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QUANTOS PRIMEIROS PASSOS VOCÊ AINDA CONSEGUE CAMINHAR ?

Pre­ci­sa­men­te uma sema­na, exa­tos dia e horá­rio, após minha mãe ter dei­xa­do esse mun­do ali esta­va eu, com­ple­ta­men­te aba­la­do, porém o mais pre­pa­ra­do pos­sí­vel para pres­tar o cer­ta­me que se apre­sen­ta­va como sen­do a melhor opor­tu­ni­da­de da minha vida adul­ta.
Não cul­po quem, à bei­ra da cova aber­ta, me abra­çou dizen­do que iria con­tri­buir finan­cei­ra­men­te : alguns até pedi­ram o núme­ro de minha con­ta cor­ren­te, mas com­pre­en­do tan­to o arrou­bo emo­ci­o­nal quan­to o fato de que somos uma famí­lia de pobres onde cada um está pas­san­do por situ­a­ção econô­mi­ca tão ou mais mise­rá­vel que a minha.

Pus minha vida em pers­pec­ti­va : em um lar des­pro­vi­do da figu­ra pater­na, uma das razões pelas quais ingres­sei na For­ça Aérea Bra­si­lei­ra aos 16 anos foi a de hon­rar minha pro­ge­ni­to­ra, por quem fui res­pon­sá­vel legal por toda a minha vida).
O gol­pe cru­el veio quan­do, no momen­to de sua mor­te, fui escor­ra­ça­do por uma lei que, cri­a­da pou­co mais de um ano atrás, proi­bia o paga­men­to do “auxí­lio-fune­ral” àque­la cate­go­ria espe­cí­fi­ca de dependente !

Teria todas as razões para nem ter arris­ca­do a via­gem, pois pas­sa­ra aque­la sema­na — ori­gi­nal­men­te des­ti­na­da à revi­são das maté­ri­as — pedin­do esmo­las para cobrir des­pe­sas do fune­ral e, mais do que isso, con­se­guir pro­por­ci­o­nar ali­men­to a meus filhos : den­tre tan­tos fami­li­a­res só duas paren­tes con­cre­ti­za­ram algum auxí­lio e, no final das con­tas, quem me aju­dou mes­mo (ao menos naque­le pri­mei­ro e mais negro mês) foi minha tur­ma, a saber, os irmãos que ingres­sa­ram jun­to comi­go na car­rei­ra militar.

Tama­nha deso­la­ção aca­bou se tor­nan­do o impul­so deses­pe­ra­do para ten­tar mudar essa rea­li­da­de des­gra­ça­da : usei car­tão de cré­di­to para por gaso­li­na e fui fazer a pro­va para Fis­cal de Pos­tu­ra e Esté­ti­ca Urba­na na cida­de de São José dos Cam­pos, o lugar que se fez meu sonho por­que — ao con­trá­rio do caó­ti­co e degra­da­do Rio de Janei­ro — me per­mi­tiu um vis­lum­bre de vida, segu­ran­ça, urba­ni­da­de, pro­gres­so e ordem… sem a neces­si­da­de de sair do Brasil !

MINHA JORNADA

A repro­va­ção, em mar­ço de 2018, no cer­ta­me para auxi­li­ar admi­nis­tra­ti­vo do Tri­bu­nal de Jus­ti­ça de São Pau­lo me dei­xou cale­ja­do sobre o nível da dis­pu­ta por vagas em uma cida­de tão desen­vol­vi­da : des­de então eu não con­se­guia parar de ima­gi­nar como pode­ria ser a exis­tên­cia em um local tão gran­di­o­sa­men­te dife­ren­te des­se fur­dun­ço vio­len­to e opres­si­vo onde nas­ci e pas­sei a mai­or par­te da vida.
É cla­ro que falar esse tipo de coi­sa de for­ma tão aber­ta não pode ser um com­por­ta­men­to impen­sa­do e, mes­mo ago­ra admi­tin­do, relu­tei um pou­co antes de che­gar até essa con­clu­são, ten­tei encon­trar coi­sas posi­ti­vas às quais me ape­gar, mas mes­mo o melhor paco­te de atra­ções — a mai­o­ria rela­ci­o­na­da ao cli­ma de verão que não supor­to ! — não me encan­ta nem um pou­co… ao con­trá­rio da rea­li­da­de que facil­men­te encon­trei ao retor­nar, em janei­ro de 2019, até as ter­ras jose­en­ses.
Vejam o vídeo :

