Enquanto a maioria dos habitantes do Rio de Janeiro lamenta o fim do verão, existe uma espécie rara que celebra a queda da temperatura: o Pior Carioca do Mundo!
Para quem não suporta o calor senegalês e a ditadura da praia, a chegada do frio é um alívio não apenas térmico, mas financeiro.
Abaixo, registro minha ode às sopas, aos casacos guardados e, principalmente, à aposentadoria temporária do ar-condicionado.
A Alegria do Pior Carioca
Sextilha do Inverno
Preparem os cremes e as sopas!
Tirem o cheiro de naftalina das roupas!
E eu, que não amo praias nem Chopp gelado,
fico deveras contente,
pois até meus 20 minutos de banho quente…
saem muito mais barato que viver sob ar condicionado!
Esta pequena crônica rimada resume a filosofia de vida de quem prefere o aconchego ao suor. Afinal, no inverno carioca, a elegância sai do armário e a conta de luz volta a patamares civilizados.
Se você também faz parte da resistência que troca o chopp gelado por um caldo quente, seja bem-vindo ao clube.

Por que o “Pior Carioca do Mundo” não é apenas um personagem?
Talvez você pense que esse ódio ao verão seja apenas rabugice ou uma pose para a internet, mas a ciência explica a minha preferência pelo inverno. Ser o Pior Carioca do Mundo não é uma escolha, é uma necessidade fisiológica de quem habita um corpo que não foi projetado para os trópicos.
Primeiro, considere a logística de ter dois metros e sete de altura. Enquanto a maioria das pessoas tem uma superfície corporal normal exposta ao sol, eu funciono basicamente como um para-raios de raios ultravioleta e calor. Em um ônibus lotado no Rio de Janeiro, minha cabeça fica estrategicamente posicionada na zona onde o ar quente se acumula, transformando qualquer trajeto na Avenida Brasil em uma sauna particular. No inverno, essa desvantagem desaparece. O casaco vira um equalizador social.
Além disso, existe a questão tecnológica. Como usuário de próteses auditivas (uso um Phonak Naída Paradise P30, para ser exato), o suor excessivo é um inimigo mortal. O verão carioca e sua umidade relativa do ar absurda são uma sentença de morte para eletrônicos sensíveis. No calor, eu não apenas sofro; eu corro o risco de ficar em silêncio se a umidade decidir oxidar os circuitos que me conectam ao mundo. Portanto, quando digo que amo o frio, estou dizendo que amo a segurança de ouvir sem medo de curto-circuito.
A Matemática da Economia Térmica
Por fim, não podemos ignorar o argumento financeiro que citei nos versos acima. Viver dependente do ar condicionado no Rio de Janeiro é trabalhar metade do mês apenas para pagar a concessionária de energia. Existe uma liberdade indescritível em abrir a janela em julho e sentir uma brisa que não parece o bafo de um dragão.
O inverno no Rio pode ser curto, pode ser “fake” para os gaúchos e europeus, mas para nós, que vivemos na sucursal do forno solar, ele é um oásis. É o momento em que podemos usar aquele terno que mofa no armário, comer pratos quentes sem derreter e, o mais importante: dormir coberto sem acordar falido pela conta de luz.
Se isso faz de mim o Pior Carioca do Mundo, eu aceito o título com orgulho — devidamente agasalhado e, preferencialmente, com uma boa terrina de sopa na mão.



