10 Anos No Mundo De Eventos

EVENTUAIS CONSIDERAÇÕES, SEM E COM SURDEZ

Após atuar por 10 anos no mundo de eventos, acho que já posso emitir opiniões sobre um pouco do tudo que pude observar e conviver: o povo de eventos, sem rotina nem hora certa para trabalhar, é guerreiro e dentre eles podemos encontrar alguns dos melhores profissionais, passíveis de atuar em quase qualquer setor, desse país… e até de outros!

Enquanto a turba fica discutindo direitos trabalhistas e firulas utópicas, o povo de eventos vai conquistando seu dinheiro de oportunidade em oportunidade, negociando seus cachês em função de quantas horas irá trabalhar e de quantas línguas deverá empregar no serviço, tendo a liberdade de dizer não a clientes inconvenientes e, o melhor de tudo, sem a hipocrisia legislativa de um estado controlador que, na realidade, pouco se importa com algum bem-estar e só quer mesmo é se apropriar de boa parte do valor movimentado nessa relação trabalhista!
É por isso que eu respeito e muito aquele povo que se oferece para capinar o seu quintal e sua calçada para ganhar um troco no final, pois, na verdade… eu sou exatamente igual a eles!!!

ALTOS E BAIXOS

Até ontem era eu quem dizia em que portão comitivas e escoltas de ministros e embaixadores deveriam parar… hoje sequer consigo fazer meu filho engolir uma colher do jantar!
Passei oito dias tendo a honra de atuar como coordenador dos recepcionistas trilíngues que receberam a boa parte de todas as autoridades mundiais que compareceram à maior e mais importante feira de defesa e segurança da América Latina — a LAAD — e pude traçar um curioso paralelo entre o povo de eventos (doravante “eventuais”) e as pessoas que trabalham por vínculos empregatícios clássicos (doravante “regulares”).

É normal que alguém prestes a iniciar um trabalho sinta ansiedade e insegurança, coisas que costumam ir diminuindo conforme o tempo passa e vai se acumulando experiência, afinal a prática leva à perfeição e os “regulares” podem passar até mesmo anos se especializando na realização minuciosa de determinada tarefa… até que se aposente ou, esperando ou não, enfrente a famigerada demissão, cujo impacto pode causar sentimentos análogos ao luto, vazio existencial e até mesmo culminar em depressão.
Enquanto essas três etapas podem consumir anos nas vidas dos regulares, elas se sucedem rápida e ininterruptamente: se você não é da agência e nem foi convidado para fazer a pré-produção, um evento “grande” costuma durar, no máximo, uma semana inteira, ou seja, enquanto for recepcionista você terá de viver sucessivamente esse ciclo de ansiedade, adaptação e demissão…
Se isso não for o suficiente para nos estabelecer como bastião da resistência psicológica, a única opção restante é de que somos, então, definitivamente loucos de pedra!

Foi minha esposa quem me apresentou a esse universo paralelo e, sem dúvida alguma, essas atividades foram a “sacudida final” para me livrar de qualquer resquício da depressão que me consumiu a ponto de ser reformado da vida militar, mas observo que mesmo ela, com tantos anos a mais de experiência, sempre fica irritadiça e sensível (uma espécie de “mini-TPM”) às vésperas de um evento: isso deve ser ainda mais difícil de compreender e lidar quando o relacionamento é com alguém que não seja desse meio.
Aliás, relacionamentos com pessoas de eventos podem ser coisas bastante melindrosas: agora que estou dentro perdi a referência, mas nos anos 90 a imagem das recepcionistas de eventos era constantemente misturada com a das garotas de programas… e hoje posso afirmar que 95% das eventuais que conheço são absolutamente pessoas de família e comportamento tradicional.
Infelizmente, não são daqueles que superam as dores para prestar um ótimo atendimento ao público, mas dessa minoria de “fichas rosas” os episódios mais conhecidos.

SEM LIMITES

Sou desses que gosta de conhecer o mecanismo das estruturas pelas quais sou responsável e um bom exemplo foram os jogos olímpicos, onde, sendo gerente de eventos do pavilhão de Badminton, tive a maior alegria de atuar em quase todos os postos de trabalho pelos quais era responsável, da leitura de credenciais até o balcão de informações, passando pela informação ao público, monitoramento de arquibancada… meus voluntários são a prova viva de que, acabados meus relatórios e conferências, saia de meu escritório animado para ir substituindo-os nas posições enquanto iam ao banheiro ou coisa parecida: quando você conhece o perfeito funcionamento do seu trabalho, ninguém consegue te enrolar!

