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EVENTUAIS CONSIDERAÇÕES, SEMCOM SURDEZ

Tem­po esti­ma­do de lei­tu­ra : 6 min

Após atu­ar por 10 anos no mun­do de even­tos, acho que já pos­so emi­tir opi­niões sobre um pou­co do tudo que pude obser­var e con­vi­ver : o povo de even­tos, sem roti­na nem hora cer­ta para tra­ba­lhar, é guer­rei­ro e den­tre eles pode­mos encon­trar alguns dos melho­res pro­fis­si­o­nais, pas­sí­veis de atu­ar em qua­se qual­quer setor, des­se país… e até de outros !

Enquan­to a tur­ba fica dis­cu­tin­do direi­tos tra­ba­lhis­tas e firu­las utó­pi­cas, o povo de even­tos vai con­quis­tan­do seu dinhei­ro de opor­tu­ni­da­de em opor­tu­ni­da­de, nego­ci­an­do seus cachês em fun­ção de quan­tas horas irá tra­ba­lhar e de quan­tas lín­guas deve­rá empre­gar no ser­vi­ço, ten­do a liber­da­de de dizer não a cli­en­tes incon­ve­ni­en­tes e, o melhor de tudo, sem a hipo­cri­sia legis­la­ti­va de um esta­do con­tro­la­dor que, na rea­li­da­de, pou­co se impor­ta com algum bem-estar e só quer mes­mo é se apro­pri­ar de boa par­te do valor movi­men­ta­do nes­sa rela­ção tra­ba­lhis­ta !
É por isso que eu res­pei­to e mui­to aque­le povo que se ofe­re­ce para capi­nar o seu quin­tal e sua cal­ça­da para ganhar um tro­co no final, pois, na ver­da­de… eu sou exa­ta­men­te igual a eles!!!

ALTOSBAIXOS

Até ontem era eu quem dizia em que por­tão comi­ti­vas e escol­tas de minis­tros e embai­xa­do­res deve­ri­am parar… hoje sequer con­si­go fazer meu filho engo­lir uma colher do jan­tar !
Pas­sei oito dias ten­do a hon­ra de atu­ar como coor­de­na­dor dos recep­ci­o­nis­tas tri­lín­gues que rece­be­ram a boa par­te de todas as auto­ri­da­des mun­di­ais que com­pa­re­ce­ram à mai­or e mais impor­tan­te fei­ra de defe­sa e segu­ran­ça da Amé­ri­ca Lati­na — a LAAD — e pude tra­çar um curi­o­so para­le­lo entre o povo de even­tos (dora­van­te “even­tu­ais”) e as pes­so­as que tra­ba­lham por vín­cu­los empre­ga­tí­ci­os clás­si­cos (dora­van­te “regu­la­res”).

É nor­mal que alguém pres­tes a ini­ci­ar um tra­ba­lho sin­ta ansi­e­da­de e inse­gu­ran­ça, coi­sas que cos­tu­mam ir dimi­nuin­do con­for­me o tem­po pas­sa e vai se acu­mu­lan­do expe­ri­ên­cia, afi­nal a prá­ti­ca leva à per­fei­ção e os “regu­la­res” podem pas­sar até mes­mo anos se espe­ci­a­li­zan­do na rea­li­za­ção minu­ci­o­sa de deter­mi­na­da tare­fa… até que se apo­sen­te ou, espe­ran­do ou não, enfren­te a fami­ge­ra­da demis­são, cujo impac­to pode cau­sar sen­ti­men­tos aná­lo­gos ao luto, vazio exis­ten­ci­al e até mes­mo cul­mi­nar em depres­são.
Enquan­to essas três eta­pas podem con­su­mir anos nas vidas dos regu­la­res, elas se suce­dem rápi­da e inin­ter­rup­ta­men­te : se você não é da agên­cia e nem foi con­vi­da­do para fazer a pré-pro­du­ção, um even­to “gran­de” cos­tu­ma durar, no máxi­mo, uma sema­na intei­ra, ou seja, enquan­to for recep­ci­o­nis­ta você terá de viver suces­si­va­men­te esse ciclo de ansi­e­da­de, adap­ta­ção e demis­são…
Se isso não for o sufi­ci­en­te para nos esta­be­le­cer como bas­tião da resis­tên­cia psi­co­ló­gi­ca, a úni­ca opção res­tan­te é de que somos, então, defi­ni­ti­va­men­te lou­cos de pedra !

