Um sonho dos surdos oralizados

Cinema Surdo

MAIS FÁCIL QUE FAZER SESSÕES PARA BEBÊS!

Só quem verdadeiramente não é capaz de ouvir pode saber a gama de privações que nos exclui de atividades que tão banais e essenciais como ouvir música, dançar… há casos em que nem mesmo recursos tecnológicos — como as próteses auditivas e os implantes cocleares — são suficientes para garantir a plena acessibilidade a coisas que, sem dúvida, poderiam promover bem estar e, consequentemente, a saúde psicológica de quem foi acometido pela surdez.

Ao contrário de minha última postagem e apesar do título remeter diretamente à clássica canção “Cinema Mudo”, dos Paralamas do Sucesso (que eu parafrasearia, na versão surda, como “Microfones em Recesso”), não vou falar de música hoje, mas de outra dentre minhas atividades preferidas nesta existência: ir ao cinema!

Aqui em casa nos tornamos pais em 2013 e só podíamos ir ao cinema se alguém se dispusesse a ficar com a menina ou, pior ainda: quando o filme era algum dos que eu considerava imperdíveis, acabava deixando tudo engatilhado e, após a criança dormir… partia sozinho (e, sem dúvida, cheio de remorso) para assistir alguma última sessão.
Mas antes mesmo que a bebê completasse seu primeiro aniversário minha esposa descobriu o maravilhoso Cinematerna, que promove sessões especiais de cinema, com condições adequadas à presença até de recém-nascidos!

Apesar de ter apenas admiração e elogios ao projeto, infelizmente não posso me ater realizando sua divulgação, ainda mais porque não me adianta mais apenas ser uma das sessões do projeto, pois após ter sido colhido pela surdez profunda eu acabei passando a ter necessidade extrema de, se quiser mesmo ter compreensão do filme, assistir apenas às exibições legendadas.
Eu até tentei, aproveitando as férias das crianças, assistir alguns desenhos animados dublados, mas ao invés de me alegrar com, por exemplo, “Wifi Ralph”… acabei saindo até meio depressivo, por ter perdido pelo menos metade das piadas.
Antes dele tinha tentado também “O Grinch”, mas como não estava com uma grande expectativa por ele, não liguei muito por ter perdido uns 70% do que foi dito e me contentei por ir compreendendo a mensagem visual.

Distribuindo amor pelo mundo
Peça impactante e esclarecedora a ser usada em qualquer ambiente, especialmente em escritórios

A questão é que completei três meses dessa incômoda surdez profunda ontem, 04 de fevereiro, e fora a aridez emocional por não conseguir diferenciar música de ruído, não vi nenhuma boa proposta para a inclusão de surdos aos cinemas e, dado o acentuado declínio educacional ocorrido no país no decorrer das duas últimas décadas, as exibições legendadas estão sendo relegadas às últimas sessões… isso se chegam a ser exibidas, pois a horda de analfabetos funcionais — seres incapazes de ler as letrinhas que “passam rápido demais” ou de sequer compreender, de fato, a sequência lógica do que está escrito, a despeito das imagens correlativas estarem sendo exibidas simultaneamente e logo atrás — cresce a cada dia e, afinal de contas, são estas as criaturas numerosas o suficiente para lotar as salas.

Tendo entrado e atuado nas comunidades de surdos oralizados há algum tempo, pude constatar que essa falta também é sentida por outras pessoas em diversos lugares do Brasil, especialmente em relação às produções nacionais!
Qual a vantagem de se esperar para comprar um DVD para assistir na televisão de casa quando todo mundo que foi ao cinema, viu na tela grande e já te contou spoilers até não poder mais?
Onde está a emoção por assistir algo velho, numa sala alternativa? Por mais que a obra seja interessante, acaba se parecendo mais com uma atividade cultural paralela do que com uma legítima ida ao cinema!
Da mesma forma, é claro que filmes culturais produzidos com finalidades didáticas e sociais têm seu valor, mas a diferença entre eles e as comédias, os romances, os dramas, as investigações, os suspenses e tudo mais que corre no grande circuito… é abissal!

