Cabelo Ruim

NUNCA SENTI ORGULHO POR ALGO QUE SÓ ME TRAZIA PREOCUPAÇÃO E VERGONHA

Sorrio e desejo sorte todas as vezes que vejo pessoas, geralmente militantes, ostentando suas gigantescas jubas e dizendo que têm orgulho daquilo, pois meu cabelo era tão ruim que chegou a me fazer passar vexame em certas ocasiões e, por fim, virou até caso médico!
Só após ficar completamente sem ele consegui dormir melhor… e ser um pouco mais feliz!

Alguns momentos de minha primeira infância ficaram registrados com perfeição em minha memória: o dia em que o “meu” gato não apareceu para comer os restos de comida que deixava sobrar no prato; o dia em que a chuva chegou tão rápido que me pegou de surpresa no quintal; o dia em que o desgraçado do meu cunhado — que até hoje não entendo como minha irmã mais velha escolheu aquele traste e, sem dúvida, merecerá um capítulo à parte — assediou sexualmente minha outra irmã e ainda disse, entre outras obscenidades, que eu seria viado quando crescesse; o dia em que meu pai foi confrontado por ter outra mulher e agarrou a cabeça da minha irmã para tentar batê-la contra a quina do beliche…

São lembranças tão vívidas quanto o cheiro de henê que me despertava aos sábados pela manhã: lembro até do pirex —peça que resistiu por mais de 40 anos e seria histórica no museu de minha vida…se minha filha de um ano não o tivesse espatifado há dois meses! — onde elas preparavam aquela gosma ameaçadora — Sim! Lembro exatamente da frase “cuidado que vai te queimar!” e de estranhar como elas conseguiam passar no cabelo aquele troço que era tão insuportavelmente quente na ponta dos meus dedos — cujo odor marcante, apesar de inesquecível, não deixou saudade alguma.

Elas eram jovens, vaidosas para se submeter àquele procedimento… mas eu, filho caçula e temporão, além de não ver lógica alguma naquele ritual, odiava até quando cismavam de me pentear: nenhum dos motivos que me alegavam (asseio, beleza…) conseguiu — e isso até hoje! — me fazer gostar, por um momento sequer, do maldito cabelo pichaim com o qual nasci: o cabelo mais seco e crespo de todos os filhos de Dª Nair!

Esse ódio capilar era inato, presente desde a época de minha mais pura inocência, quando eu imaginava que minha prima Tânia, que estudava medicina, um dia poderia fazer um “transplante capilar”: para mesurar o nível de minha inocência, acho que essa prima, loira por sinal, foi uma das primeiras paixões de minha vida, pois quando ela chegava em algum lugar onde eu estivesse… eu corria para me esconder, até de baixo da cama! Não sei explicar a infantilidade que me acometia, mas desconfio que eu a achava tão bonita que ficava envergonhado de estar perto dela…

BARBEIRO

Era um termo aterrorizante, não pela tesoura, mas pelo pente que usava para “desembaraçar” o maldito cabelo ruim… lembro de um episódio em que, levado pela figura randômica de meu pai a um barbeiro estranho, fui tão “esticado” que passei o final de semana inteiro com dores de cabeça fortíssimas, tendo até que tomar remédio pois (não sei o que aquele carrasco fez com meu couro cabeludo, mas foi tão mau que) desencadeou uma febre das fortes!

Devo ser bem velho, pois estou aqui tentando lembrar e só me recordo da aparição da facilitadora “máquina” já na minha adolescência… acho que nasci tão pobre que isso não foi comum na minha área… só sei dizer que quando pareceu que as coisas iriam melhorar, ao mesmo tempo, maldita puberdade, ocorreram também as primeiras manifestações de uma foliculite crônica aguda que viria a me causar muita vergonha, dor e desconforto por bastante dos anos em que vivi!