https://​www​.face​bo​ok​.com/​a​u​d​i​o​a​t​i​v​a​d​o​/​v​i​d​e​o​s​/​2231630176858495/

Peço per­dão por adi­ci­o­nar tan­tos regis­tros audi­o­vi­su­ais entre­me­a­dos no que deve­ria ser ape­nas tex­to, mas (aos que são capa­zes de com­pre­en­der) as datas das gra­va­ções e as emo­ções nelas demons­tra­das com­pro­vam o quão espon­tâ­neo e gra­du­al foi o cres­ci­men­to de meu sin­ce­ro fas­cí­nio por aque­la loca­li­da­de : seis meses após o vídeo aci­ma retor­nei à cida­de para mais uma visi­ta e aca­bei cri­an­do mate­ri­al com­ple­men­tar que deci­di publi­car só ago­ra, para con­so­li­dar o sen­ti­men­to que me moti­vou a escre­ver essa série :

Foram mais alguns dias mara­vi­lho­sos e de cli­ma per­fei­to, com cri­an­ças poden­do brin­car em pra­ças con­ser­va­das e uma sen­sa­ção de segu­ran­ça que não sen­tia há mui­to tem­po : che­guei a ter tem­po de ir ao aero­por­to e entre­gar meu cur­rí­cu­lo à Azul, mas as opor­tu­ni­da­des de empre­go que encon­trei ofe­re­ci­am salá­ri­os que, dado o valor que rece­bo por ser mili­tar refor­ma­do, seri­am sufi­ci­en­tes ape­nas para me fazer subir na alí­quo­ta e impos­to de ren­da e, cal­cu­lan­do fri­a­men­te, aca­ba­ri­am me fazen­do pagar para tra­ba­lhar… e ain­da por cima em fun­ções abso­lu­ta­men­te bási­cas que nor­mal­men­te são atre­la­das às cotas para deficientes.

Enfim, aca­ba­ram-se meus dias ali e não teria como o retor­no ao Rio de Janei­ro cau­sar mais frus­tra­ção e revol­ta que as apre­sen­ta­das no vídeo abai­xo (publi­ca­do em rede soci­al e o últi­mo des­sa postagem):

https://​www​.face​bo​ok​.com/​o​m​a​i​o​r​c​e​l​e​b​r​a​n​t​e​/​v​i​d​e​o​s​/​849122122140005/

E é difí­cil viver num lugar onde as coi­sas cele­bra­das cau­sam, mais do que indi­fe­ren­ça, gran­de des­con­for­to e até mes­mo repug­nân­cia : verão, praia, car­na­val… funk!!!
Tudo aqui é tão desor­ga­ni­za­do que a docu­men­ta­ção da “casa pró­pria” onde moro é com­ple­ta­men­te irre­gu­lar a pon­to de não me per­mi­tir ven­dê-la : todos os dias eu ia pra inter­net ficar fuçan­do um empre­go que pagas­se o sufi­ci­en­te para alu­guel e vales­se a ascen­são de alí­quo­ta no IR… até que em setem­bro esse con­cur­so desabrochou.