Foi minha espo­sa quem me apre­sen­tou a esse uni­ver­so para­le­lo e, sem dúvi­da algu­ma, essas ati­vi­da­des foram a “sacu­di­da final” para me livrar de qual­quer resquí­cio da depres­são que me con­su­miu a pon­to de ser refor­ma­do da vida mili­tar, mas obser­vo que mes­mo ela, com tan­tos anos a mais de expe­ri­ên­cia, sem­pre fica irri­ta­di­ça e sen­sí­vel (uma espé­cie de “mini-TPM”) às vés­pe­ras de um even­to : isso deve ser ain­da mais difí­cil de com­pre­en­der e lidar quan­do o rela­ci­o­na­men­to é com alguém que não seja des­se meio.
Aliás, rela­ci­o­na­men­tos com pes­so­as de even­tos podem ser coi­sas bas­tan­te melin­dro­sas : ago­ra que estou den­tro per­di a refe­rên­cia, mas nos anos 90 a ima­gem das recep­ci­o­nis­tas de even­tos era cons­tan­te­men­te mis­tu­ra­da com a das garo­tas de pro­gra­mas… e hoje pos­so afir­mar que 95% das even­tu­ais que conhe­ço são abso­lu­ta­men­te pes­so­as de famí­lia e com­por­ta­men­to tra­di­ci­o­nal.
Infe­liz­men­te, não são daque­les que supe­ram as dores para pres­tar um óti­mo aten­di­men­to ao públi­co, mas des­sa mino­ria de “fichas rosas” os epi­só­di­os mais conhecidos.

SEM LIMITES

Sou des­ses que gos­ta de conhe­cer o meca­nis­mo das estru­tu­ras pelas quais sou res­pon­sá­vel e um bom exem­plo foram os jogos olím­pi­cos, onde, sen­do geren­te de even­tos do pavi­lhão de Bad­min­ton, tive a mai­or ale­gria de atu­ar em qua­se todos os pos­tos de tra­ba­lho pelos quais era res­pon­sá­vel, da lei­tu­ra de cre­den­ci­ais até o bal­cão de infor­ma­ções, pas­san­do pela infor­ma­ção ao públi­co, moni­to­ra­men­to de arqui­ban­ca­da… meus volun­tá­ri­os são a pro­va viva de que, aca­ba­dos meus rela­tó­ri­os e con­fe­rên­ci­as, saia de meu escri­tó­rio ani­ma­do para ir subs­ti­tuin­do-os nas posi­ções enquan­to iam ao banhei­ro ou coi­sa pare­ci­da : quan­do você conhe­ce o per­fei­to fun­ci­o­na­men­to do seu tra­ba­lho, nin­guém con­se­gue te enrolar !

E foi ali, nas mes­mas ins­ta­la­ções do Rio­cen­tro, que anos antes tes­te­mu­nhei pela pri­mei­ra vez uma atu­a­ção de “ficha rosa”… ou, se exis­tir o ter­mo, “ficha azul”: na equi­pe que eu esta­va coor­de­nan­do havia um rapaz boni­to, com olhos cla­ros e cor­po todo for­ja­do nas aca­de­mi­as.
Éra­mos res­pon­sá­veis por rece­ber e expor os pôs­te­res com os tra­ba­lhos cien­tí­fi­cos daque­le con­gres­so, mas em nos­so bal­cão não para­vam de apa­re­cer tam­bém bilhe­ti­nhos de con­teú­do incer­to — algu­mas indi­re­tas, outros até com obs­ce­ni­da­des — escri­tos por mulhe­res e homens, todos dire­ci­o­na­dos àque­le rapaz.
No meio da manhã do segun­do dia ele che­gou um tan­to deses­pe­ra­do até mim e per­gun­tou se pode­ria ir ao banhei­ro. Eu, ima­gi­nan­do algu­ma dor de bar­ri­ga ful­mi­nan­te, logo libe­rei sem nem fazer outro juí­zo. 15 minu­tos depois che­ga ele sor­ri­den­te, tira um peque­no bolo de notas de 50 reais do bol­so do ter­no e me ofe­re­ce uma e, pas­mo, vou con­ver­san­do :
— O que é isso, rapaz?!?
— Aca­bei fazen­do um ser­vi­ci­nho rápi­do ali no banhei­ro…
Não quis saber que ser­vi­ço foi nem acei­tei a nota, mas des­de então minha con­fi­an­ça na huma­ni­da­de pas­sou a ser um pou­co menor.