MINHA PROPOSTA

Ora, criar uma organização — em moldes paralelos à que foi citada no início desse texto — com objetivo de atender aos surdos acaba requerendo bem menos condições especiais do que para mães de neonatos e crianças pequenas. Façamos uma comparação prática:

Nós não precisamos de volume reduzido, ar condicionado especialmente regulado, tapetinhos, trocadores de fraldas e muito menos ambiente iluminado! Além disso a gente dispensa salas com som espacial (tipo X-Plus ou coisa semelhante) e como a maioria dos filmes nacionais não usa recurso 3D… a gente só precisa mesmo é de uma salinha gostosa que se proponha a realizar uma sessão legendada dos filmes que comumente não têm legendas e ainda estão em cartaz: nem haveria necessidade de uma sessão fechada — qualquer um que quisesse comprar ingresso poderia entrar, ciente de que aquela sessão teria a particularidade de ser legendada — e muito menos de ocorrer no dia de estréia!

Como bom nerd cinéfilo, sei bem que tudo o que nasce gigante é monstro, poderíamos começar o projeto realizando sessões nas maiores capitais e, mediante divulgação do projeto e aumento do interesse, irmos expandindo gradualmente o alcance: em vez de precisar pelos festivais de acessibilidade, geralmente anuais, poderíamos estar tornando o ato de ir ao cinema relativamente mais cotidiano aos surdos oralizados.

Notem que até agora falei apenas de legendas e todos têm consciência de que isso atende principalmente aos surdos oralizados, mas, pela facilidade de execução, seria a característica da primeira fase do projeto: num segundo momento poderíamos planejar exibições sem legendas e exclusivas, com LIBRAS, aos surdos sinalizados.
Ainda não tive tempo nem recursos para me dedicar ao aprendizado dessa importante língua, mas já constatei que muitos outros surdos oralizados também não: a presença simultânea de um tradutor de LIBRAS e de legendas numa mesma tela acaba ocupando espaço demais e não fica bom para ninguém!
Uma de minhas ideias seria a de que profissionais tradutores tivessem acesso (antes da sessão especial, nunca antes do lançamento) à obra e pudessem ir narrando, presentes e ao vivo, o que fosse ocorrendo na tela… será que daria certo?

PARCERIAS

Ora, creio que as primeiras entidades a se interessar por essa proposta deveriam ser as fabricantes de AASI e IC: diante dos antipáticos valores cobrados por seus produtos, mostrar um pouco de atenção por seus consumidores certamente iria revestir o som do nome de suas marcas com um pouco mais de simpatia.

Os parceiros seguintes seriam as próprias redes de cinemas e também os shopping centers: criar uma única sessão legendada por filme por localidade seria uma operação de custo irrisório, porém iria revelar o interesse da marca em proporcionar a acessibilidade e promover a inclusão dos surdos no circuito cultural e de entretenimento… qual o tamanho do retorno social dessa iniciativa?

Os parceiros ocasionais seriam as lojas especializadas locais, relacionando-se ou não com os fabricantes, que poderiam fornecer mimos — como, por exemplo, potes com sílica desumidificadora ou kits de limpeza — a serem sorteados após as sessões, com garantias de poder exibir sua marca no acesso à sessão.

METAS

Sendo se uma sinceridade extrema, admito que chupei as metas da organização que me inspirou e adaptei às nossas necessidades:

  1. Resgate social do surdo através da cultura;
  2. Incentivar a troca de experiências entre surdos sobre as diversas questões da surdez, sempre com o intuito de difundir a cultura;
  3. Promover o esclarecimento e o conhecimento de temas, produtos e equipamentos relacionados à surdez, assim como aumentar a visibilidade dessa comunidade e a informação sobre suas necessidades em particular.

Será que tá bom?

QUEM AJUDA?

Instruções importantes
O autor desse texto é cheio das ideias…

Me perdoem pela sinceridade, mas sou obrigado a repetir que não vi ninguém nem chegando perto de propor algo parecido com isso e, sim, FAÇO QUESTÃO ABSOLUTA DE PARTICIPAR DE CADA PASSO DESSE PROCESSO e essa publicação em si mesma já é meu registro de autoria do projeto.

Você se animou com a ideia?
Que tal começar indo ali em cima e curtindo essa publicação?
Depois vá até página da Loja para Surdos Oralizados e curta também!

Quer ajudar a transformar esse sonho em realidade?
Sinta-se à vontade para compartilhar e enviar o link dessa publicação para quem você quiser, especialmente no caso de se tratar de algum dos parceiros em potencial citados!
Se quiser se envolver ainda mais através de trabalho voluntário, junte-se ao grupo Projeto Cinema Surdo.

Tem sugestões? Críticas construtivas?!
Por favor, não deixe de comentar.

Enfim, ideias vêm e ainda tenho expectativas que “Toda Forma de Surdez” alcance as mil curtidas para poder virar videoclipe… quem sabe não consiga ser exibido em alguma dessas sessões, antes do filme principal?

QUEM FALA O QUE QUER...