Geovane Souza caminhando sozinho no Aeroporto Galeão, ilustrando a solidão e a rotina exaustiva de quem trabalha nos bastidores de eventos.

10 Anos nos Bastidores de Eventos

O Eventual Show Dos Freelancers

Após atuar por uma década inteira na “zona de guerra” do entretenimento e do corporativo, acredito que já posso emitir opiniões sólidas sobre os bastidores de eventos.

O que observei e vivi não está nos manuais. O “povo de eventos” — essa classe sem rotina e sem hora certa para acabar — é incansável. Dentre eles, encontramos alguns dos melhores profissionais deste país, verdadeiros camaleões passíveis de atuar com excelência em quase qualquer setor.

Enquanto a turba fica discutindo direitos trabalhistas e firulas utópicas, quem vive a realidade dos bastidores de eventos conquista seu dinheiro no asfalto, de oportunidade em oportunidade. É uma negociação direta:

  • Cachês definidos pelas horas de entrega;
  • Valorização baseada em quantas línguas você domina;
  • A liberdade de dizer “não” a clientes inconvenientes.

Tudo isso sem a hipocrisia de um Estado burocrático que, na realidade, pouco se importa com o bem-estar individual e foca apenas em taxar o valor movimentado.

Respeito quem se oferece para capinar um quintal em troca de um valor justo, pois, despido das ilusões da carteira assinada, encarei a verdade: eu sou exatamente igual a eles.

O Eventual Show Dos Freelancers

A vida nos bastidores de eventos é um exercício constante de humildade e contraste. Até ontem, era eu quem determinava em qual portão as comitivas de ministros e embaixadores deveriam parar.
Hoje? Sequer consigo convencer meu filho a engolir uma colher do jantar…

Durante a LAAD — a maior feira de defesa e segurança da América Latina — atuei por oito dias coordenando recepcionistas trilíngues e recepcionando autoridades globais.
Foi ali, no olho do furacão, que tracei um curioso paralelo entre nós, o “povo de eventos” (os eventuais), e quem trabalha com vínculos tradicionais (os regulares).

A diferença está na velocidade do ciclo vital:

  • O Ciclo do Regular: Sente a ansiedade da contratação, leva anos acumulando experiência e, eventualmente, enfrenta a aposentadoria ou a demissão (cujo impacto pode causar luto e depressão).
  • O Ciclo do Eventual: Vive tudo isso em uma semana!
    Se você não é empregado direto de uma agência, um evento grande dura, no máximo, sete dias. Ou seja: vivemos o ciclo Ansiedade > Adaptação > Demissão de forma sucessiva, rápida e ininterrupta.

Se essa montanha-russa não for suficiente para nos certificar como bastiões da resistência psicológica, a única conclusão lógica é que somos, definitivamente, loucos de pedra.

A Cura pelo Caos

Foi minha esposa quem me apresentou a esse universo paralelo. Sem dúvida alguma, a adrenalina dessas atividades foi a “sacudida final” que precisava para eliminar os resquícios da depressão que me consumiu ao ser reformado da vida militar.

Curiosamente, observo que mesmo ela, com anos de estrada, ainda sofre com uma espécie de “tensão pré-evento”: o humor muda, a sensibilidade aflora. Para quem vem de fora, relacionar-se com alguém dessa área exige paciência e compreensão: o ritmo não é normal.

E, falando em relacionamentos, é preciso limpar o terreno de velhos preconceitos. Nos anos 90, a imagem de recepcionistas era frequentemente misturada com a de acompanhantes de luxo. Hoje, de dentro do sistema, afirmo: 95% das “eventuais” que conheço são pessoas de família, lutando honestamente pelo pão de cada dia.

Infelizmente, a fama vem da minoria. Não daquelas que engolem a dor para sorrir para o público, mas dos episódios folclóricos das famosas “fichas rosas”.

O “Doorman” e o Corpo Quebrado

Montagem cômica satirizando o tédio nos bastidores de eventos. Quatro fotos mostram Geovane Souza, de terno preto, sentado e em pé, ironizando a rotina de espera de um recepcionista de porta com legendas como "Camuflagem" e "Meditação".
Para aparecer abaixo da foto no post: Apesar da ironia sobre o tédio na imagem acima (de 2012!), a verdade é que quem fica na porta vê tudo. O “vaso de planta” estava, na verdade, registrando cada movimento do evento.

Em 2012, no meu antigo blog, “Alienamos“, tentei definir com humor a função de “Receptivo de Porta” (ou Doorman): escrevi que é uma mistura de papagaio (repetindo informações ad infinitum) com hostess (“esse entra, esse não”), somado ao ônus de manter o isolamento acústico perfeito.