Outra lição que apren­di nes­ses 10 anos no mun­do de even­tos foi num epi­só­dio bem menos las­ci­vo, mas tal­vez tão ver­go­nho­so quan­to esse, ocor­ri­do em um famo­so hotel na Zona Sul do Rio de Janei­ro, duran­te um fórum des­ti­na­do à nata da jus­ti­ça e da segu­ran­ça públi­ca do Bra­sil : na hora do “cof­fee bre­ak” os gar­çons saíam da cozi­nha com ban­de­jas reple­tas de sal­ga­di­nhos (qui­bes, coxi­nhas… tudo quen­ti­nho) com a ins­tru­ção de tran­si­tar pelo salão ofe­re­cen­do os qui­tu­tes aos par­ti­ci­pan­tes.
Ora, dado o nível sala­ri­al de boa par­te dos pre­sen­tes se espe­ra­va edu­ca­ção e civi­li­da­de, porém, após umas duas roda­das (insu­fi­ci­en­tes para ser­vir a todos naque­le salão), o que rapi­da­men­te se viu foi um ajun­ta­men­to huma­no que qua­se blo­que­ou a aber­tu­ra da por­ta por onde sai­ri­am os gar­çons e, quan­do a pri­mei­ra ban­de­ja (ergui­da ao alto) con­se­guiu pas­sar, foi como se lan­ças­sem um bovi­no às pira­nhas famin­tas !
Fiquei deve­ras cons­tran­gi­do ao ver juí­zes e dele­ga­dos se afas­tan­do rapi­da­men­te da tur­ba com ambas as mãos chei­as de coxi­nhas, como se fos­sem caren­tes esfo­me­a­dos fugin­do com comi­da rou­ba­da !
Na ver­da­de apren­di duas lições nes­se dia : a pri­mei­ra é que com ape­nas 15 minu­tos de inter­va­lo nenhu­ma edu­ca­ção ou nível sala­ri­al domi­na o ris­co de ficar sem comer (só dos faqui­res, tal­vez). A segun­da é que… coxi­nha é bom demais : nin­guém fica tris­te comen­do uma coxi­nha, mas podem haver até vio­len­tos emba­tes por con­ta delas!!

Ago­ra, a pior coi­sa de todo uni­ver­so even­tu­al é o cli­en­te em con­ten­ção de des­pe­sas que quer te con­tra­tar pagan­do pou­co como recep­ci­o­nis­ta e depois, em ple­no even­to e sem nun­ca ter te vis­to, acha que o recep­ci­o­nis­ta tem que ser legal e fazer algu­mas coi­sas que cer­ta­men­te não tem nada a ver com seu papel e, pior ain­da, por mais boa von­ta­de que você pos­sa ter, são coi­sas que estão além de suas capa­ci­da­des !
Eu, por exem­plo, mes­mo com meus 2.07m, sofri um aci­den­te gra­ve que me ren­deu uma estru­tu­ra metá­li­ca do lado direi­to que vai da cla­ví­cu­la ao ante­bra­ço (não pode­ria ter ido até as mãos e pos­to logo as gar­ras?!) e um dra­má­ti­co pin­ça­men­to do ner­vo radi­al duran­te a cirur­gia : não tenho uma boa capa­ci­da­de de car­ga com esse mem­bro e, após a sur­dez, evi­to mais ain­da ati­vi­da­des que façam o suor escor­rer por con­ta do altís­si­mo ris­co de oxi­da­ção dos apa­re­lhos audi­ti­vos.
Pois gra­ças ao What­sApp pude man­ter o ingló­rio regis­tro do dia em que eu e uma recep­ci­o­nis­ta, já senho­ra, está­va­mos incum­bi­dos de rece­ber gran­des gru­pos de geren­tes (de uma das mai­o­res lojas vare­jis­tas do Bra­sil) que vinham pas­sar uma sema­na intei­ra de trei­na­men­to no Rio de Janei­ro : nos­so papel era con­fe­rir, nome a nome, com a lis­ta­gem, dar ins­tru­ções ini­ci­ais e, em segui­da, con­du­zi-los aos ôni­bus para, escol­ta­dos, conhe­ce­rem a matriz e serem con­du­zi­dos aos hotéis.
Eram deze­nas de voos des­pe­jan­do cen­te­nas de par­ti­ci­pan­tes e, a des­pei­to do bai­xo cachê, esti­ve des­de as 13:00h repe­tin­do ani­ma­da­men­te as ins­tru­ções : foram tan­tas vezes que a voz já come­ça­va a falhar, mas fiquei doen­te mes­mo quan­do a cli­en­te, lá de São Pau­lo, envi­ou uma men­sa­gem que doeu como uma faca­da (veja ima­gem a seguir).