Ah! Não pensem que o diagnóstico, que entreguei de mão beijada no parágrafo anterior, foi coisa fácil: nas primeiras manifestações, achou-se que seria alguma alergia à máquina do barbeiro. Mais tarde, levado ao posto de saúde, fui tratado como se tivesse psoríase e forçado a conviver com esse diagnóstico patético por muitos anos!

ATÉ NO PESCOÇO!!!

Enfim: eram bolhas, como espinhas, que estouravam formando feridas na parte traseira de minha cabeça, desde o “pé” do cabelo até lá no alto do “cocuruto”. Quando abertas, as chagas atraiam inconvenientes mosquinhas e eu próprio me sentia como se estivesse apodrecendo, fora que todas as fronhas ficavam sujas de sangue enquanto eu dormia. Quando fechadas, as casquinhas colavam vários cabelos em seu corpo, dando um aspecto falho, quase leproso… e foi desse jeito, como se o bullying pela gordura já não fosse suficiente, que eu entrei na adolescência!

POBRE, IMATURO E EXILADO

A opção mais comum era a carreira militar: sem um pai em casa para apoiar um ensino mais avançado, minha irmã — cheia das preocupações e num esforço financeiro — me matriculou em um pré-militar com 8ª série aos 13 anos e… isso é história para um outro dia, pois preto, pobre, míope (fator alegado para reprovação na EPCAR e no Colégio Naval, mesmo tendo passado na prova de conhecimentos) e com essa pereba na cabeça, aos 16 anos de idade passei, sem “cotas”, no concurso público para a EEAer, tendo sido emancipado (e, portanto, responsabilizado por meus próprios atos) desde então.

E, como o assunto aqui é cabelo, passei dois anos “driblando” os rígidos padrões capilares impostos a todos os alunos — não por deixar o cabelo maior, mas cortando ABAIXO, quase careca! — e nunca, mas nunca tendo usado nenhum dos travesseiros ou fronhas brancas fornecidos e regularmente vistoriados como quesito de arrumação e organização dos alojamentos: levava e trazia de casa, toda semana, uma “almofada de batalha”, cujo revestimento impermeável evitava que o sangue das chagas sujasse qualquer roupa de cama…

De Guaratinguetá para Manaus — onde cheguei, absolutamente órfão e imaturo, aos 18 anos — fui sobrevivendo aos trancos e barrancos, achando que, como meu irmão, também iria morrer naquela cidade: cheguei em agosto e em dezembro já fiz meu primeiro pedido de transferência de volta ao Rio de Janeiro (desespero que só foi atendido 4 anos e meio depois). O fato é que, vivendo por obrigação profissional na terra onde meu irmão fora assassinado, eu simplesmente odiava tudo e quase todos, vivendo numa infelicidade absoluta cuja frustração me tornava emocional e socialmente aleijado… somente após algum tempo fui me dar conta do quanto tudo isso colaborou para meu amadurecimento.

As, então, modestas dimensões da cidade acabavam promovendo uma “celebrização” de qualquer coisa que fosse diferente: foi esse o meu caso quando, em junho de 1994, antes de qualquer Ronaldinho ou Alexandre Frota, fui entrevistado pelo “A Crítica” acerca do meu “estilo” revolucionário, tendo me tornado capa da edição de domingo, com minha foto tendo aparecido junto às de gente como Patrícia Pillar e Edmundo, o Animal:

Na verdade, só vim a passar máquina zero na cabeça inteira uns dois anos após minha formatura, pois a “mentalidade de aluno” não foi facilmente superada… principalmente por conta do despreparo de meu primeiro chefe, um oficial, também negro, que, para enfrentar os preconceitos que ele próprio sofria, se extremava na hierarquia e, apesar de ter sido amigo de meu falecido irmão, foi a segunda das quatro figuras mais sebosas e antipáticas que permearam minha carreira militar: esse é um dos motivos pelos quais na notícia acima aparece “locutor” ao invés de “controlador de tráfego aéreo”…

Enfim, foi também durante esse exílio que construí algumas das amizades que vão perdurar pelo tempo de minha vida e, para encerrar o assunto, deixo um vídeo cujo conteúdo não é mais de minha inteira concordância, mas que não poderia ficar de fora de um documento onde falo sobre “Manaus” e “cabelo”:

MINHA REDENÇÃO CAPILAR

Foram muitos anos de vergonha pelas fronhas sujas de sangue, de constrangimento pelas mosquinhas voando ao redor… na verdade eu já tinha uma perspectiva tão péssima de mim mesmo que aguardava apenas o dia em que aquelas feridas iam, sei lá, criar raiz, virar um câncer e chegar até meu cérebro!