Para ocu­par o tem­po e desa­nu­vi­ar a frus­tra­ção, havia ini­ci­a­do uma gra­du­a­ção em Mar­ke­ting e esta­va obten­do médi­as exce­len­tes no pri­mei­ro perío­do, porém dian­te da pos­si­bi­li­da­de de ter recur­sos para morar em São José dos Cam­pos — notem que para mim, além do local, o fator prin­ci­pal foi o valor do salá­rio, pois até mes­mo a esta­bi­li­da­de ou a pers­pec­ti­va de uma segun­da apo­sen­ta­do­ria che­gam a ser fun­da­men­tais — con­se­gui uma apos­ti­la com mais de 600 pági­nas e pas­sei a dedi­car de 4 a 6 horas diá­ri­as ao estu­do de “Pla­no Dire­tor”, “Leis de Zone­a­men­to”, “Pos­tu­ras Muni­ci­pais”… coi­sas das quais até então nun­ca havia toma­do conhe­ci­men­to no Rio de Janei­ro, fiquei des­lum­bra­do ao conhe­cê-las por uma pers­pec­ti­va jose­en­se e, a par­tir de ago­ra vou lis­tar bre­ve­men­te os pon­tos que mais me cha­ma­ram a aten­ção e me dei­xa­ram ain­da mais con­vic­to de que São José dos Cam­pos é a péro­la do Vale do Paraíba !

LEISFATOS

Para come­ço de con­ver­sa fui enca­rar o tal “Pla­no Dire­tor”, coi­sa que nun­ca tomei conhe­ci­men­to nas que­bra­das cari­o­cas e da qual vou, ape­sar de pare­cer cha­to, com­par­ti­lhar as duas pri­mei­ras páginas :

https://​www​.sjc​.sp​.gov​.br/​m​e​d​i​a​/​45863​/​l​c​612​.​pdf

Ima­gi­no que a mai­o­ria dos bra­si­lei­ros vá sen­tir pre­gui­ça de ler reles duas pági­nas de leis, arti­gos e pará­gra­fos, por isso vou trans­cre­ver abai­xo as par­tes que me dei­xa­ram abso­lu­ta­men­te deslumbrado :

  • No pri­mei­ro pará­gra­fo do 1º arti­go já apa­re­ce uma impres­si­o­nan­te ins­tru­ção sobre a fun­ção do docu­men­to : defi­nir dire­tri­zes para as polí­ti­cas seto­ri­ais e para a ges­tão do ter­ri­tó­rio e pre­ver os ins­tru­men­tos para sua imple­men­ta­ção, ori­en­tan­do o desen­vol­vi­men­to da cida­de na dire­ção do equi­lí­brio soci­al e territorial ;
  • No segun­do pará­gra­fo há uma impor­tan­te men­ção ao papel desem­pe­nha­do pelos agen­tes públi­cos e pri­va­dos que atu­am no município ;
  • No ter­cei­ro pará­gra­fo do mes­mo arti­go uma refe­rên­cia à soci­e­da­de civil orga­ni­za­da ;
  • Já no segun­do arti­go há dois subi­tens que, con­so­an­tes, me dei­xa­ram par­ti­cu­lar­men­te encantado :
    • É direi­to fun­da­men­tal do cida­dão a inclu­são soci­al e ter­ri­to­ri­al, efe­ti­va­da por meio do aces­so ao trans­por­te de qua­li­da­de e à cida­de aces­sí­vel (Item II, letra d);
    • A cida­de deve­rá ser ple­na­men­te aces­sí­vel e segu­ra, reco­nhe­cen­do-se a diver­si­da­de de con­di­ções locais e dos muni­cí­pi­os, e pri­o­ri­zan­do-se a frui­ção dos espa­ços públi­cos, o trans­por­te cole­ti­vo e os modos sua­ves de des­lo­ca­men­to (item VI).

