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LÓGICA LÚCIDA DO PIOR CARIOCA DO MUNDO

Tem­po esti­ma­do de lei­tu­ra : 2 min

O ano era 1989.
Qua­se todos os domin­gos eu, então com 16 anos, saía da rodo­viá­ria do bair­ro de Cam­po Gran­de (RJ) e seguia num ôni­bus da Via­ção São José por um melan­có­li­co tra­je­to atra­vés da anti­ga Estra­da Rio-São Pau­lo até alcan­çar a Via Dutra : entre o “Km 32” e Sero­pé­di­ca esta­vam na estra­da as deze­nas de que­bra-molas, as pecu­li­a­res mar­gens (poei­ren­tas nos dias secos, enla­me­a­das na chu­va) que davam aces­so à suces­são de trans­ver­sais não asfal­ta­das, o mata­gal sel­va­gem… uma sen­sa­ção níti­da de Velho Oes­te, sem cui­da­do nem urba­ni­za­ção básica.

A obri­ga­tó­ria para­da no Domi­nan­te, logo após a subi­da da Ser­ra das Ara­ras, era um de meus últi­mos momen­tos antes de sub­mer­gir na incons­ci­ên­cia e acor­dar den­tro da Esco­la de Espe­ci­a­lis­tas de Aero­náu­ti­ca, na peque­na e paca­ta cida­de de Gua­ra­tin­gue­tá (SP), de onde pou­co saía para explo­rar o muni­cí­pio e sua estru­tu­ra urba­na.
Minha per­so­na­li­da­de ain­da esta­va em for­ma­ção e, “cari­o­ca eish­per­to” (eu sei que a gra­fia cor­re­ta é “esper­to”, mas que­ro que lei­am chi­a­do como o sota­que daqui), ouvir as aven­tu­ras sobre súbi­tas e fuga­zes pai­xões e demons­tra­ções de ódio explí­ci­to vivi­das por outros alu­nos já era sufi­ci­en­te para saber que, além de não ser­mos os per­so­na­gens mais que­ri­dos da loca­li­da­de, a men­ta­li­da­de, os recur­sos e o modo de vida pare­ci­am ser bas­tan­te provincianos.

1997

Após um perío­do que deno­mi­no “meu exí­lio em Manaus” — expe­ri­ên­cia que hoje seria capaz de viver de for­ma com­ple­ta­men­te dife­ren­te — havia pou­co mais de um ano que retor­na­ra ao meu ama­do e ido­la­tra­do Rio de Janei­ro.
Eram os pri­mór­di­os de meu ama­du­re­ci­men­to e ocu­pa­va a insó­li­ta fun­ção de “pre­fei­to do Des­ta­ca­men­to de Pro­te­ção ao Voo de San­ta Cruz” à qual fui desig­na­do para exer­cer duran­te ape­nas um mês, mas onde aca­bei encon­tran­do tama­nha ade­qua­ção voca­ci­o­nal que já havia arru­ma­do for­mas para pro­lon­gar meu “man­da­to” por qua­se um ano : enquan­to qual­quer um que sobe numa Tor­re de Con­tro­le (para pas­sar horas a fio, suar san­gue, sal­var vidas… mor­rer de ata­que car­día­co sem lar­gar o micro­fo­ne!) sem­pre aca­ba obten­do pou­co ou nenhum reco­nhe­ci­men­to por seu tra­ba­lho, ali eu exer­cia uma fun­ção de rela­ci­o­na­men­to dire­to com subal­ter­nos e supe­ri­o­res, pro­ven­do ser­vi­ços, cum­prin­do pra­zos e com pode­res para pre­mi­ar ou punir os desem­pe­nhos de cada mem­bro da equi­pe !
Nun­ca puni nin­guém — ou ao menos não me lem­bro dis­so — e guar­do a doce sen­sa­ção de sem­pre ter pre­mi­a­do todos da equi­pe pela exe­cu­ção das tare­fas antes dos pra­zos esta­be­le­ci­dos.
O melhor de tudo era só pre­ci­sar me repor­tar dire­ta­men­te a meu coman­dan­te, sem inter­fe­rên­cia, sem inter­pre­ta­ções con­fu­sas, sem gen­te que­ren­do apa­re­cer nem puxa­ção de saco :
— É pra fazer isso até as 16:00h de ama­nhã !
— Sim senhor !
No dia seguin­te, ao meio-dia :
— Tudo pron­to, senhor !
— Já aca­bou?!?! Vou lá vis­to­ri­ar…
Ia lá o che­fe, olha­va, pro­cu­ra­va falhas e, não ten­do o que inven­tar, reco­nhe­cia :
— Está per­fei­to. Que­ro todo mun­do aqui ama­nhã no iní­cio do expe­di­en­te, mas por hoje… pode dis­pen­sar a equi­pe.