Mas então, por volta de 2008, minha afilhada-madrinha de casamento, Bruna Pietronave, me proporcionou um dos maiores presentes que já recebi de alguém nessa vida: atriz profissional e tendo atuado na Globo e na Record, na época também teve sua imagem utilizada em material promocional do Centro Capilar Sheila Bellotti, recebendo o direito de um tratamento completo e, graciosamente, lembrou de mim!

Tenho certeza que a Drª Sheila, que esperava tratar dos lindos cabelos de uma atriz, deve ter se espantado quando, em substituição, cheguei eu e minha cabeça cheia de perebas! Lembro perfeitamente de minha primeira consulta, quando ela utilizou uma espécie de luneta para bater fotos de meu couro cabeludo — viu, entre outras coisas, que saiam até OITO fios de cabelo através de um único poro!! — e, após essa entrevista, me pediu para aguardar, pois estaria levando meu material para estudo… na Alemanha!!

Fui convocado assim que ela retornou: o caso iria ser tratado com o uso de medicamentos e isso, confesso, não me animou muito, pois eu já havia perdido a conta do tanto de cremes, pastas, líquidos… tanta coisa que passei naquelas chagas. Ela então me deu uma receita formulada pessoalmente pelo Dr. Azulay — que, apesar da minha absoluta ignorância, é renomado e respeitado nos meios farmacêuticos — a ser produzida em uma farmácia de manipulação.

Foi engraçado, no dia seguinte, entregar a receita e ver as atendentes torcendo o nariz, chamando pelos funcionários mais antigos… até que, após algum tempo, o responsável veio até mim e disse que aquela fórmula não existia. Fiz uma cara de triste e, lembro bem, quando mencionei o nome “Azulay”, da mudança de expressão no rosto daquele homem: foi como se estivesse entregando um desafio em suas mãos! No final das contas, a solução ficou pronta em sete dias, tinha um leve cheiro de repolho e ardia bastante quando aplicada.

Houve, de fato, uma significativa melhora nas primeiras semanas e isso me deixou animado como nunca, porém, antes mesmo de meu primeiro retorno para o acompanhamento, as feridas abriram novamente suas bocas e, a despeito da ardência do medicamento, cresciam perceptivelmente… foi uma verdadeira frustração.

Na segunda consulta, lembro das referências de “acidez” e “alcalinidade”, assim como de uma receita que usaria até cinzas em sua composição. Achei aquilo tudo bastante exuberante, mas, desiludido comigo mesmo, propus um acordo à Drª. Sheila: eu seguiria minuciosamente todo o tratamento proposto, mas, se após um ano inteiro, não houvessem resultados… eu me submeteria a uma depilação laser completa em meu couro cabeludo! Sem querer considerar a possível falha do tratamento, ela ficou chocada (pois creio que eu deva ter sido o primeiro louco a solicitar tal procedimento) e disse, meio desolada, “mas… você vai ficar careca…?”

Seguiu-se um ano inteiro de tratamento e, conforme imaginei de meu cabelo ruim, o quadro não se resolveu, levando-me a questionar quando começariam as sessões e qual seria o custo, obtendo um “aguarde” como resposta: levando em conta a localização privilegiada da clínica e sua clientela estelar, eu temia não dispor dos possíveis valores pedidos pelas sessões. Em uma quinzena ela me telefona e diz haver se reunido com seus sócios e que não poderia ceder a gratuidade, mas, por meu cabelo ser uma questão muito além da simples estética, que iria cobrar apenas um valor simbólico… e, sem dúvida, assim o fez.