UM OUTRO TEXTO MEU SOBRE EVENTOS

E foi ali, nas mesmas instalações do RioCentro, que anos antes testemunhei pela primeira vez uma atuação de “ficha rosa”… ou, se existir o termo, “ficha azul“: na equipe que eu estava coordenando havia um rapaz bonito, com olhos claros e corpo todo forjado nas academias.
Éramos responsáveis por receber e expor os pôsteres com os trabalhos científicos daquele congresso, mas em nosso balcão não paravam de aparecer também bilhetinhos de conteúdo incerto — algumas indiretas, outros até com obscenidades — escritos por mulheres e homens, todos direcionados àquele rapaz.
No meio da manhã do segundo dia ele chegou um tanto desesperado até mim e perguntou se poderia ir ao banheiro. Eu, imaginando alguma dor de barriga fulminante, logo liberei sem nem fazer outro juízo. 15 minutos depois chega ele sorridente, tira um pequeno bolo de notas de 50 reais do bolso do terno e me oferece uma e, pasmo, vou conversando:
— O que é isso, rapaz?!?
— Acabei fazendo um servicinho rápido ali no banheiro…
Não quis saber que serviço foi nem aceitei a nota, mas desde então minha confiança na humanidade passou a ser um pouco menor.

Outra lição que aprendi nesses 10 anos no mundo de eventos foi num episódio bem menos lascivo, mas talvez tão vergonhoso quanto esse, ocorrido em um famoso hotel na Zona Sul do Rio de Janeiro, durante um fórum destinado à nata da justiça e da segurança pública do Brasil: na hora do “coffee break” os garçons saíam da cozinha com bandejas repletas de salgadinhos (quibes, coxinhas… tudo quentinho) com a instrução de transitar pelo salão oferecendo os quitutes aos participantes.
Ora, dado o nível salarial de boa parte dos presentes se esperava educação e civilidade, porém, após umas duas rodadas (insuficientes para servir a todos naquele salão), o que rapidamente se viu foi um ajuntamento humano que quase bloqueou a abertura da porta por onde sairiam os garçons e, quando a primeira bandeja (erguida ao alto) conseguiu passar, foi como se lançassem um bovino às piranhas famintas!
Fiquei deveras constrangido ao ver juízes e delegados se afastando rapidamente da turba com ambas as mãos cheias de coxinhas, como se fossem carentes esfomeados fugindo com comida roubada!
Na verdade aprendi duas lições nesse dia: a primeira é que com apenas 15 minutos de intervalo nenhuma educação ou nível salarial domina o risco de ficar sem comer (só dos faquires, talvez). A segunda é que… coxinha é bom demais: ninguém fica triste comendo uma coxinha, mas podem haver até violentos embates por conta delas!!

Agora, a pior coisa de todo universo eventual é o cliente em contenção de despesas que quer te contratar pagando pouco como recepcionista e depois, em pleno evento e sem nunca ter te visto, acha que o recepcionista tem que ser legal e fazer algumas coisas que certamente não tem nada a ver com seu papel e, pior ainda, por mais boa vontade que você possa ter, são coisas que estão além de suas capacidades!
Eu, por exemplo, mesmo com meus 2.07m, sofri um acidente grave que me rendeu uma estrutura metálica do lado direito que vai da clavícula ao antebraço (não poderia ter ido até as mãos e posto logo as garras?!) e um dramático pinçamento do nervo radial durante a cirurgia: não tenho uma boa capacidade de carga com esse membro e, após a surdez, evito mais ainda atividades que façam o suor escorrer por conta do altíssimo risco de oxidação dos aparelhos auditivos.
Pois graças ao WhatsApp pude manter o inglório registro do dia em que eu e uma recepcionista, já senhora, estávamos incumbidos de receber grandes grupos de gerentes (de uma das maiores lojas varejistas do Brasil) que vinham passar uma semana inteira de treinamento no Rio de Janeiro: nosso papel era conferir, nome a nome, com a listagem, dar instruções iniciais e, em seguida, conduzi-los aos ônibus para, escoltados, conhecerem a matriz e serem conduzidos aos hotéis.
Eram dezenas de voos despejando centenas de participantes e, a despeito do baixo cachê, estive desde as 13:00h repetindo animadamente as instruções: foram tantas vezes que a voz já começava a falhar, mas fiquei doente mesmo quando a cliente, lá de São Paulo, enviou uma mensagem que doeu como uma facada (veja imagem a seguir).