Naquela época, eu brincava com técnicas de sobrevivência ao tédio, como a “Camuflagem Passiva” (ficar tão quieto ao lado de uma planta que as pessoas esquecem que você existe) ou o “Bronzeamento Artificial de Palma da Mão” nos refletores de luz.

Mas o humor acaba quando o corpo cobra a conta.

A pior praga do universo dos bastidores de eventos não é o tédio, é o cliente em “contenção de despesas”. É aquele que te contrata pagando o mínimo para sorrir na porta e, de repente, decide que você é um “faz-tudo”.

E aqui entra a minha realidade física, que nem sempre é visível no terno alinhado.

Tenho 2,07m de altura, o que sugere força bruta, mas a realidade é outra. Sofri um acidente grave que me rendeu uma estrutura metálica do lado direito, indo da clavícula ao antebraço (não poderia ter sido garras de Adamantium, tinha que ser apenas platina?!). Tive um dramático pinçamento do nervo radial. Minha capacidade de carga com esse braço é limitada.

Além disso, após a surdez, evito qualquer atividade que faça o suor escorrer em bicas: umidade excessiva é o inimigo mortal da eletrônica dos meus aparelhos auditivos.

A Síndrome Do “Já Que Você Está Aí…”

Agora, a pior coisa de todo universo eventual é o cliente em contenção de despesas que quer te contratar pagando pouco como recepcionista e depois, em pleno evento e sem nunca ter te visto, acha que o recepcionista tem que ser legal e fazer algumas coisas que certamente não tem nada a ver com seu papel e, pior ainda, por mais boa vontade que você possa ter, são coisas que estão além de suas capacidades!

Eu e uma recepcionista (já uma senhora) fomos contratados para receber grandes grupos de gerentes (de uma das maiores lojas varejistas do Brasil) que vinham passar uma semana inteira de treinamento no Rio de Janeiro: nosso papel era conferir, nome a nome, com a listagem, dar instruções iniciais e, em seguida, conduzi-los aos ônibus para, escoltados, conhecerem a matriz e serem conduzidos aos hotéis.

Eram dezenas de voos despejando centenas de participantes e, a despeito do baixo cachê, estivemos firmes desde as 13:00h, repetindo animadamente as instruções.

Foram tantas vezes que a voz já começava a falhar, mas só fiquei doente mesmo quando a cliente, lá de São Paulo, enviou uma mensagem que doeu como uma facada e graças ao WhatsApp, guardei o registro inglório desse dia em que o limite foi cruzado:

Print de WhatsApp mostrando cliente exigindo que recepcionistas carreguem malas pesadas nos bastidores de eventos.
10 anos de eventos resumidos em um print: a cliente economiza no carregador e sobra para a coluna do recepcionista.

Sim, ela não só pediu, como insistiu!
Você tem noção do esforço físico envolvido em carregar as malas de oito ônibus lotados? Malas com roupas para uma semana inteira, incluindo trajes de gala? E a sugestão brilhante era que eu entrasse no bagageiro — um espaço onde mal caibo rastejando — para organizar tudo lá dentro.

Não seria mais adequado ter contratado carregadores? Há dezenas deles no desembarque esperando exatamente por essa oportunidade de renda extra. Mas a lógica da economia burra prevalece: paga-se uma diária de recepção e exige-se o trabalho de estivador.
Nem gritando “Shazam!”, minha senhora… nem vestindo a capa do Batman!

Entregue Às Moscas…

O oposto desse abuso também acaba sendo um bastante entediante, mas acontece quando você é contratado por um determinado número de horas, o serviço é concluído, com sucesso, bem antes, mas o cliente quer fazer valer cada centavo do que pagou e te mantém ali, de pé, sorrindo para o vento e esperando por alguém que nunca vai chegar!

Por mais proatividade, ânimo, alegria, disposição que você possa ter, em algum momento dessa longa tortura chinesa o desespero vai encostar na sua nuca e começar a transmitir imagens do que você poderia estar fazendo após ter trabalhado tão bem…

As pernas vão doer, a boca vai secar… é possível até que uma taquicardia resolva atacar, mas não há muito o que argumentar, pois, no final das contas, somos mesmo um pouco como prostitutas e vendemos nossos corpos para estar ali, a serviço daquele evento: engole o choro, não reclama e pensa na conta que o cachê vai pagar.

Aprendi a duras penas que ser bom profissional não é sinônimo de ser subserviente: aprenda a respeitar os bons clientes, mas favor e amor… só de mãe!