A rotina das sessões mensais era: chegar lá, lavar a cabeça, colocar bolsas de gelo na área e… fogo!!! Sim, o cheiro de pena de galinha queimada — só quem é das antigas, da época em que se matava e depenava galinha no fogo lembra desse fedor! — tomava conta do local e a dor do laser atingindo tudo o que era úmido — vasos, veias, artérias… especialmente essas das têmporas! — são lembranças inesquecíveis.

Sem dúvida alguma doeu… e doeu bastante! Saía de lá parecendo personagem de ficção científica e corria para casa, para colocar a cabeça debaixo d’água fresca. Houve uma ocasião em que não consegui conter as lágrimas por tanta dor…

Imagem 01 — Ainda no início da depilação a laser: reparem na parte de trás de minha cabeça, ainda com a carne esponjosa e cheia de inflamações! Imagem 02 — Como eu me sentia…

Por fim, após doze sofridas sessões, foi concluída uma fase extremamente sofrida e vergonhosa de minha vida e, com imensa e inesquecível gratidão tanto à Bruna quanto à Drª. Sheila e ao Dr. Paulo Coelho Jr., eu me tornei o careca mais feliz do mundo!
(Foi dito que mais tarde seria necessário um “reforço” nas sessões de depilação a laser, para manter a careca lisa, mas, fora os escassos recursos, tenho convivido bem com a penugem que aparece, removendo-a junto com os outros pelos no ato de barbear.)

ALGUM PROBLEMA?

1.Depois de tudo o que passei, ainda restam três coisas que posso afirmar em relação a cabelos:Meu cabelo era, comprovada e inegavelmente RUIM… o pior do mundo! Me fez mal enquanto existiu naturalmente e não há quem possa dizer o contrário. Portanto, quando vejo alguém ostentando uma juba ou um rastafári (moda também entre os brancos), só consigo pensar no trabalho que dá para manter esses mafuás… isso porque, sem cuidados, o treco também vai ficar nojento e fedido!! Não é racismo ou qualquer termo que os segregacionistas possam querer utilizar: é a simples e pura experiência de vida…

2.Acho que o trauma me levou a, por toda a minha vida, nunca haver me relacionado com mulheres negras ou com cabelos mais rebeldes: realizei meu sonho de casar com uma loura — ex-modelo e tudo! — e vi que cabelos, mesmo lisos, louros e lindos, nunca seriam coisa para mim, pois realmente dão trabalho! Amo-os quando estão lá, esplendorosos, na cabeça dela, mas não gosto nem um pouco quando os encontro se ajuntando pelo chão, agarrados nos tapetes, entupindo ralos, enroscados na minha barba… os piores aparecem, clandestinos, até no meio da comida!!

3.Minha filha tem, por culpa da minha genética, o cabelo bem menos pior que o meu, mas, ainda assim, ruim. Minha esposa assumiu seu despreparo e saiu pesquisando as melhores formas de cuidar de nossa bebê: técnicas como “Low poo”, “No poo”, uso de Kanechom… é uma tarefa difícil (na qual sou absolutamente incapaz de tomar parte) cujo resultado acaba sendo pouco visível nos primeiros anos e só desabrochará quando as madeixas crescerem, porém eu sei que é bem feito por sempre haver sentido o quão cheiroso é o cabelo de minha bebê… sempre! Dia desses fiquei indignado com uns parentes que ouviram dizer que a bebê não usa shampoo e, por isso, deduziram que os cabelos dela estariam fedendo e até causando reclamações na escola! Pior ainda foi ouvir alguém dizendo que se pegar a escova e desembaraçar… eles vão ficar lisos!!
Em suma: não precisamos de preconceito e discriminação racial que venham da rua, pois já temos o suficiente brotando, às vezes, dentro da própria família…

QUEM FALA O QUE QUER...