Eu nun­ca bebi uma cer­ve­ja com meu coman­dan­te (por­que não bebo mes­mo), nun­ca pre­pa­rei nem ser­vi um café, mas o que res­tou dis­so foi a ami­za­de eter­na com meus sol­da­dos e o des­pei­to mor­tal que aca­bei rece­ben­do de alguns outros gra­du­a­dos, afi­nal… eu era “o peixe”.

O fato é que qual­quer entu­si­as­mo que pudes­se ter por ser con­tro­la­dor de trá­fe­go aéreo esta­va bas­tan­te apa­ga­do e esta­va sen­do não ape­nas feliz com minha equi­pe cor­tan­do (e, o melhor de tudo, quei­man­do!!!) quilô­me­tros de mata­gal e cui­dan­do da estru­tu­ra da segu­ran­ça de voo antes dos pra­zos, mas rea­li­za­do por esse tra­ba­lho ser vis­to e reco­nhe­ci­do !
Cer­ta­men­te dese­ja­ria ter fica­do ali pelo res­to de minha car­rei­ra, mas um dia pro­me­to escre­ver con­tan­do como foram as tra­mas sór­di­das que deram iní­cio ao fim da minha vida mili­tar, por enquan­to admi­to estar des­vi­an­do do pro­pó­si­to des­se tex­to e que tudo isso só foi dito como intro­du­ção para o rela­to da mis­são que fui orde­na­do a rea­li­zar para São José dos Campos.

Vou ten­tar resu­mir o máxi­mo pos­sí­vel : o 1º GCC pre­ci­sa­va tes­tar uma “tor­re de con­tro­le móvel” que esta­va sen­do cons­truí­da entre pis­ci­nas e toboá­guas numa empre­sa de São José dos Cam­pos e meu che­fe deci­diu que eu seria o con­du­tor per­fei­to para a Mer­ce­des Sprin­ter zera­da que o DPV-SC iria empres­tar tan­to para con­du­zir a equi­pe até lá quan­to para dar supor­te em seus des­lo­ca­men­tos no decor­rer da mis­são.
Na épo­ca com 23 anos, eu esta­va me adap­tan­do bem ao meu pri­mei­ro car­ro, um gigan­tes­co San­ta­na Quan­tum 85, e não vi pro­ble­ma algum em con­du­zir um veí­cu­lo que exi­gia uma cate­go­ria de habi­li­ta­ção aci­ma da que eu só fui obter em maio daque­le ano : éra­mos 11 pes­so­as ao todo, fomos e vol­ta­mos sua­ve e per­fei­ta­men­te… ou quase.

A ver­da­de é que, desa­cos­tu­ma­do das dimen­sões par­ru­das do fur­gão, duran­te uma mano­bra de esta­ci­o­na­men­to aca­bei dani­fi­can­do o retro­vi­sor direi­to da Sprin­ter e, numa era onde não exis­tia Goo­gle e deses­pe­ra­do para man­ter minha ficha lim­pa, virei a cida­de de per­nas pro ar atrás de uma solu­ção, só vin­do a encon­trar numa auto­ri­za­da Mer­ce­des que fica­va na Via Dutra, mas era pro­du­to adqui­ri­do sob enco­men­da e só che­ga­ria den­tro de 15 dias, fora o pre­ço, que era mai­or do que meu sol­do daque­le mês !
Enfim, foram mui­tas lições abso­lu­ta­men­te ines­que­cí­veis : que o die­sel é mais bara­to e ren­de mui­to mais que a gaso­li­na ; que São José dos Cam­pos era pou­co mais do que uma vila boni­ti­nha (mas care­cia, e mui­to, de recur­sos); que a tor­re de con­tro­le móvel que eu até che­guei a tes­tar sumiu na his­tó­ria ; e que os espe­ci­a­lis­tas em repa­ros de lan­ter­nas e retro­vi­so­res da Ave­ni­da San­ta Cruz, em San­tís­si­mo (RJ), são qua­se mági­cos !
Não fui pre­so e até hoje não sei se des­co­bri­ram sobre o aci­den­te com o retrovisor…

