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Conhecendo Silencidade

UMA OUTRA REALIDADE

Há pouco mais de um ano fui arremessado nessa dimensão paralela e venho tentando atenta e cuidadosamente compreender como ela funciona, pois só quem é daqui é capaz de entender certas coisas… algumas até tenebrosas!

Pra começo de conversa é bom explicar que, apesar do nome ser “Silencidade”, nem tudo aqui é silencioso: a barreira ao redor de cada habitante pode não ser absoluta, permitindo a passagem de algumas frequências e variando de pessoa para pessoa.
Esse obstáculo auditivo acaba dificultando a plena compreensão dos diversos sons no ambiente e, o mais complicado de tudo, a compreensão das coisas que são ditas e são parte essencial do processo que torna o ser humano pertencente a alguma estrutura social… qualquer uma: familiar, religiosa, profissional…

Quem não é daqui imagina que somos, os habitantes, todos iguais, mas nem desconfia que existem dois distritos bastante diferentes: Sinalecta e Tecnoral.
Teoricamente era para ser fácil transitar entre eles — afinal, somos todos habitantes da mesma cidade —, mas as coisas não são tão simples assim até por conta de fatores históricos sobre os quais vou, no máximo, fazer uma breve menção, pois não pretendo abranger nem a profundidade histórica nem a perspectiva mundial da surdez… por enquanto.
Vou deixar aqui um link para quem quiser saber um pouco mais sobre esses assuntos, mas acho que seria interessante contar alguns detalhes que pude notar nos distritos de Silencidade, que é tão brasileira quanto atual.

TECNORAL

Vou falar primeiro do lugar onde eu caí, pois é o que tenho maior probabilidade de conhecer melhor pela própria experiência: logo que cheguei, fui fraternalmente acolhido e pela comunidade dos “Surdos Que Ouvem“, onde recebi muitas orientações e a doação de minha primeira prótese auditiva para surdez profunda, mas essa minha maldita mente que pensa começou a perceber que aqui é tudo novo e tudo elétrico!

Dependemos profundamente de energia porque tudo tem que ficar ligado o tempo inteiro: não só gastamos toneladas de baterias para romper a barreira do silêncio, mas energia elétrica, de um modo geral, com desumidificadores, smartphones, smartwatches… coisas sem as quais, não sabendo leitura labial e nem sendo habitué de Sinalecta, muita gente estará restrita ao uso de papel e caneta para poder receber informações (porque até hoje ainda não conheci ninguém aqui que não seja oralizado).

Podem me chamar de paranoico, mas atualmente um de meus maiores medos se chama pulso eletromagnético e, pensando bem em todos esses fatos e desdobramentos, descobri que o termo mais exato para me identificar é “AudioAtivo“, ou seja, capaz de interação social enquanto eletricamente carregado: sem implantes, próteses nem a energia para alimentá-los… não passo de um surdo falante!

Aliás, essa condição de não conseguir escutar nem a própria voz é oposta a de ser obrigado a escutar tudo o que acontece no ambiente, pois, apesar da alta tecnologia existente, os Aparelhos de Amplificação Sonora Individuais (AASI) ainda estão em desenvolvimento e em muitos casos não nos permitem focar no som que queremos, mas nos forçam a ouvir tudo o que está no ambiente ao mesmo tempo agora… e que nos viremos para filtrar o que é relevante!
Acredite: muitas vezes Silencidade acaba sendo extrema e inconvenientemente mais barulhenta que o mundo normal… e o ato de poder desligar tudo acaba se tornando uma bênção.

Ah, sim: aqui também se necessita, em qualquer caso, de paciência!
Quem não tem dinheiro vai gastar paciência e disposição até obter algum resultado junto ao Sistema Único de Saúde.
Quem tem, e muito, dinheiro, deve ter muita paciência e meticulosidade para realizar testes com aparelhos de diversas marcas até encontrar o que melhor se adeque às suas necessidades.
Tudo isso acaba tornando Tecnoral um distrito quase — e só quase! — livre da barreira sonora e seus moradores capazes de interações mais dinâmicas com os ouvintes.

SINALECTA

Este distrito é o núcleo de Silencidade e talvez seja tão antigo quando o próprio Brasil.
Todos que nascem em Silencidade têm maior probabilidade de chegar aqui e seu transporte para Tecnoral exige muitos recursos e extrema dedicação dos pais que optarem por isso.
Ao contrário das necessidades energéticas do outro distrito, quem mora aqui pode levar uma vida orgânica e dependendo apenas das próprias mãos para interagir com os outros moradores e frequentadores do local: mesmo à distância, basta a iluminação (e, obviamente, a visão) para que os sinalectos sejam capazes de se comunicar!

