, por ter con­ta­do a vocês, pos­so não tê-lo reco­nhe­ci­do por Deus, mas meu incen­ti­vo à sua prá­ti­ca atra­vés des­se tex­to há de pro­por­ci­o­nar a mui­tos um bem ain­da mai­or do que o peque­no valor que doei àque­las mulheres.

Encer­ro com um vídeo cuja músi­ca pode não ser aces­sí­vel a mui­tos (como tam­bém não mais é para mim), mas que escu­tei na épo­ca quan­do ain­da podia, tocou meu cora­ção… e que hoje fez todo o sen­ti­do do mun­do !
Espe­ro que toque o seu também !

Um abra­ço.

Me dá um “joi­nha”?
Gos­tou ? Me aju­de compartilhando…

Geovane Souza

Já fiz e faço tantas coisas que só criando um site para concentrar e apresentar essa variedade.

  • rorschachbr disse:

    Inte­res­san­te. Há algum tem­po ado­tei a polí­ti­ca de esmo­la zero. Como já comen­tei com você temos alguns aspec­tos em total opo­si­ção. Depois de ver todo o tipo de men­ti­ras nas vari­a­das con­du­ções (ôni­bus, metrô e trem) inclu­si­ve com os mes­mos pedin­tes atu­an­do nas três deci­di sequer escu­tar as estó­ri­as. Na Sex­ta-Fei­ra escu­tei uma grá­vi­da pedin­te no Cen­tro falar que a von­ta­de é de “meter a por­ra­da” quan­do uma mulher fala NÃO. Sim, foram essas as pala­vras. Ande na Cen­tral do Bra­sil e tenha pena daque­les que dian­te de um NÃO se exal­tam e já que­rem arru­mar confusão…
    Acre­di­to que você sen­tiu no cora­ção mas de fato você não sabe que des­ti­no deram a sua “gene­ro­si­da­de”. Não muda­rei minha pos­tu­ra. E sem medo de te dei­xar cha­te­a­do afir­mo que acon­se­lhar jovens casais a espe­rar para ter filhos não me pare­ce ter base bíbli­ca. E como já te falei se eu tives­se agi­do assim esta­ria mui­to fer­ra­do. Seus tex­tos sem­pre foram impor­tan­tes na minha vida e aju­da­ram a enten­der que não pre­ci­so estar em uma empre­sa ecle­si­as­ti­ca mas não exis­te uma fór­mu­la úni­ca para todos.…
    Meus filhos hoje são minhas fle­chas, já não estão na alja­va e são minha úni­ca famí­lia, sem que­rer des­me­re­cer alguns exce­len­tes paren­tes que me aju­da­ram ao lon­go da vida. Sem esque­cer dos ami­gos anti­gos e recen­tes que me apoi­a­ram nas horas difi­ceis. Os cra­cu­dos já estão pedin­do $$ na estra­da e vamos fechar assim :
    Por­que, quan­do ain­da está­va­mos con­vos­co, vos man­da­mos isto, que, se alguém não qui­ser tra­ba­lhar, não coma também.

    2 Tes­sa­lo­ni­cen­ses 3:10

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