Sem Limites: A Selva de Terno e Gravata

Se o corpo sofre, a mente observa. Sou daquele tipo que precisa entender cada engrenagem da máquina que opera.

um bom exemplo foram os jogos olímpicos, onde, sendo gerente de eventos do pavilhão de Badminton, tive a maior alegria de atuar em quase todos os postos de trabalho pelos quais era responsável, da leitura de credenciais até o balcão de informações, passando pela informação ao público, monitoramento de arquibancada…
Meus voluntários são a prova viva de que, acabados meus relatórios e conferências, saia de meu escritório animado para ir substituindo-os nas posições enquanto iam ao banheiro ou coisa parecida.

A lição é clara: quando você conhece o funcionamento perfeito dos bastidores de eventos, ninguém consegue te enrolar. Mas, às vezes, essa visão de raio-x te faz ver coisas que preferia ignorar.

O Caso da “Ficha Azul”

Foi nas mesmas instalações do Riocentro, anos antes, que testemunhei o outro lado da moeda. Todos falam da “ficha rosa” (modelos contratadas para prostituição velada), mas ali presenciei a, se é que o termo existe, “ficha azul”.

Na equipe que eu coordenava havia um rapaz de beleza padrão: olhos claros, corpo forjado em academia e terno impecável. Éramos responsáveis pelos pôsteres de trabalhos científicos de um congresso, mas o nosso balcão virou um ímã de bilhetinhos: eram recados de conteúdo duvidoso — algumas indiretas, outras obscenidades explícitas — escritos tanto por mulheres quanto por homens, todos endereçados a ele.

No meio da manhã do segundo dia, ele veio até mim, levemente desesperado, pedindo para ir ao banheiro. Imaginando uma emergência gástrica, liberei na hora.

Quinze minutos depois, ele volta. Sorriso no rosto, ajeitando o terno. Tira um maço de notas de 50 reais do bolso e me oferece uma, como quem oferece uma bala:

— O que é isso, rapaz?!?
— Acabei fazendo um servicinho rápido ali no banheiro…

Recusei a nota e não quis saber os detalhes do serviço: desde aquele dia, minha confiança na humanidade encolheu um pouco mais.

A Batalha das Coxinhas

A outra lição inesquecível desses 10 anos aconteceu em um cenário bem menos lascivo, mas talvez ainda mais vergonhoso.
O palco: um hotel cinco estrelas na Zona Sul do Rio.
O público: a nata da justiça e da segurança pública do Brasil.

Era a hora do coffee break.
A instrução era simples: os garçons sairiam da cozinha com bandejas repletas de salgadinhos quentinhos e circulariam pelo salão servindo os participantes. Dado o nível salarial e educacional dos presentes (juízes, delegados, altos oficiais), esperava-se civilidade.
Ledo engano.

Após duas rodadas insuficientes para a fome daquele plenário, o que se viu foi um colapso social: formou-se um ajuntamento humano na porta da cozinha, bloqueando a saída dos garçons.
Quando a primeira bandeja foi erguida ao alto, tentando passar pela multidão, foi como lançar um bezerro num tanque de piranhas.

A imagem que guardo é o retrato da hipocrisia: vi meritíssimos juízes e autoridades se afastando rapidamente da confusão, protegendo suas “presas” contra o peito.
Eles caminhavam apressados, com ambas as mãos cheias de coxinhas, como se fossem flagelados fugindo com comida saqueada de um caminhão tombado.

Aprendi duas coisas naquele dia:

  1. Com 15 minutos de intervalo, a fome vence a etiqueta. Ninguém segura a selvageria de quem acha que o coffee break vai acabar.
  2. Coxinha é bom demais. Ninguém fica triste comendo uma, mas, aparentemente, a “elite” está disposta a ir à guerra por elas.

Memória Curta e o Golpe da “Experiência”

Ah! E não se iluda: por maior que seja seu esforço, a memória do cliente é curta.

Em 2019, testemunhei um verdadeiro “case” de RH reverso: uma cliente selecionou as recepcionistas mais experientes — justamente aquelas que se destacaram e foram elogiadas na edição anterior — e, como “prêmio”, colocou-as de plantão na porta.
De pé, de salto alto, com o dever de sorrir das 8:00 às 18:00.

O resultado? Choro, revolta e desistência diante de uma gratidão tão torta. O argumento final da cliente foi a cereja do bolo tóxico: “garotas mais novas fariam isso sem nem reclamar“.

Mas o troféu de pior experiência nesses 10 anos foi pessoal.

Uma agência me contratou originalmente para ser “lanterninha bilíngue” em sessões de cinema, num evento da ONU, no Cais do Porto: seria um trabalho tranquilo, apenas na parte da tarde.
Mas, na hora H, a ordem mudou: fui obrigado a que chegar muito mais cedo, trabalhar o dia inteiro no sol, recepcionando autoridades no portão e conduzindo-as às respectivas salas, andando quilômetros tal qual um camelo.

