Delírios Coronais

QUARENTENA, FUGA E “MORTE PSICORÔNICA”

A verdade é que, desde o início do isolamento social, fiquei estrategicamente observando esse campo de dentro de casa — ninguém pela manhã, totalmente vazio na parte da tarde e durante a noite — e nesse tempo todo de quarentena ninguém sequer ousou pisar nele: um ou outro sobrevivente o margeava pelos caminhos laterais, alguns velhinhos usavam os equipamentos de exercício ali perto, mas nele… ninguém pisava!

Após tanto tempo tendo apenas o quintal como maior espaço frequentável, resolvi levar a família para uma intrépida incursão no final daquela tarde de quinta-feira: enquanto cálidos raios de sol nos alegravam sem infernizar, as crianças corriam bobas e felizes como coelhinhos saídos da jaula e a esposa, além de umas dez voltas completas no perímetro, aproveitou para fazer uma centena de polichinelos e outros exercícios… foi um lindo e inesquecível momento outonal.

A noite — um bom tempo após termos voltado, já deitado na cama e no ar-condicionado do quarto — a consciência começou a pesar: e se houvesse contaminação em algum lugar? Será que eu passei a mão no rosto? Quanto tempo o coronavírus sobrevive numa superfície de pedra?!
Enquanto ia sofrendo com essas conjecturas, o nariz ia entupindo, a secreção dificultando a respiração, a garganta começando a doer… me virava de um lado para o outro e nenhuma posição estava boa!
De repente sinto o peito começar a queimar, uma vontade louca de tossir!
Rapidamente pego o travesseiro e coloco na boca pra não correr o risco de nenhum perdigoto alcançar minha esposa que, após muitas atividades, dormia como um anjo…

Já devia ser mais de meia-noite quando comecei a considerar ir lá pra fora dormir na rede… ao menos iria me enrolar com um lençol para tentar evitar as involuntárias e dolorosas transfusões de sangue exigidas pelos mosquitos: já que tive tanto trabalho limpando e preparando aquele espaço, se eu estiver contaminado vou dormir lá a quarentena inteira!
Se a morte me pegar vai até ser mais fácil para por esse corpo gigantesco numa maca!
O peito ardia estranhamente, a garganta e o nariz já estavam mais do que fechados, eu fungava muito e de vez em quando tossia no travesseiro… quanto tempo esse treco leva pra matar alguém?
— Ah… estou sem forças pra sair daqui! Que amanhã ela acorde e dê seu jeito para remover o cadáver!
A consciência já alternava entre sonhos rápidos e realidade, só que cada vez os sonhos ficavam mais longos e reais… eu já não sabia se estava acordado ou dormindo.
Morri.


7 da manhã.
Acordo todo suado, sentindo um calor deveras incômodo: a esposa tinha desligado o ventilador de teto que, não enxerguei no escuro, passara a noite inteira ligado e estava forçando o ar gelado diretamente em cima de mim! (Agora que sou surdo, dormir é um ato de silêncio total e nem ouço mais o barulhinho das hélices…)
Exceto nos dias mais quentes de verão, não costumamos usar os dois ao mesmo tempo: quando entrei, o quarto já estava na penumbra e nem vi que o bicho estava ligado…

Eu, bastante vivo, respirava perfeitamente… e a garganta nem doía!
A família inteira estava bem e querendo muito tomar café da manhã…
Não morri!

Pelo sim, pelo não… hoje não fomos mais na praça.

Obrigado por ter lido.

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