Em duas outras opor­tu­ni­da­des retor­nei a São José dos Cam­pos para cur­sos rela­ci­o­na­dos à segu­ran­ça do espa­ço aéreo, mas já esta­va ini­ci­an­do o pro­ces­so de depres­são e ansi­e­da­de que cul­mi­na­ram em minha refor­ma e não pude obser­var a cida­de com minha ple­na capa­ci­da­de ana­lí­ti­ca : o cur­so era notur­no, então a roti­na se resu­mia a, com­ple­ta­men­te sem moti­va­ção, estu­dar mui­to des­de que acor­da­va até a hora de ir para a sala de aula.
Foi mui­to difí­cil e só guar­do a boa sen­sa­ção dos dois dias em que fui, cami­nhan­do mes­mo, almo­çar no Cen­ter­Va­le Shop­ping e aca­bei assis­tin­do à uma ses­são pro­mo­ci­o­nal de cine­ma.
Ah ! No encer­ra­men­to do cur­so até hou­ve uma con­fra­ter­ni­za­ção no kar­tó­dro­mo, mas além de ter sido a noi­te… eu, sem­pre mons­tru­o­so, não cabia nos karts!!!

24 DE MARÇO DE 2018, SÁBADO

Saí bem cedo de casa, em Cam­po Gran­de (RJ), com des­ti­no a São José dos Cam­pos e segui o mes­mo tra­je­to de 1989 : anti­ga Estra­da Rio-São Pau­lo, “Km 32”, Sero­pé­di­ca…
As deze­nas de que­bra-molas vira­ram bura­cos, mas as mar­gens, poei­ren­tas ou enla­me­a­das, a suces­são de trans­ver­sais não asfal­ta­das, o mata­gal sel­va­gem… não muda­ram nada e aque­la sen­sa­ção níti­da de Velho Oes­te, sem cui­da­do nem urba­ni­za­ção bási­ca é exa­ta­men­te a mes­ma !
Não sei se o fato de estar em meu car­ro e com a famí­lia pode­ria mudar minha per­cep­ção, mas pare­ceu mui­to mais rápi­do alcan­çar a Via Dutra, subir a Ser­ra das Ara­ras e, decep­ção com­ple­ta, encon­trar as ruí­nas vazi­as de um Domi­nan­te impres­tá­vel para mos­trar às minhas crianças.

Na ver­da­de esta­va indo meio que para “cum­prir tabe­la”: refor­ma­do des­de 2008, sem pro­mo­ção ao pos­to supe­ri­or e com ven­ci­men­tos pro­por­ci­o­nais ao tem­po de ser­vi­ço pres­ta­do, as neces­si­da­des finan­cei­ras já indi­ca­vam que os ganhos com a roti­na ale­a­tó­ria de even­tos como fre­e­lan­cer não seri­am sufi­ci­en­tes para suprir a gigan­tes­ca deman­da mone­tá­ria da infân­cia de meus filhos e da velhi­ce de minha mãe.
Havia me pre­pa­ra­do com dedi­ca­ção para o con­cur­so de auxi­li­ar admi­nis­tra­ti­vo do Tri­bu­nal de Jus­ti­ça do Para­ná, mas o cer­ta­me foi adi­a­do sem data pre­vis­ta e, ain­da com cer­ta memó­ria do con­teú­do estu­da­do, apa­re­ceu a opor­tu­ni­da­de para o mes­mo car­go no Tri­bu­nal de Jus­ti­ça de São Pau­lo !
Como minha sobri­nha havia aca­ba­do de se mudar para a cida­de, achei inte­res­san­te optar por um car­go naque­la região, mas minhas expec­ta­ti­vas eram bai­xas : caso apro­va­do, espe­ra­va ir viver numa paca­ta e qua­se cai­pi­ra vila do Vale do Paraí­ba, pois, pelo menos, esta­ria lon­ge do calor e da cri­mi­na­li­da­de do Rio de Janei­ro assim como, caso ocor­res­se algu­ma emer­gên­cia com minha mãe, seria capaz de estar pre­sen­te em menos de três horas…

Tapa na tes­ta !
Ao livrar a Dutra e ingres­sar na Ave­ni­da Flo­res­tan Fer­nan­des logo per­ce­bi que, ao con­trá­rio da depri­men­te estag­na­ção e degra­da­ção das loca­li­da­des cari­o­cas no tra­je­to, aqui­lo ali de vila cai­pi­ra não tinha mais nada!!
Vias lar­gas e per­fei­ta­men­te pavi­men­ta­das, novos pré­di­os e cons­tru­ções se mul­ti­pli­can­do e apon­tan­do que a evo­lu­ção não pas­sou lá per­to de casa… na ver­da­de ela deve ter é fugi­do com medo do Rio de Janei­ro, gover­no e popu­la­ção !
Já era iní­cio de tar­de quan­do esta­ci­o­na­mos no Hel­bor Pae­sag­gio e, pro­va do con­cur­so ini­ci­an­do às 13:00h do dia seguin­te, não podia sequer ir re-conhe­cer (no sen­ti­do de “conhe­cer de novo”) aque­la estru­tu­ra urba­na impres­si­o­nan­te que se reve­la­va dian­te de meus olhos : foi só o tem­po de tomar um banho e sen­tar na sala (com aque­la vis­ta mag­ní­fi­ca) para fazer uma últi­ma revi­são de conteúdo.

