O Circunvoltear da Humanidade

… ACASO NÃO SOMOS HOMENS?

Não caminharás com quatro patas, essa é a Lei.
Não sorverás a bebida, essa é a Lei.
Não comerás carne nem peixe, essa é a Lei.
Não caçarás outros homens, essa é a Lei… acaso não somos homens?

A Ilha do Dr. Moreau — H. G. Wells (1896)

ONTEM, NO SUL…

O senhor Osmar foi preso em flagrante e permanece detido sem previsão de liberação por estar sendo acusado por porte de arma e antropofagofobia.

Ao pilotar sua motocicleta próximo aos galpões de uma fazenda abandonada — conforme relato do próprio suspeito — escutou um grito de dor e desespero vindo do interior de algum deles e, imaginando alguém em perigo, decidiu parar para tentar ajudar.
Nos dois primeiros que olhou nada encontrou, mas disse que no terceiro se deparou com uma das visões mais terríveis que já teve em sua vida: um homem — ainda não identificado — jazia desacordado, amarrado e cercado por um grupo de aproximadamente onze pessoas munidas de facas e cutelos que eram utilizados para fatiar a vítima. Além da grande quantidade de sangue, o senhor Osmar disse ter ficado atônito quando percebeu que as fatias de carne humana fresca eram consumidas de imediato pelos participantes do grupo.

Diante da situação — alegadamente grotesca — , Osmar sacou de sua inseparável pistola Glock G30S e, com aproveitamento de 100%, conseguiu eliminar 10 dos 11 indivíduos presentes.
Segundo ele, ao perceber que estavam sendo alvejados os canibais não fugiam e, pelo contrário, partiam para o ataque: “dava para ver uma ira sobrenatural nos olhos deles… parecia que não eram seres humanos!” — disse o suspeito — “com o último, que parecia o líder, eu tive que lutar desarmado e foi muito difícil, pois ele carregava uma adaga dessas de ritual e acabei tendo de apelar para o cutelo caído de um de seus próprios companheiros mortos… e mesmo com a mão direita decepada o indivíduo oferecia resistência, até que o pus desacordado com uma pancada (com as costas do cutelo) na cabeça!”

Livre dos atacantes, Osmar pode se aproximar da vítima: “era um homem, bastante musculoso por sinal, que já tinha várias partes internas do seu corpo expostas, inclusive o osso de uma coxa e alguns órgãos do sistema digestivo, mas ainda estava vivo… agonizante, mas vivo.”
Sem sinal de sua operadora, Osmar usou as próprias amarras da vítima para imobilizar o atacante, adaptando, em seguida, uma carroça abandonada para conseguir transportar ambos até a delegacia mais próxima, onde se apresentou e, a despeito de haver solicitado a confecção de um termo circunstanciado e estar disposto a assinar um termo de compromisso, foi preso em flagrante.

LIBERDADE & PROGRESSO

Apesar da minuciosa descrição apresentada pelo senhor Osmar, os policiais que foram, ainda na madrugada, até o local para diligência não encontraram a pistola, nenhum dos dez corpos nem sinais de que ocorreu violência… em nenhum dos galpões.

Esta manhã, a despeito da amputação, o suposto agressor fez questão de se manifestar assim que recobrou a consciência e, ainda no hospital, convocou a imprensa para uma coletiva. Tendo sua identidade real preservada por motivo da investigação, se identificou como Deco e desabafou:

Vem meu ursinho querido…

“Sou representante de uma minoria perseguida e ninguém respeita minha cultura ou minha fé!!
A maioria da humanidade não tolera os canibais, mas ignora que esse é um comportamento presente na natureza e encontrado, aliás, com muito mais frequência que o próprio homossexualismo, cujo movimento fica cavando um animal aqui, outro lá, para poder alegar que é algo natural… o canibalismo ocorre a todo o momento e é comum não apenas entre insetos como os louva-a-deus e as aranhas, mas em espécies muito mais evoluídas como
coelhos, ursos, hipopótamos e felinos como leões e leopardos… até mesmo alguns símios, como chimpanzés e orangotangos, praticam isso… porque É NATURAL!!!
Este episódio representa um grande retrocesso para a humanidade em geral, pois prova que não estamos prontos para evoluir e compreender quem é ou age diferente!!”
.

Quando questionado acerca do episódio da noite anterior, o Deco não hesitou:
“O que estava acontecendo ontem era uma celebração!
Eu e meu namorado somos adultos e tudo o que estávamos fazendo era consentido: aquele criminoso preconceituoso e retrógrado que invadiu nossa privacidade para tomar nosso objeto cerimonial e causar todo esse mal que vocês podem ver por si próprios!
Quer maior intimidade do que fazer a digestão de um pedaço do quem amamos?!? Na verdade, havíamos combinado de comer apenas um pedaço de nossas coxas… (CHORO) … e esse animal chegou, nos nocauteou e, para nos incriminar, causou esse imenso estrago… muito maior do que jamais poderíamos imaginar!”