Con­for­me lia as leis, ia reven­do tudo que vi fun­ci­o­nan­do enquan­to esti­ve lá e pude con­cluir que ver­da­dei­ra­men­te há um esfor­ço con­jun­to de gover­no e soci­e­da­de para a cri­a­ção de um ambi­en­te melhor… e me entris­te­ci ao olhar para o Rio de Janei­ro e não poder negar que fun­ci­o­na ao con­trá­rio : um gover­no tra­ba­lhan­do mal e uma soci­e­da­de des­trui­do­ra do patrimô­nio públi­co…
Quan­tas vezes eu pró­prio não tes­te­mu­nhei pes­so­as van­da­li­zan­do estru­tu­ras públi­cas — pra­ças, ôni­bus, esta­ções… — e ain­da dizen­do “está ruim demais isso aqui, então vou que­brar que o gover­no tem que con­ser­tar”!
Por curi­o­si­da­de, resol­vi bus­car o Pla­no Dire­tor do Rio de Janei­ro e, para efei­to de com­pa­ra­ção, vou tam­bém publi­car a ima­gem das duas pri­mei­ras pági­nas aqui :

http://​www​.rio​.rj​.gov​.br/​d​l​s​t​a​t​i​c​/​10112​/​6165622​/​4162211​/​L​C​111​_​2011​_​P​l​a​n​o​D​i​r​e​t​o​r​.​pdf

Len­do esse mon­te de idei­as ela­bo­ra­das com a cita­ção de nobres ter­mos gené­ri­cos pode até pare­cer coi­sa séria, mas tudo se dilui na ampli­dão dos sig­ni­fi­ca­dos e aca­ba se per­den­do antes da devi­da imple­men­ta­ção, rara­men­te alcan­çan­do os obje­ti­vos publi­ca­dos “para inglês ver”: a cida­de onde nas­ci se tor­nou uma gran­de latri­na fer­ven­te e no tex­to aci­ma apre­sen­ta­do a úni­ca coi­sa que pare­ce ter valor é a pai­sa­gem !
Ora de que me adi­an­ta olhar a pai­sa­gem sen­do assal­ta­do e mor­to ? Como vou ter aces­so às pai­sa­gens se o trân­si­to é caó­ti­co, as cal­ça­das des­ni­ve­la­das, as vias públi­cas esbu­ra­ca­das e tudo tão eli­tis­ta, caro e dis­tan­te ? Que ale­gria vou ter olhan­do a pai­sa­gem após ter sofri­do por horas den­tro de um trans­por­te públi­co deplo­rá­vel?!?
Pro infer­no com as paisagens!!!

Outro deta­lhe geni­al é o con­cei­to de polí­ti­cas seto­ri­ais, que pre­vi­ne — ou ao menos mini­mi­za as ocor­rên­ci­as — a, lite­ral­men­te, zona que se esta­be­le­ceu no Hell de Janei­ro : é casa gru­da­da com igre­ja gru­da­da com aviá­rio gru­da­do com mecâ­ni­co gru­da­do com ser­ra­lhe­ria gru­da­do com cor­ti­ço ao lado da pei­xa­ria…
A pers­pec­ti­va de ter imó­veis que cum­prem rigo­ro­sa­men­te algu­mas deter­mi­na­ções esté­ti­cas e fun­ci­o­nais às quais você tam­bém acei­tou obe­de­cer ao adqui­rir seu ter­re­no per­mi­te uma mara­vi­lho­sa sen­sa­ção de ordem, tran­qui­li­da­de e segurança.

Para não mais falar dire­ta­men­te em pla­nos dire­to­res, só vou des­ta­car o tex­to que não está nas duas pri­mei­ras pági­nas (e sim na 4ª) que fez meus olhos bri­lha­rem : fomen­tar, na área urba­na do muni­cí­pio, a for­ma­ção de uma rede de cen­tra­li­da­des com diver­si­da­de de usos para apro­xi­mar mora­dia, tra­ba­lho e demais espa­ços de ati­vi­da­des (arti­go 4º, item III).
Ou seja, mol­dar uma cida­de que não depen­da do infer­no de uma Ave­ni­da Bra­sil para poder pro­ver empre­gos e fun­ci­o­nar !
A bele­za de assis­tir àque­las pro­pa­gan­das sobre mobi­li­da­de urba­na e bici­cle­tas sem achá-las ridí­cu­las por estar a mais de 60 quilô­me­tros dis­tan­te do trabalho…

O estu­do me levou a outras pecu­li­a­ri­da­des bas­tan­te inte­res­san­tes que vou ten­tar lis­tar brevemente :

