fbpx

QUARENTENA, FUGA E “MORTE PSICORÔNICA

Tem­po esti­ma­do de lei­tu­ra : 6 min

A ver­da­de é que, des­de o iní­cio do iso­la­men­to soci­al, fiquei estra­te­gi­ca­men­te obser­van­do esse cam­po de den­tro de casa — nin­guém pela manhã, total­men­te vazio na par­te da tar­de e duran­te a noi­te — e nes­se tem­po todo de qua­ren­te­na nin­guém sequer ousou pisar nele : um ou outro sobre­vi­ven­te o mar­ge­a­va pelos cami­nhos late­rais, alguns velhi­nhos usa­vam os equi­pa­men­tos de exer­cí­cio ali per­to, mas nele… nin­guém pisava !

Após tan­to tem­po ten­do ape­nas o quin­tal como mai­or espa­ço fre­quen­tá­vel, resol­vi levar a famí­lia para uma intré­pi­da incur­são no final daque­la tar­de de quin­ta-fei­ra : enquan­to cáli­dos rai­os de sol nos ale­gra­vam sem infer­ni­zar, as cri­an­ças cor­ri­am bobas e feli­zes como coe­lhi­nhos saí­dos da jau­la e a espo­sa, além de umas dez vol­tas com­ple­tas no perí­me­tro, apro­vei­tou para fazer uma cen­te­na de poli­chi­ne­los e outros exer­cí­ci­os… foi um lin­do e ines­que­cí­vel momen­to outonal.

A noi­te — um bom tem­po após ter­mos vol­ta­do, já dei­ta­do na cama e no ar-con­di­ci­o­na­do do quar­to — a cons­ci­ên­cia come­çou a pesar : e se hou­ves­se con­ta­mi­na­ção em algum lugar ? Será que eu pas­sei a mão no ros­to ? Quan­to tem­po o coro­na­ví­rus sobre­vi­ve numa super­fí­cie de pedra?!
Enquan­to ia sofren­do com essas con­jec­tu­ras, o nariz ia entu­pin­do, a secre­ção difi­cul­tan­do a res­pi­ra­ção, a gar­gan­ta come­çan­do a doer… me vira­va de um lado para o outro e nenhu­ma posi­ção esta­va boa !
De repen­te sin­to o pei­to come­çar a quei­mar, uma von­ta­de lou­ca de tos­sir !
Rapi­da­men­te pego o tra­ves­sei­ro e colo­co na boca pra não cor­rer o ris­co de nenhum per­di­go­to alcan­çar minha espo­sa que, após mui­tas ati­vi­da­des, dor­mia como um anjo…

Já devia ser mais de meia-noi­te quan­do come­cei a con­si­de­rar ir lá pra fora dor­mir na rede… ao menos iria me enro­lar com um len­çol para ten­tar evi­tar as invo­lun­tá­ri­as e dolo­ro­sas trans­fu­sões de san­gue exi­gi­das pelos mos­qui­tos : já que tive tan­to tra­ba­lho lim­pan­do e pre­pa­ran­do aque­le espa­ço, se eu esti­ver con­ta­mi­na­do vou dor­mir lá a qua­ren­te­na inteira !

Se a mor­te me pegar vai até ser mais fácil para por esse cor­po gigan­tes­co numa maca !
O pei­to ardia estra­nha­men­te, a gar­gan­ta e o nariz já esta­vam mais do que fecha­dos, eu fun­ga­va mui­to e de vez em quan­do tos­sia no tra­ves­sei­ro… quan­to tem­po esse tre­co leva pra matar alguém ?
— Ah… estou sem for­ças pra sair daqui ! Que ama­nhã ela acor­de e dê seu jei­to para remo­ver o cadá­ver !
A cons­ci­ên­cia já alter­na­va entre sonhos rápi­dos e rea­li­da­de, só que cada vez os sonhos fica­vam mais lon­gos e reais… eu já não sabia se esta­va acor­da­do ou dor­min­do.
Mor­ri.


7 da manhã.
Acor­do todo sua­do, sen­tin­do um calor deve­ras incô­mo­do : a espo­sa tinha des­li­ga­do o ven­ti­la­dor de teto que, não enxer­guei no escu­ro, pas­sa­ra a noi­te intei­ra liga­do e esta­va for­çan­do o ar gela­do dire­ta­men­te em cima de mim ! (Ago­ra que sou sur­do, dor­mir é um ato de silên­cio total e nem ouço mais o baru­lhi­nho das héli­ces…)
Exce­to nos dias mais quen­tes de verão, não cos­tu­ma­mos usar os dois ao mes­mo tem­po : quan­do entrei, o quar­to já esta­va na penum­bra e nem vi que o bicho esta­va ligado…

Eu, bas­tan­te vivo, res­pi­ra­va per­fei­ta­men­te… e a gar­gan­ta nem doía !
A famí­lia intei­ra esta­va bem e que­ren­do mui­to tomar café da manhã…
Não mor­ri !

Pelo sim, pelo não… hoje não fomos mais na praça.

Obri­ga­do por ter lido.

Me dá um “joi­nha”?
Gos­tou ? Me aju­de compartilhando…
  • 2
  • 2
    Sha­res

Geovane Souza

Já fiz e faço tantas coisas que só criando um site para concentrar e apresentar essa variedade.

>
Creative Commons License
Except where otherwise noted, GeovaneSou, Eu Mesmo by Geovane Souza is licensed under a Creative Commons Attribution 4.0 International License.