O PLANO DAS SEIS ETAPAS PARA A MUDANÇA DO COMPORTAMENTO

Etapa 1. Alguma prática tão ofensiva que nem deveria ser discutida em público é defendida por um especialista respeitado em um fórum respeitável.
Etapa 2. A princípio, o público fica chocado, depois indignado.
Etapa 3. No entanto, o simples fato que tal coisa tenha sido debatida publicamente torna-se o assunto do debate.
Etapa 4. No processo, a repetição prolongada do assunto chocante em discussão gradualmente vai anulando seu efeito.
Etapa 5. As pessoas não ficam mais chocadas com o assunto.
Etapa 6. Não mais indignadas, as pessoas começam a debater posições para moderar o extremo ou aceitam a premissa, procurando os modos de atingí-la.

Site: A Espada do Espírito

EM 3 SEMANAS…

Diante do grande destaque dado pela mídia, especialmente após a morte da vítima — não identificada e sem haver prestado depoimento — no hospital.

Osmar, sob acusação de crime doloso, permanece em prisão preventiva e o desaparecimento de alguns ativistas — abastados e influentes — o tornam suspeito de uma chacina impossível de ser comprovada. Com base em sua “intolerância” é criado e se populariza o termo “antropofagofobia”.

Isso não é impossível...

A simpatia, a sensibilidade e a condição de “vítima” conduzem Deco a um intenso relacionamento com a mídia, alçando-o ao status de celebridade e seu pseudônimo acaba alcançando tamanha fama que seu verdadeiro nome jamais poderia atingir. Após participação especial no programa da Fátima Bernardes, logo estampa sua primeira capa de revista e gera aguerridas discussões sobre o canibalismo.
Diversos especialistas alegam estar estudando e, em pouco tempo, começam a surgir os defensores do canibalismo como legítima forma de expressão humana, sugerindo uma reavaliação do tema e, até mesmo, um mecanismo legal de proteção a seus praticantes.

RELIGIÃO

“E, tendo dado graças, o partiu e disse: tomai, comei; isto é o meu corpo que é partido por vós; fazei isto em memória de mim.”

1 Coríntios 11:24

Foi com base nessa passagem o famoso pastor americano Rich Whoren fundou a 1ª Igreja Evangélica Canibal Mundial, cujos métodos revolucionários — e patenteados — têm sido adotados por diversas denominações e há filiais se espalhando como incêndio por todo o mundo. Segundo ele: “essa passagem é a prova de que Cristo foi um grande incentivador do canibalismo! Assim como Ele não rejeitava ninguém, também foi um revolucionário à frente de seu tempo, sendo capaz de identificar as necessidades sentidas por nós, no futuro, e sinalizar que a verdadeira comunhão, com Ele e com os irmãos, pode ter um caráter alimentar muito diferente do que se acreditou no decorrer da história!”.

Sobre marketing e a sua perspectiva como empresa eclesiástica:
“Tudo aqui foi minuciosamente planejado para arrastarmos gente que se sente incompleta em outras igrejas, especialmente os católicos e sua ilusória doutrina de transubstanciação: aqui a prática da fé estará um nível acima, oferecendo de fato o que, no catolicismo, sempre deixa frustrados os que realmente querem uma experiência mais verossímil em relação ao corpo do senhor.”

Acrescenta ainda sobre a história de sua igreja:
“No ato da fundação fui inspirado não apenas pelo próprio Cristo, mas também por um grande ser iluminado que habita no Brasil e de quem não posso usar o nome em vão, mas que certamente, se for eleito em 2018, terá um desempenho capaz de rivalizar com o do próprio Deus: cortei meu dedo mindinho e dei-o para que meus diáconos e auxiliares pudessem consumir-me e, dessa forma, serem um comigo que, por sinal, sou um com deus!!”.

Sobre as acusações de desaparecimento de alguns fiéis:
“É claro que tudo o que é novo e revolucionário necessita de ajustes, mas essa acusação diz respeito a um episódio isolado que aconteceu numa filial da África, onde o povo de entregou com muito fervor à celebração e… bem, a menina não chegou a desaparecer por completo, pois ainda restaram a cabeça e os pés para podermos lembrar que ela partiu para a comunhão mais íntima possível com nosso deus.” — e ainda sobre as práticas religiosas — “Apesar do grande desejo, nós, os líderes santificados e precursores, como os únicos conhecedores da visão canibal, não podemos nos doar por inteiro, mas todos os outros podem demonstrar seu amor sem restrições! Somos, sim, uma igreja inclusiva e estamos abertos a todas as pessoas de todas as raças e orientações… óbvio que, para não causar nenhuma grande contaminação, realizamos vários exames como o de HIV e outras doenças contagiosas: não queremos forçar deus a ter que ficar realizando curas milagrosas, não é mesmo?”.

Ei! De quem é essa mão?

