Há algum tempo fui arremessado nessa dimensão paralela e venho tentando atenta e cuidadosamente compreender como ela funciona, pois só quem é daqui é capaz de entender certas coisas… algumas até tenebrosas!
Nota do Autor, em 2025: esse artigo é um “mapa”, desenhado um ano após o episódio que definiu minha condição de surdez súbita neurossensorial bilateral profunda. Eu mudei bastante minha percepção e atitudes ao longo desses seis anos, mas os distritos… continuam os mesmos.
Pra começo de conversa é bom explicar que, apesar do nome ser “Silencidade”, nem tudo aqui é silencioso: a barreira ao redor de cada habitante pode não ser absoluta, permitindo a passagem de algumas frequências e variando de pessoa para pessoa.
Muitos acham que é apenas “não ouvir”, mas é mais complexo. Se você quer entender como essa fronteira invisível funciona na prática — e como ela afeta nossas relações com vizinhos e familiares —, desenhei um mapa para você:
Como você viu acima, esse obstáculo auditivo acaba dificultando a plena compreensão dos diversos sons no ambiente e, o mais complicado de tudo, a compreensão das coisas que são ditas e são parte essencial do processo que torna o ser humano pertencente a alguma estrutura social… qualquer uma: familiar, religiosa ou profissional.
Os de fora imaginam que somos, os habitantes, todos iguais, mas nem desconfiam que existem dois distritos bastante diferentes: Sinalecta e Tecnoral.
Teoricamente era para ser fácil transitar entre eles — afinal, somos todos habitantes da mesma cidade —, mas as coisas não são tão simples assim até por conta de fatores históricos sobre os quais vou, no máximo, fazer uma breve menção, sem pretensão de abranger nem a profundidade histórica nem a perspectiva mundial da surdez… por enquanto.
Aqui está um link para quem quiser saber um pouco mais sobre esses assuntos, mas acho que seria interessante contar alguns detalhes que pude notar nos distritos de Silencidade, que é tão brasileira quanto atual.
Tecnoral, O Distrito Dos “Biônicos”
Vou falar primeiro do lugar onde eu caí, pois é o que tenho maior probabilidade de conhecer melhor pela própria experiência.
Logo que cheguei, fui fraternalmente acolhido e pela comunidade dos “Surdos Que Ouvem“, onde recebi muitas orientações e a doação de minha primeira prótese auditiva para surdez profunda.
O fato é que essa minha maldita mente analítica começou a perceber que aqui é tudo novo e, acima de tudo, elétrico!
Em Tecnoral, dependemos profundamente de energia porque tudo tem que ficar ligado o tempo inteiro!
Não só gastamos toneladas de baterias para romper a barreira do silêncio, mas dependemos da eletricidade para tudo: desumidificadores, smartphones, smartwatches… sem essas coisas (e não sabendo leitura labial nem sendo habitué de Sinalecta), estaríamos restritos ao papel e caneta.
AudioAtivo
O Conceito AudioAtivo: Podem me chamar de paranoico, mas atualmente um de meus maiores medos se chama pulso eletromagnético.
Pensando bem em todos esses fatos e desdobramentos, descobri que o termo mais exato para me identificar é AudioAtivo: sou capaz de interação social apenas enquanto eletricamente carregado — sem implantes, próteses nem a energia para alimentá-los… não passo de um surdo falante isolado no vácuo!
Acredite: muitas vezes Silencidade acaba sendo extrema e inconvenientemente mais barulhenta que o mundo normal, pois os aparelhos amplificam tudo.
O ato de poder desligar tudo acaba se tornando uma bênção.
Aliás, o fato de não conseguir escutar nem a própria voz é oposto ao de ser obrigado a escutar tudo o que acontece no ambiente, pois em muitas ocasiões e apesar da alta tecnologia existente, os AASI — Aparelhos de Amplificação Sonora Individuais — não nos permitem focar no som que queremos, porém nos forçam a ouvir tudo o que está no ambiente ao mesmo tempo agora… e que nos viremos para filtrar o que é relevante!