Registro de abuso por parte de cliente com baixo orçamento: 10 anos no mundo de eventos e ainda não vi tudo!

Sim, não só pediu, mas também repetiu o pedido… e eu só podia olhar e me sentir triste: você tem noção do esforço físico envolvido em pegar as malas (com roupas para uma semana inteira de viagem, inclusive parra um jantar de gala!) bem pesadas de passageiros o suficiente para lotar um ônibus?
Agora multiplique isso por oito, isso mesmo, oito ônibus com todos os lugares ocupados de felizes gerentes que vieram treinar por uma semana no Rio de Janeiro!!!

Não seria mais adequado ter contratado carregadores para realizar tal tarefa hercúlea? Há montes de carregadores que ficam aguardando, próximos ao desembarque, por uma oportunidade de ganhar qualquer cinquenta conto de renda extra para alimentar suas famílias…
Mas para quê isso? É só pagar 120 reais por oito horas de trabalho a algum recepcionista e, no meio da jornada, pedir “por favor” para que eles, sem deixar de sorrir nem de prestar informações, entrem naquele maleiro (onde alguém da minha altura não cabe sem que esteja rastejando) carregando volumes pesadíssimos e, com rapidez, organizem tudo lá dentro!
Nem gritando “Shazam!” minha senhora… nem vestindo a capa do Batman!

O oposto desse abuso também acaba sendo um bastante entediante, mas acontece quando você é contratado por um determinado número de horas, o serviço é concluído com sucesso bem antes, mas o cliente quer fazer valer cada centavo do que pagou e te mantém ali, de pé, sorrindo para o vento e esperando por alguém que nunca vai chegar!
Por mais proatividade, ânimo, alegria, disposição que você possa ter, em algum momento dessa longa tortura chinesa o desespero vai encostar na sua nuca e começar a transmitir imagens do que você poderia estar fazendo após ter trabalhado tão bem…
As pernas vão doer, a boca vai secar… é possível até que uma taquicardia resolva atacar, mas não há muito o que argumentar, pois, no final das contas, somos mesmo um pouco como prostitutas e vendemos nossos corpos para estar ali, a serviço daquele evento: engole o choro, não reclama e pensa na conta que o cachê vai pagar.
Ser bom não é sinônimo para ser legal: aprenda a respeitar os bons clientes, mas favor e amor… só de mãe!

Ah! E, por maior que seja seu esforço, lembre-se sempre de que há clientes que não vão lembrar dele!
Esse ano de 2019 mesmo já soube de um episódio onde a cliente pegou as recepcionistas mais experientes, que se destacaram e receberam elogios na última edição do evento… e as colocou para ficar de pé, na porta, de salto alto, com o dever de sorrir de 8:00 às 18:00!!
Choro, revolta e desistência por conta de uma demonstração completamente equivocada de gratidão, por um cachê que, pior ainda, nem era lá essas coisas e o argumento de que “garotas mais novas fariam isso sem nem reclamar”!

O que aconteceu de pior comigo nesses 10 anos no mundo de eventos?
Uma cliente me contratou originalmente para ser lanterninha bilíngue das sessões de cinema que ocorreriam durante a parte da tarde num evento da ONU acontecido no cais do porto aqui da cidade, mas acabou ordenando que chegasse bem mais cedo, para trabalhar o dia inteiro, recepcionando autoridades no portão e conduzindo-os às respectivas salas.
Minha esposa trabalhou também como bilíngue no mesmo evento, pelo mesmo número de horas que eu, no apoio às palestras: não precisava andar igual a um camelo, não ficava no sol…
Fui elogiado e tudo, mas na hora de pagar, apesar de termos cumpridos horários semelhantes e funções análogas, a safada da agência me pagou uma merreca (metade do que minha esposa recebeu!) e alegou que aquela esmola era porque eu estaria “em período de experiência”!!!
Depois me enviaram um questionário de avaliação de perfil e, sinceramente, me fiz de maluco nas respostas.
Nunca mais trabalhei para eles e, se me perguntarem, até digo que agência foi…

O “RECEPSURDO”

O fato de minha surdez haver se aprofundado em novembro causa estranheza na maioria das pessoas, pois há um conceito (completamente errado por sinal) de que todo surdo tem que saber LIBRAS (a linguagem brasileira de sinais) e aqui segue um recado muito sincero que eu gostaria de poder estampar em um cartaz que pudesse flutuar o tempo inteiro, me acompanhando onde quer que eu fosse:

Gente: o filme “Matrix” não tem nada a ver com a realidade!!
Enquanto meu nervo auditivo sucumbia eu não recebi um download simultâneo e veloz de LIBRAS! Continuo não sabendo quase absolutamente NADA dessa língua, assim como não perdi nem um pouco de minha capacidade — modéstia à parte, bem decente — de falar e escrever na língua portuguesa escorreita!
Da mesma forma ainda posso ler, falar e até (em condições ambientais ideais de sonoridade) ouvir e compreender tanto o Inglês quanto o Espanhol.
Me recuso a abandonar todo o esforço que empreendi em prol de meus aperfeiçoamentos linguísticos apenas para soar como alguém que se expressa através de LIBRAS: não vou largar minhas conjugações, conjunções, declinações, preposições e outras tantas lindas firulas que embelezam a língua portuguesa para, fingindo ser básico, poder ser aceito mais facilmente pela comunidade dos surdos sinalizados.

Tenho extremo respeito por quem nasceu surdo e tem nessa língua sua forma de comunicação primordial, porém não pedi para perder a audição e, gostem ou não, vou lutar por meus direitos de acordo com minha deficiência e, mais do que isso, divulgar informações e auxiliar o máximo de pessoas — surdos oralizados, sinalizados… assim como quaisquer outros deficientes e pessoas “normais” — que puder.
O ouvinte que estiver lendo isso pode não compreender, mas não vou esconder que nesses meus seis meses de surdez acabei sofrendo mais discriminação e intolerância por parte de alguns surdos sinalizados do que das pessoas ouvintes!
Apenas para exemplificar o quão paradoxal e complexo pode ser esse relacionamento: enquanto a maior parte da sociedade faz uma pressão quase insuportável por uma iniciação em LIBRAS, parte dos surdos sinalizados acusa e odeia quem, como eu, considera aprender a língua por estar querendo ocupar vagas profissionais ligadas à tradução que, segundo creem, seriam exclusivas deles!
Ora bolas, se eu pudesse parar de trabalhar para me dedicar ao aprendizado da linguagem brasileira de sinais — dois meses só para aprender o básico! —é claro que, já fazendo parte do mundo de eventos, não iria perder quaisquer oportunidades que surgissem relacionadas a isso!
Por isso já decidi: por respeito às vagas profissionais exclusivas e pela tranquilidade em minha vida… não quero aprender LIBRAS tão cedo!!

Da mesma forma que não vou mais me propor a trabalhar diretamente nos credenciamentos de eventos: considero muito arriscado ter que lidar com alguém que não se disponha a falar mais lentamente e, por não compreender, alongar desnecessariamente o tempo de atendimento.
Apesar de amar auxiliar pessoas, também passarei a evitar os balcões de informação.
Me restam então as recepções em aeroportos, as coordenações de equipes, as atuações como celebrante e mestre de cerimônias.

CAMISAS E CANECAS: VÁRIOS MODELOS!

Cara-de-pau forjado por 10 anos no mundo de eventos, avalio uma tentativa de ingresso no restrito mundo dos escritores e palestrantes, mas aí meu problema é que, como líder, vejo em quase todos a possibilidade de aperfeiçoamento, a capacidade de superar limitações e, empreendida a devida dedicação, o potencial de liderança.
Fora minha história de vida, que é bem curiosa… o que vou vender?
Camisas e canecas?!?

Até imaginei alguns produtos que transcendem a mera informação sobre a surdez de quem os estiver utilizando, apresentando conteúdo instrutivo, que possa facilitar a interação e demonstrar um pouco da autoconfiança e — por que não? — do humor do usuário, mas as vendas não vão lá muito bem das pernas e acho que se eu tivesse rabiscado apenas coisas enigmáticas como “#JacaDuraQueÉMole” ou “#MudoQueFala” poderia estar fazendo mais sucesso…
Mas eu sou um maldito cabeça-dura e vou persistindo enquanto o SPC não decretar minha total falência!

Enfim, enquanto não me decido tenho o dever de informar que, se veio lendo tudo direitinho até aqui, você já leu quase duas mil e novecentas palavras!
Se compreendeu e, mais do que isso, gostou, não deixe de comentar: pode ser um incentivo para eu contar minhas histórias num livro…
Se não compreendeu nem gostou, comente com uma crítica construtiva, sugira onde posso me aperfeiçoar!
De qualquer forma, agradeço por sua atenção e espero poder contar com ela em breve, no meu próximo texto.

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