Sim, não só pediu, mas tam­bém repe­tiu o pedi­do… e eu só podia olhar e me sen­tir tris­te : você tem noção do esfor­ço físi­co envol­vi­do em pegar as malas (com rou­pas para uma sema­na intei­ra de via­gem, inclu­si­ve par­ra um jan­tar de gala!) bem pesa­das de pas­sa­gei­ros o sufi­ci­en­te para lotar um ôni­bus ?
Ago­ra mul­ti­pli­que isso por oito, isso mes­mo, oito ôni­bus com todos os luga­res ocu­pa­dos de feli­zes geren­tes que vie­ram trei­nar por uma sema­na no Rio de Janeiro!!!

Não seria mais ade­qua­do ter con­tra­ta­do car­re­ga­do­res para rea­li­zar tal tare­fa her­cú­lea ? Há mon­tes de car­re­ga­do­res que ficam aguar­dan­do, pró­xi­mos ao desem­bar­que, por uma opor­tu­ni­da­de de ganhar qual­quer cin­quen­ta con­to de ren­da extra para ali­men­tar suas famí­li­as…
Mas para quê isso ? É só pagar 120 reais por oito horas de tra­ba­lho a algum recep­ci­o­nis­ta e, no meio da jor­na­da, pedir “por favor” para que eles, sem dei­xar de sor­rir nem de pres­tar infor­ma­ções, entrem naque­le malei­ro (onde alguém da minha altu­ra não cabe sem que este­ja ras­te­jan­do) car­re­gan­do volu­mes pesa­dís­si­mos e, com rapi­dez, orga­ni­zem tudo lá den­tro !
Nem gri­tan­do “Sha­zam!” minha senho­ra… nem ves­tin­do a capa do Batman !

O opos­to des­se abu­so tam­bém aca­ba sen­do um bas­tan­te ente­di­an­te, mas acon­te­ce quan­do você é con­tra­ta­do por um deter­mi­na­do núme­ro de horas, o ser­vi­ço é con­cluí­do com suces­so bem antes, mas o cli­en­te quer fazer valer cada cen­ta­vo do que pagou e te man­tém ali, de pé, sor­rin­do para o ven­to e espe­ran­do por alguém que nun­ca vai che­gar !
Por mais pro­a­ti­vi­da­de, âni­mo, ale­gria, dis­po­si­ção que você pos­sa ter, em algum momen­to des­sa lon­ga tor­tu­ra chi­ne­sa o deses­pe­ro vai encos­tar na sua nuca e come­çar a trans­mi­tir ima­gens do que você pode­ria estar fazen­do após ter tra­ba­lha­do tão bem…
As per­nas vão doer, a boca vai secar… é pos­sí­vel até que uma taqui­car­dia resol­va ata­car, mas não há mui­to o que argu­men­tar, pois, no final das con­tas, somos mes­mo um pou­co como pros­ti­tu­tas e ven­de­mos nos­sos cor­pos para estar ali, a ser­vi­ço daque­le even­to : engo­le o cho­ro, não recla­ma e pen­sa na con­ta que o cachê vai pagar.
Ser bom não é sinô­ni­mo para ser legal : apren­da a res­pei­tar os bons cli­en­tes, mas favor e amor… só de mãe !

Ah ! E, por mai­or que seja seu esfor­ço, lem­bre-se sem­pre de que há cli­en­tes que não vão lem­brar dele !
Esse ano de 2019 mes­mo já sou­be de um epi­só­dio onde a cli­en­te pegou as recep­ci­o­nis­tas mais expe­ri­en­tes, que se des­ta­ca­ram e rece­be­ram elo­gi­os na últi­ma edi­ção do even­to… e as colo­cou para ficar de pé, na por­ta, de sal­to alto, com o dever de sor­rir de 8:00 às 18:00!!
Cho­ro, revol­ta e desis­tên­cia por con­ta de uma demons­tra­ção com­ple­ta­men­te equi­vo­ca­da de gra­ti­dão, por um cachê que, pior ain­da, nem era lá essas coi­sas e o argu­men­to de que “garo­tas mais novas fari­am isso sem nem reclamar”!