O fato é que toda a minha moti­va­ção para estu­do havia sido incer­ta e só fiquei mes­mo com von­ta­de de pas­sar quan­do aden­trei a cida­de : os deta­lhes dos pro­ce­di­men­tos e regu­la­men­tos locais do TJ-SP são ligei­ra­men­te vari­a­dos dos do TJ-PR e nem dei mui­ta aten­ção a eles, man­ten­do o foco em Códi­gos Penal e Civil, Cons­ti­tui­ção, Mate­má­ti­ca… só que, infe­liz­men­te, a cabe­ça já esta­va em para­fu­so e tive ple­na cons­ci­ên­cia de que me pre­pa­rei para jogar na vár­zea e des­co­bri que o jogo era, sei lá (odeio fute­bol), no Paca­em­bu!!
A sen­sa­ção era tão for­te que nem dor­mir direi­to con­se­gui. Hoje, aqui nes­se tex­to, essa pos­ta­gem que fiz no dia (com a foto que esco­lhi para ilus­trar esse tex­to) pas­sa a fazer ain­da mais sentido :

Foi a úni­ca vez em que me arre­pen­di des­se meu cos­tu­me de não que­rer dar tra­ba­lho a nin­guém : pro­va con­clu­sa às 17:00h, per­mi­ti que a exaus­tão me domi­nas­se e fui pra casa da sobri­nha, onde apa­guei até a manhã de segun­da e par­ti­mos de vol­ta ao Hell de Janei­ro assim que des­per­ta­mos.
Mas então o dese­jo de ficar e conhe­cer mais da cida­de só era menor que a von­ta­de de ter uma vida melhor… e isso já esta­va ger­mi­nan­do for­te em meus cora­ção e men­te.
Des­de aque­la oca­sião eu sim­ples­men­te não con­se­gui­ria mais parar de pen­sar em um jei­to de me mudar com famí­lia, mala e cuia para as ter­ras jose­en­ses.
Ah ! Não pos­so ser vai­do­so a pon­to de escon­der o resul­ta­do do con­cur­so : habi­li­ta­do, mas não con­vo­ca­do para a segun­da fase… mes­mo ten­do con­cor­ri­do na lis­ta espe­ci­al por ser sur­do (ape­nas) mode­ra­do na ocasião.

Por hoje já falei demais, mas pode ter cer­te­za de que essa his­tó­ria vai ter con­ti­nu­a­ção mui­to em bre­ve : obri­ga­do por ter lido e, se gos­tou e qui­ser me aju­dar a ter uma pers­pec­ti­va de vida melhor, não vou ficar cha­te­a­do com comen­tá­ri­os, com­par­ti­lha­men­tos e cur­ti­das… você pode me ajudar ?

Me dá um “joi­nha”?
Gos­tou ? Me aju­de compartilhando…
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    Sha­res

Geovane Souza

Já fiz e faço tantas coisas que só criando um site para concentrar e apresentar essa variedade.

  • Leo Kalota disse:

    Fala meu ami­go.. mui­to legal a his­tó­ria. Estou ansi­o­so para os pró­xi­mos capí­tu­los. Valeeeeu
    Ps : vc escre­ve bem demais hein?? Parabéns

  • rorschach disse:

    Bom tex­to, lei­tu­ra aprazível.
    Com­pre­en­sí­vel o dese­jo de mudar do Rio.

    Eis que um homem cha­ma­do Jesus che­gou que­bran­do dog­mas anti­gos e cau­san­do inve­ja de mui­tos ape­nas por falar a ver­da­de. Aca­bei de des­cre­ver o Senhor Jesus e de que­bra o téc­ni­co Jor­ge Jesus do Fla­men­go que tem no elen­co : Arão, Ger­son, Mateus, Lucas, Fili­pe, além de Rafa­el e Gabriel.
    Esse ano che­ga­ram 2 Pedros, Thi­a­go e um Micha­el (Mar­cos).
    O auxi­li­ar é João… de Deus !!
    Coin­ci­dên­ci­as demais.

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