  • A taxa de per­me­a­bi­li­da­de dos terrenos ;
  • O licen­ci­a­men­to de obras e ati­vi­da­des (e a cons­ci­en­ti­za­ção de que minha pró­pria casa foi intei­ra­men­te refor­ma­da em con­di­ções abso­lu­ta­men­te irregulares);
  • O Estu­do de Impac­to Ambi­en­tal (EIA);
  • O Estu­do de Impac­to na Vizi­nhan­ça (EIV)…

De apren­der isso tudo e ter a cer­te­za de que nes­se mon­te de con­do­mí­ni­os cons­truí­dos por toda a cida­de nos últi­mos anos pro­va­vel­men­te não fize­ram nada dis­so : até têm a apa­rên­cia mais boni­ta que a das fave­las, mas cimen­ta­ram áre­as ori­gi­nal­men­te per­meá­veis, super­po­pu­la­ram espa­ços sem alar­ga­men­to de vias, não subs­ti­tuí­ram enca­na­men­tos e dei­xa­ram o equi­pa­men­to de trans­mis­são de ener­gia sub­di­men­si­o­na­do…
Ora, podem notar que os locais onde foram inse­ri­dos se tor­na­ram ver­da­dei­ras bom­bas demo­grá­fi­cas : engar­ra­fa­men­tos den­tro do bair­ro, fal­ta de água potá­vel, inun­da­ções, ala­ga­men­tos, apa­gões…
O Rio de Janei­ro con­ti­nua lin­do de mor­rer… de desgosto!!!

Tudo isso pare­ce mui­to, mas eu nem men­ci­o­nei a fal­ta de edu­ca­ção endê­mi­ca dos moto­ris­tas cari­o­cas e o trân­si­to no esti­lo cor­ri­da malu­ca, assim como dei­xei de fora a eter­na inse­gu­ran­ça de estar lidan­do com pes­so­as capa­zes de que­rer levar van­ta­gem em tudo, mes­mo ao cus­to do pre­juí­zo alheio.
Enfim, quan­do pego a Via Dutra e a mai­o­ria das ultra­pas­sa­gens é fei­ta — com seta ! — pela esquer­da.
Quan­do che­go numa cida­de onde as pes­so­as me olham nos olhos e demons­tram genuí­no inte­res­se em res­pon­der minhas ques­tões (além de me per­mi­tir fazer lei­tu­ra labi­al por con­ta da minha sur­dez!).
Quan­do a dife­ren­ça do valor da gaso­li­na gira em tor­no de 1 real a menos (por litro!)
Per­ce­bo que já pas­sou da minha hora de sair des­sa bagun­ça e ir cola­bo­rar com a soci­e­da­de em um espa­ço mais civi­li­za­do onde se é pos­sí­vel viver… e não ape­nas sobreviver.

A úni­ca coi­sa que me pren­dia a essa cida­de era minha mãe e, como refe­ren­ci­a­do no iní­cio do tex­to, sua par­ti­da trou­xe um rede­moi­nho na pers­pec­ti­va de minha vida : alí­vio pelo fim do sofri­men­to dela, deses­pe­ro finan­cei­ro e espe­ran­ça de mudan­ça… e essa últi­ma, de pro­por­ci­o­nar uma vida mais dig­na à minha famí­lia, exi­giu mui­ta deter­mi­na­ção : se a vida é uma mara­to­na, tinha che­ga­do o momen­to de reu­nir for­ças e ten­tar a

ARRANCADA FINAL

Esco­la Esta­du­al Ayr Pican­ço Bar­bo­sa de Almei­da.
Domin­go, dia 1º de dezem­bro de 2019.
Eu gos­ta­ria de estar cal­mo e con­cen­tra­do, mas se por fora con­se­guia pare­cer uma pes­soa qua­se nor­mal, por den­tro acon­te­cia uma tem­pes­ta­de psí­qui­ca e emo­ci­o­nal.
Tal­vez eu deves­se escon­der isso de todos, mas vou ten­tar trans­cre­ver um pou­co da sequên­cia que teve lugar em minha men­te após o Ales­san­dro ter me dei­xa­do na Pra­ça Guiricema.