O que acon­te­ceu de pior comi­go nes­ses 10 anos no mun­do de even­tos ?
Uma cli­en­te me con­tra­tou ori­gi­nal­men­te para ser lan­ter­ni­nha bilín­gue das ses­sões de cine­ma que ocor­re­ri­am duran­te a par­te da tar­de num even­to da ONU acon­te­ci­do no cais do por­to aqui da cida­de, mas aca­bou orde­nan­do que che­gas­se bem mais cedo, para tra­ba­lhar o dia intei­ro, recep­ci­o­nan­do auto­ri­da­des no por­tão e con­du­zin­do-os às res­pec­ti­vas salas.
Minha espo­sa tra­ba­lhou tam­bém como bilín­gue no mes­mo even­to, pelo mes­mo núme­ro de horas que eu, no apoio às pales­tras : não pre­ci­sa­va andar igual a um came­lo, não fica­va no sol…
Fui elo­gi­a­do e tudo, mas na hora de pagar, ape­sar de ter­mos cum­pri­dos horá­ri­os seme­lhan­tes e fun­ções aná­lo­gas, a safa­da da agên­cia me pagou uma mer­re­ca (meta­de do que minha espo­sa rece­beu!) e ale­gou que aque­la esmo­la era por­que eu esta­ria “em perío­do de expe­ri­ên­cia”!!!
Depois me envi­a­ram um ques­ti­o­ná­rio de ava­li­a­ção de per­fil e, sin­ce­ra­men­te, me fiz de malu­co nas res­pos­tas.
Nun­ca mais tra­ba­lhei para eles e, se me per­gun­ta­rem, até digo que agên­cia foi…

O “RECEPSURDO

O fato de minha sur­dez haver se apro­fun­da­do em novem­bro cau­sa estra­nhe­za na mai­o­ria das pes­so­as, pois há um con­cei­to (com­ple­ta­men­te erra­do por sinal) de que todo sur­do tem que saber LIBRAS (a lin­gua­gem bra­si­lei­ra de sinais) e aqui segue um reca­do mui­to sin­ce­ro que eu gos­ta­ria de poder estam­par em um car­taz que pudes­se flu­tu­ar o tem­po intei­ro, me acom­pa­nhan­do onde quer que eu fosse :

Gen­te : o fil­me “Matrix” não tem nada a ver com a rea­li­da­de!!
Enquan­to meu ner­vo audi­ti­vo sucum­bia eu não rece­bi um down­lo­ad simul­tâ­neo e veloz de LIBRAS ! Con­ti­nuo não saben­do qua­se abso­lu­ta­men­te NADA des­sa lín­gua, assim como não per­di nem um pou­co de minha capa­ci­da­de — modés­tia à par­te, bem decen­te — de falar e escre­ver na lín­gua por­tu­gue­sa escor­rei­ta !
Da mes­ma for­ma ain­da pos­so ler, falar e até (em con­di­ções ambi­en­tais ide­ais de sono­ri­da­de) ouvir e com­pre­en­der tan­to o Inglês quan­to o Espa­nhol.
Me recu­so a aban­do­nar todo o esfor­ço que empre­en­di em prol de meus aper­fei­ço­a­men­tos lin­guís­ti­cos ape­nas para soar como alguém que se expres­sa atra­vés de LIBRAS : não vou lar­gar minhas con­ju­ga­ções, con­jun­ções, decli­na­ções, pre­po­si­ções e outras tan­tas lin­das firu­las que embe­le­zam a lín­gua por­tu­gue­sa para, fin­gin­do ser bási­co, poder ser acei­to mais facil­men­te pela comu­ni­da­de dos sur­dos sinalizados.