Rich ainda mencionou estar estudando antigos manuscritos ocultos que podem revelar fatos muito importantes sobre um possível retorno do jovem rico —famoso por ter sido mencionado em Mateus 19: 16–22, Marcos 10:17–23 e ainda Lucas 18:18–25 — que, mesmo sem ter obedecido a instrução dada pelo próprio Jesus, acabou sendo aceito, mais tarde, numa comunidade de cristãos progressistas e revolucionários para sua época!
Por fim, ainda alegou estar estudando um mecanismo de lei para cotas, de modo que a cada semana fosse comi… digo, ingerido em ritual sagrado uma pessoa, mesmo que não fiel, de etnia e orientação diferente… para “essa lei nos permitiria ‘dar uma variada’, não é mesmo? Poder lançar mão de transeuntes desavisados demonstraria a mais verdadeira e pura união da religião com os direitos humanos!”.
Despediu-se com um tímido aceno.

CULTURA

“É evidente que, desde os primórdios da humanidade, o canibalismo tem importância fundamental ao desenvolvimento saudável de uma sociedade!” — afirma o antropólogo grego Sarx Fagoust, curador da mostra “Nós Se Come Por Aí”, exibida no Museu de Arte Promíscua de Sacanolândia:

“Além das historicamente conhecidas tribos indígenas, que devoravam seus adversários crendo que através disso iriam poder obter suas capacidades, temos representações de antropofagia até mesmo na arte clássica, como na famosa ‘pintura negra’ de Goya onde podemos ver Saturno, rei dos titãs, devorando um de seus próprios filhos… que poderosa representação do amor paternal, não é mesmo?”.

Próximo a nós, a militante feminista Beth Dedos se impressionou com a mensagem da pintura e ficou animada para participar, com a filha, de uma performance arrojada onde um dançarino comeria pedaços de criancinhas que, autorizadas pelos pais, passassem por perto. O entusiasmo de sua declaração nos cativou:
“Seguindo a orientação do movimento, eu ia abortar essa desgraça, mas aí pensei que poderia deixar nascer e treinar para engrossar as fileiras do movimento, não é mesmo? Então, como estamos buscando financiamento pela Lei Rouanet, decidi aparecer em tudo o que é evento de militância possível: já coloquei ela pelada em cima de um hipopótamo cor de rosa, outro dia ficamos trancadas em um quarto de vidro com vapores de cannabis e hoje acho que vou deixar esse artista magnífico comer a orelha esquerda dela, em homenagem a Van Gogh, que fez essa pintura maravilhosa e capaz de expressar exatamente o que sinto por minha filha!”.

A despeito de nossos esforços para esclarecer que Goya não é Van Gogh, as duas saíram sem ouvir e, cuidadosamente orientada pela mãe, a pequena não só teve sua orelha esquerda arrancada e comida pelo dançarino, mas acabou sendo agraciada com um pedaço do pinto dele que, sem deixar de oferecer à amorosa mamãe, devorou com avidez… extasiada por conhecer as expressões mais puras da arte!

PRECONCEITO E INTOLERÂNCIA

Essa é a alegação dos participantes do movimento canibal em relação à sociedade, pois se sentem discriminados ao não poder comer pedaços das pessoas que transitam em vias públicas:
“A gente só quer ser aceito da forma que nós somos!!” — disse um membro do movimento enquanto, no meio de um protesto, mordiscava um pedaço de antebraço — “Como pode alguém que nunca provou um pedacinho de gente querer criticar a nossa vontade?! É puro preconceito não deixar nós arrancar um dedo… até um braço… pra poder comer!! Essa é uma sociedade conservadora que está cometendo diariamente crimes de antropofagofobia: os mano chega pra comer só uma orelhinha e leva tiro?!? Como pode os cidadão andar armado, podendo cometer essas violência com nós?!?”

Alguns deputados e senadores ouviram e se debruçaram sobre as questões antropofágicas e decidiram implementar um projeto de conscientização da sociedade: a começar pelo restabelecimento do culto a Moloch, avançaremos também através de eventos em escolas onde serão oferecidos pedaços de doadores anônimos — desde que o material esteja dentro das condições sanitárias ideias de conservação e consumo, não importa se a fonte foi um doador vivo ou algum anônimo recém-falecido — às crianças, planejam criar, no futuro, uma sociedade mais tolerante aos hábitos de canibalismo, possibilitando a integração social dessa minoria tão discriminada.
Segundo o prefeito de São Paulo, a difusão do hábito canibal iria diminuir e muito a fome que fustiga a humanidade, pois, já que pobre não tem cardápio, a introdução de alimentos de fácil acesso poderia causar uma revolução nos projetos sociais.


“Não removas os limites antigos nem entres nos campos dos órfãos, Porque o seu redentor é poderoso; e pleiteará a causa deles contra ti.”

Provérbios 23:10–11

Sim, essa é uma ficção revestida de uma veracidade dolorosa e, em suas devidas proporções, bastante plausível de se tornar uma terrível realidade num futuro não tão distante.
Ao contrário do que possa parecer indicado através da ilustração inicial, não sou evolucionista, porém, ainda que fosse, ficaria alarmado por observar o ser humano, tão “avançado”, a cada dia se degenerando e transformando numa criatura mais animalesca que nossos supostos “ancestrais”…
Não tenho pretensão e, certamente, nós não vamos salvar esse mundo, mas ainda há esperança de salvação para alguns: se você compreendeu, por favor… curta, comente e compartilhe!

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