Con­for­me anda­va em dire­ção ao por­tão da esco­la, ia lem­bran­do do que esta­va fazen­do exa­ta­men­te naque­le horá­rio do domin­go ante­ri­or.

Revi­vi a deso­la­ção pela não che­ga­da da ambu­lân­cia que minha irmã aci­o­na­ra des­de as 5:30h. Ten­tei não relem­brar que, ten­tan­do ace­le­rar o pro­ces­so, diri­gi pelo Bair­ro Adrya­na intei­ro paran­do para falar com os segu­ran­ças, entrei pela estra­da da Pos­se e fui até o West Shop­ping implo­rar aos poli­ci­ais que lá se posi­ci­o­nam para ten­tar o aci­o­na­men­to via rádio… depois vol­tei, sen­tei na varan­da e enquan­to toma­va café come­cei a sen­tir um frio inex­pli­cá­vel.
Após tan­tos anos con­vi­ven­do com os altos e bai­xos de minha mãe, não fui capaz de ante­ci­par que, daque­la vez, não iria ficar tudo nor­mal e deci­di ir em casa bus­car um casa­co e dei­xar a espo­sa e as cri­an­ças na igreja.

Os por­tões esta­vam aber­tos e eu entrei para encon­trar a sala onde iria rea­li­zar a prova.

Eu che­gan­do no por­tão e o tele­fo­ne tocan­do — “mamãe par­tiu”.
O sen­ti­men­to de impo­tên­cia, a incre­du­li­da­de de per­der mais alguém num domin­go, a che­ga­da para encon­trar seu cor­po sem vida, na cama, den­tro de casa.
A desor­dem men­tal, o deses­pe­ro para aci­o­nar os segu­ros (que não deram supor­te) e legis­ta, a ago­nia de infor­mar o fato às pes­so­as, o cons­tran­gi­men­to de não com­pre­en­der o que as pes­so­as fala­vam enquan­to me abraçavam…

Des­co­ber­ta a sala e enquan­to aguar­da­va o horá­rio para entrar, ten­tei me dis­trair baten­do uma foto do local que, em qual­quer outra oca­sião, apa­ren­ta­va ser bas­tan­te aco­lhe­dor.
Aber­ta a por­ta, seguir a nume­ra­ção cor­re­ta das car­tei­ras para encon­trar meu lugar, ficar obser­van­do a apa­rên­cia dos outros can­di­da­tos e ima­gi­nan­do as his­tó­ri­as de vida por trás daque­le momen­to que nos punha como opo­nen­tes em com­pe­ti­ção pela úni­ca vaga em jogo…

Pro­vas na mesa, rela­ti­va difi­cul­da­de para escu­tar as ins­tru­ções, faço cara de estar enten­den­do, boa sor­te a todos e PODEM COMEÇAR!!!
Enquan­to ia extrain­do tudo o que pude estu­dar, pula­va as ques­tões onde sen­tia con­fli­tos e cir­cu­la­va as pou­cas que já não enten­dia des­de o enun­ci­a­do.
Aca­bei a pas­sa­gem fácil e rei­ni­ci­ei ata­can­do ape­nas as sem cír­cu­los, com mui­ta aten­ção e lógi­ca : foi des­gas­tan­te e demo­rou bem mais do que eu espe­ra­va… mas aí as pes­so­as come­ça­ram a levan­tar e me assus­tei por não estar no meio da minha pro­va : ou esta­va con­cor­ren­do com gêni­os, ou isso sig­ni­fi­ca­va que eu tinha algu­ma van­ta­gem sobre mui­ta gen­te !
Por fim, pen­san­do que ain­da teria uma hora intei­ra, come­cei a debu­lhar os núme­ros cir­cu­la­dos, con­si­de­ran­do pri­mei­ro o que não pode­ria ser res­pos­ta : o cora­ção foi pulan­do cada vez mais for­te, o suor frio escor­ren­do pelas cos­tas, os bra­ços e as mãos come­ça­ram a tre­mer e eu pen­san­do que ain­da teria uma hora de sofri­men­to, mas, de repen­te, a fis­cal anun­ci­ou bem alto e eu não pude dei­xar de ouvir e enten­der : FALTAM 15 MINUTOS!!!
O cora­ção pino­te­a­va mais que cava­lo xucro e a mão já tre­mia tan­to que pin­tar com­ple­ta­men­te os qua­dra­di­nhos de res­pos­ta já era um desa­fio tão gran­de quan­to a reso­lu­ção das ques­tões : olhei pela jane­la atra­vés da qual podia enxer­gar a late­ral da resi­dên­cia ao lado, sen­ti o cli­ma agra­dá­vel que esta­va lá fora, ima­gi­nei o quão inten­sa­men­te eu que­ria morar naque­la cida­de e, chu­tan­do as últi­mas ques­tões, encer­rei minha tentativa.