Os ouvintes imediatamente associam essa Língua de Sinais utilizada em Sinalecta a todos os moradores de Silencidade e justamente por isso é importantíssimo destacar que ela, apesar de depender apenas do próprio corpo, tanto não é algo “orgânico” (e necessita ser aprendida) quanto não é universal, sendo apenas utilizada por uma parcela de surdos e exclusivamente no Brasil.

É temerário falar de temas que não conhecemos, portanto, por não ser residente desse distrito, acho justo narrar apenas, sem máscaras atenuadoras, as experiências relacionadas a ele pelas quais passei.

EU & SINALECTA

Como já citei, logo que cheguei em Silencidade muitas pessoas cobravam que eu instantaneamente soubesse a língua de sinais, como se a transferência de conhecimento pudesse ocorrer nos moldes do filme “Matrix” e ao mesmo tempo em que a audição estivesse indo embora, alguém estivesse remota e imediatamente fazendo um “upload” de Libras…
A verdade é que esse é um comportamento INTROMISSIVO e RIDÍCULO e me deixou tanto incomodado quanto constrangido!
Ainda assim estava considerando urgente o aprendizado da língua de sinais até o momento em que um dos próprios moradores de Sinalecta fez o favor de mandar um “recadinho do coração” do qual não fiz uma captura, mas lembro com exatidão o conteúdo:
— Esse ser ouvinte esperto querer tirar vaga trabalho de surdo.
Não duvidem: xinguei um palavrão muito alto e desisti de aprender qualquer língua que, além de escrever daquela forma, ainda conseguia sintetizar tanta discriminação e ofensa de uma só vez!

A questão é que tanto minha surdez é real quanto não tenho medo de cara feia — sou sobrevivente oriundo de debates teológicos altamente ofensivos e usuário calejado das ferramentas de capturas de tela — e conforme ia publicando os avanços na busca por meus direitos, os sinalectos iam publicando “elogios” como se eu estivesse roubando alguma coisa que pertencesse exclusivamente a eles: “surdo paraguaio”, “surdo 007”, “falso surdo”, vídeos sem áudio nem legenda onde eu só podia ver pessoas totalmente transtornadas e cheias de ira fazendo sinais ameaçadores como se estivessem ansiosas até para me agredir fisicamente!
Sinceramente Sinalecta promoveu uma recepção absolutamente repulsiva e assustadora à dimensão da surdez e minha vontade era mandar todos eles se danar e voltar a ser ouvinte, mas… de Silencidade só se sai morto.
Seguem registros de alguns ataques com a identidade dos agressores oculta, porque mais me interessa a exposição e o estudo de casos do que causar prejuízo a alguém que até pode se arrepender da estupidez que promoveu.
(Pelo sim, pelo não… mantenho guardados os registros originais com todos os nomes bem visíveis!)

FALSO SURDO!
SURDO 007 ESPERTO!
SABER FALAR ME FAZ OUVIR?!?
E PODE PUBLICAR MEU ROSTO PRA FALAR MAL DE MIM?!?
EU, AO MENOS, MANCHEI O DELE…

O mais engraçado de tudo foi que estava lá eu humilde e pacientemente tentando ensinar a todos indistintamente —sinalectos, tecnorais ou quaisquer outros deficientes! — como obter o tal Passe Livre e me ocorre um diálogo exatamente como mostra a captura a seguir:

TÁ PODEEENDOOOO!

Enfim, o Passe Livre realmente dá direito às viagens interestaduais, mas apenas de ônibus convencionais e atende às necessidades dos deficientes que não têm recursos para poder participar, por exemplo, de eventos inclusivos, congressos, seminários…
Enquanto um bando de surdos me acusa de estar “querendo aparecer” ou de fingir minha deficiência para levar vantagem, posso afirmar que “onda” mesmo eu só vou tirar quando estiver ganhando o suficiente para devolvê-lo e agradecer dizendo que não preciso mais por já conseguir viajar mais confortavelmente e por conta própria!

Conforme o tempo passou ainda fui descobrindo muita incapacidade de interpretação da Língua Portuguesa, mas isso nem pode ser tão criticado pois o que não falta são ouvintes analfabetos funcionais também!
Fui encontrando situações inesperadamente melindrosas de gente capaz de se incomodar simplesmente por não saber, por exemplo, utilizar sinônimos.

A POSTAGEM FOI CENSURADA, MAS CONSEGUI CAPTURAR ANTES DE SUMIR!

Enfim, meu impulso inicial para aprender Libras foi contido justamente por seus próprios usuários: para que eu ia fazer esforço, empenhar tempo e dinheiro… para me comunicar com aquelas pessoas tão agressivas e ofensivas?!
Porém, mesmo diante de tanta decepção, nunca deixei de reconhecer a importância da língua de sinais para os que optaram por seu uso, principalmente para os que nasceram sem outra opção: nunca consegui acreditar que toda aquela agressividade primal pudesse ser a característica unânime dos habitantes de Sinalecta… e minha espera trouxe resultados!