O detalhe sórdido?
Minha esposa trabalhou no mesmo evento, pelo mesmo número de horas. Ela ficou no apoio às palestras: ar condicionado, sem sol, sem maratona…

Fui elogiado pela performance, mas na hora do pagamento, a agência depositou uma merreca — metade do que minha esposa recebeu!
Ao questionar, a justificativa foi um insulto à minha inteligência: alegaram que aquele valor miserável era porque eu estaria “em período de experiência“.

Semanas depois, tiveram a audácia de me enviar um questionário de avaliação de perfil.
Sinceramente?
Me fiz de maluco completo nas respostas.
Nunca mais trabalhei para eles e, se me perguntarem o nome da agência, até digo que foi…

O “RecepSurdo”

O fato de minha surdez ter se aprofundado drasticamente em novembro de 2018 causou estranheza na maioria das pessoas.
Existe um conceito (completamente errado por sinal) de que todo surdo tem que saber LIBRAS (a linguagem brasileira de sinais) e aqui deixo um recado extremamente sincero, que gostaria até de estampar em um cartaz flutuante sobre minha cabeça:

Gente, o filme “Matrix” não é real!!

Enquanto meu nervo auditivo sucumbia, eu não recebi um download instantâneo de LIBRAS no meu cérebro.
Continuo não sabendo quase nada dessa língua, assim como não perdi nem um grama da minha capacidade de falar e escrever um português escorreita.

Recuso-me a abandonar esforço que empreendi em meu aperfeiçoamento linguístico apenas para soar como alguém que “precisa” sinalizar. Não vou largar minhas conjugações, preposições e firulas cultas para, fingindo ser básico, ser aceito mais facilmente por uma comunidade que exige padronização.

A Discriminação Silenciosa

Tenho extremo respeito por quem nasceu surdo e tem em LIBRAS sua comunicação primordial.
Porém, não pedi para perder a audição e vou lutar pelos meus direitos de acordo com a minha deficiência e, mais do que isso, auxiliar a todos — surdos oralizados, sinalizados e até ouvintes.

O ouvinte pode não compreender, mas a verdade nua e crua dos bastidores da surdez é que sofri mais discriminação por parte de alguns surdos sinalizados do que dos ouvintes.

É um paradoxo cruel:

  1. A sociedade pressiona para que eu aprenda LIBRAS (“para o meu próprio bem”).
  2. Parte da comunidade surda sinalizada me acusa de querer aprender a língua apenas para “roubar” vagas de intérpretes e tradutores.

Ora, se eu pudesse parar de trabalhar para me dedicar meses ao aprendizado de uma nova língua, é claro que eu aproveitaria as oportunidades profissionais dela!
Mas, por respeito às vagas exclusivas e pela minha própria sanidade, decidi: não quero aprender LIBRAS tão cedo.

O Fim de uma Era (e o começo de outra)

Essa nova realidade impôs limites físicos à minha carreira nos eventos.

  • Não faço mais credenciamento: O risco de não entender alguém e travar a fila é alto demais.
  • Evito balcões de informação: Amo ajudar, mas a comunicação ruidosa tornou-se uma barreira.

Restam-me as coordenações de equipe, as atuações como celebrante e os receptivos de aeroporto (onde o script é mais controlado).

Com a cara-de-pau forjada em 10 anos de estrada, avalio agora o ingresso no mundo dos escritores e palestrantes. Mas, fora minha história de vida curiosa, o que vou vender?

Camisas e canecas?!?

Até imaginei produtos que transcendam a mera informação sobre a surdez de seus usuários.
Penso em algo com conteúdo instrutivo, que facilite a interação e demonstre autoconfiança e humor, mas as vendas de souvenirs não pagam as contas.

Talvez eu devesse ter rabiscado apenas frases enigmáticas — como “#JacaDuraQueÉMole” ou “#MudoQueFala” — para fazer sucesso, mas sou um maldito cabeça-dura: vou persistir na minha identidade, escrevendo e falando, enquanto o SPC não decretar minha falência total!

Se você leu até aqui, sobreviveu a quase três mil palavras de desabafo e realidade. Se gostou, comente. Pode ser o incentivo que falta para eu transformar essas histórias em livro.
Se não gostou, critique construtivamente: o couro do “eventual” é grosso e aguenta batida!

De qualquer forma, agradeço por sua atenção e espero poder contar com ela em breve, nos meus próximos textos: o show tem que continuar!

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Rafael Bernard Araujo
29 de octubre de 2020 0:33

Li, compreendi, gostei, quero mais e já já vou seguir para as próximas!