Aqui também há necessidade, em qualquer caso, de paciência:
- Quem não tem dinheiro vai ter que dispor de paciência e disposição até obter algum resultado junto ao Sistema Único de Saúde.
- Quem tem muito dinheiro deve ter também muita paciência e meticulosidade para realizar testes com aparelhos de diversas marcas, até encontrar o que melhor se adeque às suas necessidades.
Tudo isso acaba tornando Tecnoral um distrito quase — e só quase! — livre da barreira sonora e seus moradores capazes de interações mais dinâmicas com os ouvintes.
Sinalecta E O Tribunal da “Pureza Surda”
Este distrito é o núcleo de Silencidade e talvez seja tão antigo quando o próprio Brasil.
Todos que nascem em Silencidade têm maior probabilidade de chegar aqui.
Ao contrário das necessidades energéticas do outro distrito, quem mora aqui pode levar uma vida “orgânica”, dependendo apenas das próprias mãos e olhos para interagir: mesmo à distância, basta a iluminação para que os sinalectos sejam capazes de se comunicar!
Os ouvintes imediatamente associam a Língua de Sinais utilizada em Sinalecta a todos os moradores de Silencidade, mas é importantíssimo destacar que ela tanto não é algo “orgânico” — necessitando ser APRENDIDA! — quanto não é universal.
LIBRAS é utilizada por apenas uma parcela de surdos e exclusivamente no Brasil.
É temerário falar de temas que não conhecemos, portanto, por não ser residente desse distrito, acho justo narrar apenas, sem máscaras atenuadoras, as experiências relacionadas a ele pelas quais passei.
A Gestapo Do Silêncio
Logo que pousei em Silencidade, em vez de acolhimento, encontrei um tribunal.
Não me senti apenas ofendido; senti-me perseguido: muitas pessoas cobravam que eu instantaneamente soubesse LIBRAS, como se fosse um download estilo “Matrix”.
Fiquei imaginando se em outras modalidades de deficiência existe tal aberração: imaginem alguém dolorosamente recém amputado, ainda lidando com o trauma da perda, sofrendo ataques de veteranos que nasceram sem pernas, dizendo que se ele não souber “empinar a cadeira de rodas” imediatamente, não é digno dos direitos da deficiência.
Soa absurdo? Pois foi exatamente assim que me trataram.
Eu me senti diante de uma verdadeira Gestapo, uma patrulha ideológica me perseguindo por não ser um “surdo puro” (uma espécie de ariano da deficiência).
A exigência era clara e cruel: eu deveria abandonar meus conhecimentos, minha história e lobotomizar minha língua materna (o Português culto) para me comunicar de forma rudimentar, como um Tarzan: “eu querer água”, “eu ir banheiro”…
A condição para ser aceito no clube e ter acesso à comunidade era essa: regredir intelectualmente.
O problema pior foi, quando comecei a considerar o aprendizado, recebi um “recadinho do coração” de um morador de Sinalecta (que sintetizo aqui):
— Esse ser ouvinte esperto querer tirar vaga trabalho de surdo.
Não duvidem: xinguei alto!
Foi uma ofensa dolorosa ser tratado como um falsário, como se eu tivesse desligado meus ouvidos de propósito apenas para dar algum golpe ou obter vantagem indevida.
A recepção dessa ala radical de Sinalecta foi tão repulsiva que minha vontade, na época, era poder voltar a ouvir imediatamente — não pela música ou pelas vozes de quem amo, mas apenas para não ser obrigado a conviver, nem mesmo virtualmente, com aquela mentalidade sectária.
Mas a realidade bate forte e dolorosa: de Silencidade só se sai morto!
Minha surdez é autêntica, mas não me faz ter medo de cara feia: sou sobrevivente, oriundo de debates teológicos altamente ofensivos e calejado no uso de ferramentas para captura de tela.