Tenho extre­mo res­pei­to por quem nas­ceu sur­do e tem nes­sa lín­gua sua for­ma de comu­ni­ca­ção pri­mor­di­al, porém não pedi para per­der a audi­ção e, gos­tem ou não, vou lutar por meus direi­tos de acor­do com minha defi­ci­ên­cia e, mais do que isso, divul­gar infor­ma­ções e auxi­li­ar o máxi­mo de pes­so­as — sur­dos ora­li­za­dos, sina­li­za­dos… assim como quais­quer outros defi­ci­en­tes e pes­so­as “nor­mais” — que puder.
O ouvin­te que esti­ver len­do isso pode não com­pre­en­der, mas não vou escon­der que nes­ses meus seis meses de sur­dez aca­bei sofren­do mais dis­cri­mi­na­ção e into­le­rân­cia por par­te de alguns sur­dos sina­li­za­dos do que das pes­so­as ouvin­tes !
Ape­nas para exem­pli­fi­car o quão para­do­xal e com­ple­xo pode ser esse rela­ci­o­na­men­to : enquan­to a mai­or par­te da soci­e­da­de faz uma pres­são qua­se insu­por­tá­vel por uma ini­ci­a­ção em LIBRAS, par­te dos sur­dos sina­li­za­dos acu­sa e odeia quem, como eu, con­si­de­ra apren­der a lín­gua por estar que­ren­do ocu­par vagas pro­fis­si­o­nais liga­das à tra­du­ção que, segun­do cre­em, seri­am exclu­si­vas deles !
Ora bolas, se eu pudes­se parar de tra­ba­lhar para me dedi­car ao apren­di­za­do da lin­gua­gem bra­si­lei­ra de sinais — dois meses só para apren­der o bási­co ! —é cla­ro que, já fazen­do par­te do mun­do de even­tos, não iria per­der quais­quer opor­tu­ni­da­des que sur­gis­sem rela­ci­o­na­das a isso !
Por isso já deci­di : por res­pei­to às vagas pro­fis­si­o­nais exclu­si­vas e pela tran­qui­li­da­de em minha vida… não que­ro apren­der LIBRAS tão cedo!!

Da mes­ma for­ma que não vou mais me pro­por a tra­ba­lhar dire­ta­men­te nos cre­den­ci­a­men­tos de even­tos : con­si­de­ro mui­to arris­ca­do ter que lidar com alguém que não se dis­po­nha a falar mais len­ta­men­te e, por não com­pre­en­der, alon­gar des­ne­ces­sa­ri­a­men­te o tem­po de aten­di­men­to.
Ape­sar de amar auxi­li­ar pes­so­as, tam­bém pas­sa­rei a evi­tar os bal­cões de infor­ma­ção.
Me res­tam então as recep­ções em aero­por­tos, as coor­de­na­ções de equi­pes, as atu­a­ções como cele­bran­te e mes­tre de cerimônias.

Cara-de-pau for­ja­do por 10 anos no mun­do de even­tos, ava­lio uma ten­ta­ti­va de ingres­so no res­tri­to mun­do dos escri­to­res e pales­tran­tes, mas aí meu pro­ble­ma é que, como líder, vejo em qua­se todos a pos­si­bi­li­da­de de aper­fei­ço­a­men­to, a capa­ci­da­de de supe­rar limi­ta­ções e, empre­en­di­da a devi­da dedi­ca­ção, o poten­ci­al de lide­ran­ça.
Fora minha his­tó­ria de vida, que é bem curi­o­sa… o que vou ven­der ?
Cami­sas e cane­cas?!?

Até ima­gi­nei alguns pro­du­tos que trans­cen­dem a mera infor­ma­ção sobre a sur­dez de quem os esti­ver uti­li­zan­do, apre­sen­tan­do con­teú­do ins­tru­ti­vo, que pos­sa faci­li­tar a inte­ra­ção e demons­trar um pou­co da auto­con­fi­an­ça e — por que não ? — do humor do usuá­rio, mas as ven­das não vão lá mui­to bem das per­nas e acho que se eu tives­se rabis­ca­do ape­nas coi­sas enig­má­ti­cas como “#Jaca­Du­ra­QueÉ­Mo­le” ou “#Mudo­Que­Fa­la” pode­ria estar fazen­do mais suces­so…
Mas eu sou um mal­di­to cabe­ça-dura e vou per­sis­tin­do enquan­to o SPC não decre­tar minha total falência !

Enfim, enquan­to não me deci­do tenho o dever de infor­mar que, se veio len­do tudo direi­ti­nho até aqui, você já leu qua­se duas mil e nove­cen­tas pala­vras !
Se com­pre­en­deu e, mais do que isso, gos­tou, não dei­xe de comen­tar : pode ser um incen­ti­vo para eu con­tar minhas his­tó­ri­as num livro…
Se não com­pre­en­deu nem gos­tou, comen­te com uma crí­ti­ca cons­tru­ti­va, sugi­ra onde pos­so me aper­fei­ço­ar !
De qual­quer for­ma, agra­de­ço por sua aten­ção e espe­ro poder con­tar com ela em bre­ve, no meu pró­xi­mo texto.

Me dá um “joi­nha”?
Gos­tou ? Me aju­de compartilhando…
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Geovane Souza

Já fiz e faço tantas coisas que só criando um site para concentrar e apresentar essa variedade.

  • Li, com­pre­en­di, gos­tei, que­ro mais e já já vou seguir para as próximas !

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