PRECURSORES, DIPLOMATAS… E UM LOUCO!

Tecnoral, por suas características tecnológicas que tiveram desenvolvimento praticamente paralelo à informática, necessita de divulgação e tem, sem dúvida e no mínimo, dois grandes avatares precursores realizando a árdua e delicada tarefa de promover sua existência e benefícios: um deles já foi aqui brevemente mencionado e o outro receberá o merecido destaque no tempo certo.

Já Sinalecta, por praticamente concentrar em si tudo o que a maior parte dos ouvintes sabe sobre Silencidade, acaba recebendo a maior parte da atenção do “mundo comum”, fazendo ao menos o nome de sua língua ser conhecido por quase todos e, cheios de orgulho, afirmando que “Libras é a segunda língua oficial do Brasil”.
Não que não lhes faltem obstáculos, mas quase todas as ações promovidas em função de surdos nem chegam perto de pensar em legendas, quanto mais em estenografia ou transmissões por Bluetooth e aro magnético: acho louvável e magnifica a inclusão obtida através disso, mas… acabo me tornando minoria excluída e até sendo desprezado e recebendo olhares tortos quando, num sincericídio, confesso que língua de sinais não me adianta de nada!

Em ambos os distritos há gente oprimida, insegura, com grandes dificuldades de buscar seus direitos e com potencial ainda maior de ser colhida pelas garras da depressão e seus funestos impulsos, especialmente porque suas limitações interacionais constituem a única deficiência que não dá sinais evidentes, sendo praticamente invisível.
(Eu, que já quase sucumbi vitimado por ansiedade e depressão, descobri que promover o bem tem o poder de renovar minhas forças, assim como falar e viver a verdade, mesmo me tornando às vezes uma pedra no sapato, me dá a tranquilidade para dormir bem todas as noites.)

Diante de tudo isso, optei por utilizar todos os recursos disponíveis para divulgar informações e, do meu jeito (complicado para alguns, bruto para outros…), oferecer um pouco de entretenimento direcionado aos habitantes de Silencidade e, ao mesmo tempo, descobri ser potencialmente útil ao criar camisas informativas que, até então, não eram coisas comuns entre os deficientes auditivos… infelizmente minhas atitudes táticas e autoconfiança acabaram surpreendendo e causando estranheza em ambos os distritos.

Após ter dado provas mais do que suficientes de que minha surdez é real e passado algum tempo publicando conteúdo, feliz e finalmente alguns cidadãos com habilidade para frequentar ambos os distritos perceberam que eu poderia ser útil à causa e se aproximaram de mim, pois perceberam que estava (e continuo) tendo alguns problemas tanto para compreender quanto para responder às pessoas que tentavam se comunicar em “Libras escritas” comigo.
Só comecei, de fato, a ter uma melhor comunicação com a população Sinalecta graças a essas raras almas iluminadas que não apenas me ajudaram a compreendê-la, mas tomaram a frente produzindo até vídeos explicativos em língua sinalizada sobre quem eu era, as peculiaridades de minha surdez e minha disposição em contribuir no processo de informação e inclusão de todos habitantes de Silencidade entre a população que não sofre com barreiras sonoras.

Após isso muitas coisas fantásticas aconteceram — e boa parte delas está registrada na página Surdos AudioAtivos Oralizados, que criei no Facebook — e apesar de soar bem parecido com ficção, tudo isso é muito real, assim como novas desafios e aventuras surgem a cada dia. A seguir vou apresentar a vocês dois momentos de um dos episódios que mais me emocionaram:

FUI A SÃO PAULO E VOLTEI… SEM SAIR DE SILENCIDADE!


Ainda não pude dedicar tempo nem grana ao aprendizado de Libras: sou pobre, preciso de dinheiro e tenho descoberto que a expectativa dos empregadores quanto aos ocupantes das vagas destinadas às cotas de deficientes, especialmente as relacionadas à surdez, são extremamente baixas, mas isso vai ser assunto para um próximo texto… se é que esse aqui chegará a ser de alguma utilidade a ponto de ser comentado e compartilhado.
Só você, leitor, pode me ajudar.

Eu creio que o verdadeiro amor, o genuíno interesse por alguma coisa… nada disso pode ser forçado, nada disso vai ser verdadeiramente alcançado através de leis e obrigações, pois esses recursos equivalem a colocar algemas, correntes e lançar pessoas na cadeia: verdadeiros amigos e quem ama de verdade não faz e nem precisa disso!
Se você — habitante ou não de Silencidade — leu até aqui, muito obrigado por sua atenção: já que ninguém te forçou, isso pode ser amor!

Me dá um "joinha"?

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