Conforme ia publicando os avanços na busca por meus direitos, os sinalectos iam publicando “elogios” como:
- “Surdo Paraguaio”
- “Surdo 007”
- “Falso Surdo”
Eles, cheios de ira, postavam vídeos sem áudio nem legenda, onde eu só conseguia perceber pessoas totalmente transtornadas e cheias de ira, como se eu estivesse roubando algo deles.
Ao fazer todos aqueles sinais ameaçadores pareciam estar ansiosos até para me agredir fisicamente!
Nota do Autor: Esses são registros de apenas alguns dos ataques que sofri.
Mantenho a identidade dos agressores oculta porque mais me interessa a exposição e o estudo de casos do que causar prejuízo a alguém que até pode se arrepender da estupidez que promoveu.
(Pelo sim, pelo não… tenho guardados os registros originais com todos os nomes bem visíveis!)
O Passe Livre e a “Onda”
O mais engraçado de tudo foi que estava lá eu humilde e pacientemente tentando ensinar a todos indistintamente —sinalectos, tecnorais ou quaisquer outros deficientes! — como obter o tal Passe Livre e me ocorre um diálogo exatamente como mostra a captura ao lado.
Os ataques mais irônicos ocorreram quando eu tentava ensinar como obter o Passe Livre: fui acusado de “querer aparecer” ou até de estar fingindo deficiência para viajar de graça!
Mal sabem eles que “onda” mesmo eu vou tirar quando ganhar o suficiente para devolver o passe e viajar por conta própria!
Todos esses episódios simplesmente mataram meu impulso inicial de aprender Libras: para que empenhar tempo e dinheiro para me comunicar com quem me discrimina e agride?!?

A Hipocrisia dos Ouvintes
Se a pressão dentro da comunidade surda já é exaustiva, a hipocrisia do “mundo ouvinte” é de revirar os olhos.
Existe um fenômeno curioso e irritante: a sinalização de virtude: o ouvinte médio adora se emocionar com vídeos de LIBRAS, acha “lindo” e “inclusivo”, e corre para pagar cursos caros da língua de sinais apenas para postar nas redes sociais que é “acessível”… é a inclusão de palco.
Mas experimente pedir para esse mesmo “aliado da causa” disponibilizar transcrição em tempo real (closed caption) em seus eventos, palestras ou peças de teatro.
A magia acaba na hora!
Para eles, a legenda “suja” o visual.
Para eles, contratar um estenotipista é “custo desnecessário”.
Eles preferem o teatro da inclusão visual (o intérprete no cantinho, muitas vezes sem utilidade real para o surdo oralizado) do que a eficácia prática do texto escrito.
O Medo Da Leitura: “LIBRAS Para Inglês Ver”, Legendas Para Ninguém Ler…
Isso nos leva ao fundo do poço cultural: a guerra contra as legendas nos cinemas e a desculpa oficial de que “ler atrapalha a experiência visual”.
A verdade nua e crua?
Estamos cercados de analfabetos funcionais: uma enorme parcela da população ouvinte tem preguiça cognitiva, sendo incapaz de ler e processar uma linha de texto na velocidade de uma fala normal!
O resultado?
Cinemas lotados de sessões dubladas para atender a ouvintes preguiçosos, enquanto eu, surdo que dependo da leitura para consumir cultura, sou obrigado a caçar a única sessão legendada da cidade, geralmente às 22h de uma terça-feira, num shopping a 30km de casa.
A acessibilidade que eles vendem é aquela que fica bonita na foto.
A acessibilidade que eu preciso — texto, legenda, clareza — exige que eles leiam… e pedir para essa gente ler, aparentemente, é pedir demais.

Precursores, Diplomatas… E Um Louco!