Ora, se havia ape­nas uma vaga para tão cobi­ça­do car­go, já saí dali me con­si­de­ran­do fora do páreo : cer­ta­men­te há de exis­tir pes­soa bem ais trei­na­da que esse velho sur­do, capaz de gaba­ri­tar aque­le cer­ta­me e, tal­vez por já ser jose­en­se, con­ti­nu­ar resi­din­do na cida­de sem nem reco­nhe­cer o quão exce­len­te opor­tu­ni­da­de de vida está ten­do.
Não cho­rei, pois minhas lágri­mas havi­am seca­do na segun­da-fei­ra ante­ri­or enquan­to sepul­ta­va minha mãe, mas sen­ti uma deso­la­ção tama­nha que, ape­sar da pul­sa­ção já estar nor­ma­li­za­da, o pei­to doeu pelo tama­nho vazio que se ins­ta­lou lá den­tro.
Me sen­ti der­ro­ta­do.
Sen­tei no ban­co do pon­to de ôni­bus da Ave­ni­da Ouro Fino e, enquan­to espe­ra­va Ales­san­dro e a famí­lia saí­rem da igre­ja para me bus­car, obser­va­va os outros can­di­da­tos par­tin­do, o trá­fe­go fluin­do sua­ve pela via per­fei­ta­men­te pavi­men­ta­da, a tran­qui­li­da­de do inte­ri­or uni­da à qua­li­da­de de uma cida­de desen­vol­vi­da… e sofria por, mais uma vez, sen­tir que ain­da não era minha vez de poder me tor­nar cida­dão de São José dos Campos.

Minha caro­na che­gou : fomos para casa, almo­ça­mos e deci­di que ficar ali só aumen­ta­ria minha melan­co­lia.
Resol­vi pas­sar no Cen­ter Val­le pra com­prar uma capi­nha nova para meu celu­lar e aca­bei des­co­brin­do que o paraí­so não é per­fei­to : o shop­ping esta­va tão lota­do, mas tão lota­do… que pre­ci­sei dar três vol­tas intei­ras (inclu­si­ve no pré­dio-gara­gem) até achar uma vaga para esta­ci­o­nar!!
Quem dera os pro­ble­mas de minha cida­de se resu­mis­sem a isso…

Por hoje já falei demais, mas pode ter cer­te­za de que essa his­tó­ria ain­da pre­ci­sa de mais uma par­te para che­gar ao final : obri­ga­do por ter lido e, se gos­tou e qui­ser me aju­dar a ter uma pers­pec­ti­va de vida melhor, não vou ficar cha­te­a­do com comen­tá­ri­os, com­par­ti­lha­men­tos e cur­ti­das… você pode me ajudar ?

Me dá um “joi­nha”?
Gos­tou ? Me aju­de compartilhando…
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Geovane Souza

Já fiz e faço tantas coisas que só criando um site para concentrar e apresentar essa variedade.

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