Porém, mesmo diante de tanta decepção, nunca deixei de reconhecer a importância da língua de sinais para os que optaram por seu uso, principalmente para os que nasceram sem outra opção: nunca consegui acreditar que toda aquela agressividade primal pudesse ser a característica unânime dos habitantes de Sinalecta… e minha espera trouxe resultados!
Sinalecta, por praticamente concentrar em si tudo o que a maior parte dos ouvintes sabe sobre Silencidade, acaba recebendo a maior parte da atenção do “mundo comum”, fazendo ao menos o nome de sua língua ser conhecido por quase todos e, cheios de orgulho, afirmando que “Libras é a segunda língua oficial do Brasil”.
O fato é que em ambos os distritos há gente oprimida, insegura, com grandes dificuldades de buscar seus direitos e com potencial ainda maior de ser colhida pelas garras da depressão e seus funestos impulsos, especialmente porque suas limitações interacionais constituem a única deficiência que não dá sinais evidentes, sendo praticamente invisível.
Acabo me tornando minoria excluída e até sendo desprezado e recebendo olhares tortos quando, num sincericídio, confesso que língua de sinais não me adianta de nada!
Diante de tudo isso, optei por utilizar todos os recursos disponíveis para divulgar informações e, do meu jeito (complicado para alguns, bruto para outros…), oferecer um pouco de entretenimento direcionado aos habitantes de Silencidade — seja cantando que toda surdez é diferente ou compartilhando o fluxo da bondade no cotidiano dos trens — e, ao mesmo tempo, descobri ser potencialmente útil ao criar camisas informativas que, até então, não eram coisas comuns entre os deficientes auditivos… infelizmente minhas atitudes táticas e autoconfiança acabaram surpreendendo e causando estranheza em ambos os distritos.
Após ter dado provas mais do que suficientes de que minha surdez é real e passado algum tempo publicando conteúdo, feliz e finalmente alguns cidadãos com habilidade para frequentar ambos os distritos perceberam que eu poderia ser útil à causa e se aproximaram de mim, pois perceberam que estava (e continuo) tendo alguns problemas tanto para compreender quanto para responder às pessoas que tentavam se comunicar em “Libras escritas” comigo.
Só comecei, de fato, a ter uma melhor comunicação com a população Sinalecta graças a essas raras almas iluminadas que não apenas me ajudaram a compreendê-la, mas tomaram a frente produzindo até vídeos explicativos em língua sinalizada sobre quem eu era, as peculiaridades de minha surdez e minha disposição em contribuir no processo de informação e inclusão de todos habitantes de Silencidade entre a população que não sofre com barreiras sonoras.
Após isso muitas coisas fantásticas aconteceram — e boa parte delas está registrada na página Surdos AudioAtivos Oralizados, que criei no Facebook — e apesar de soar bem parecido com ficção, tudo isso é muito real, assim como novas desafios e aventuras surgem a cada dia.
A seguir vou apresentar a vocês dois momentos de um dos episódios que mais me emocionaram:
Ainda não pude dedicar tempo ao aprendizado de Libras, e sinceramente? Hoje minha prioridade é outra: minha luta é tecnológica e intelectual!
Sete anos se passaram desde que escrevi este mapa pela primeira vez. Muita coisa mudou, mas a geografia de Silencidade continua a mesma. A diferença é que hoje eu não apenas sobrevivo aqui; eu opero.
Se você — habitante ou não de Silencidade — leu até aqui, muito obrigado por sua atenção. Saiba que a ‘ajuda’ que busco hoje não é piedade, é aliança… e já que ninguém te forçou a ficar, isso pode até ser amor!
E, pelo amor fraternal, não posso deixar de te convidar a conhecer minha Galeria Pix, onde transformei a indignação em estampas que vestem nossa causa.
Acompanhe também minha rotina nas redes sociais (links no rodapé) e inscreva-se em meu canal no Youtube para não perder os próximos episódios dessa jornada — sempre legendados, porque aqui a preguiça cognitiva não tem vez.








