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PAPÉIS DISTINTOS QUE MUITA GENTE CONFUNDE

Tem­po esti­ma­do de lei­tu­ra : 6 min

Hoje, fazen­do 120 aga­cha­men­tos na aca­de­mia, me dei con­ta que esse esta­va sen­do o exer­cí­cio mais difí­cil des­ta minha série… e isso me levou a ficar pen­san­do : se eu faço o mes­mo núme­ro de repe­ti­ções car­re­gan­do 150Kg no Leg Press, por que o des­gas­te aqui é tão mai­or ?
Foi então que, a esta altu­ra da vida, tive o que cha­mam de “insight”:

EU SOU MEU MAIOR OBSTÁCULO !

Tenho cer­te­za de que isso já deve estar escri­to em algum livro de auto­a­ju­da ou de artes mar­ci­ais por aí, mas até então, como não leio essas coi­sas, o mais per­to que havia che­ga­do des­se raci­o­cí­nio deve ter sido em algum vide­o­ga­me ou ani­mé, mas nun­ca de uma for­ma tão prá­ti­ca e real !
Só que essa minha cabe­ça não para e, exten­são do raci­o­cí­nio e ten­ta­ti­va de silo­gis­mo, for­mu­lei a fra­se “eu sou meu mai­or ini­mi­go”… êpa!!! Isso não é verdade !

Apai­xo­na­do pela lín­gua e pelo raci­o­cí­nio, fiquei atô­ni­to dian­te des­se des­do­bra­men­to iné­di­to, pois nun­ca havia aten­ta­do para o fato de que esses dois ter­mos não estão nem per­to de ser sinônimos !

OBSTÁCULOS

Pre­mis­sa : até meus 13 anos estu­dei — cus­te­a­do com mui­to sacri­fí­cio por minha “irmãe” — numa esco­la par­ti­cu­lar, numa tur­ma mis­ta, com pes­so­as que esta­vam comi­go des­de o C.A. e, de repen­te, aos 14 fui para num cur­so pre­pa­ra­tó­rio para as esco­las mili­ta­res, numa tur­ma exclu­si­va­men­te mas­cu­li­na (com direi­to a tudo de ruim que a puber­da­de e sua tes­tos­te­ro­na podem tra­zer).
1987 foi um ano bem difí­cil : pela manhã, das 07:00 até as 12:00, era a 8ª série ; depois, com o Euzé­bio “Car­ro­cei­ro” e o Fábio Morei­ra, rapi­da­men­te almo­ça­va a mar­mi­ta por­que depois, a par­tir das 13:00, o Jor­ge Mar­ques che­ga­va do Mon­tei­ro Loba­to e se jun­ta­va a nós no pré-mili­tar, que ia até as 18:00h !
Den­tre todos os pro­fes­so­res, dado o obje­ti­vo des­se tex­to, que­ro des­ta­car o “ter­ro­ris­ta da Lín­gua Por­tu­gue­sa”, o temi­do pro­fes­sor Ramos, que tinha um espa­ço extra para memó­ria na tes­ta e cha­ma­va o alu­no ao qua­dro para exi­gir dele até as minú­ci­as das aná­li­ses sin­tá­ti­cas e mor­fo­ló­gi­cas das fra­ses. Segun­do sua pró­pria auto defi­ni­ção, ele “per­gun­ta­va uma, e outra, e outra… até o alu­no cair!”
Um dia que­ro ter tem­po de escre­ver mais deta­lha­da­men­te, um capí­tu­lo intei­ro tal­vez, nar­ran­do des­ven­tu­ras de nos­sa heroi­ca estu­pi­dez varo­nil, mas o fato é que — a des­pei­to de todo esfor­ço, adap­ta­ção e desen­vol­vi­men­to rea­li­za­dos — aca­bei aba­ti­do em todos os três con­cur­sos.
Aqui aca­ba a premissa.

1988 foi mais um ano bem com­pli­ca­do, pois a úni­ca coi­sa que mudou da roti­na des­cri­ta aci­ma é que pela manhã eu cur­sa­va o 1º ano do 2º grau… pode pare­cer pou­co, mas foram intro­du­zi­dos des­do­bra­men­tos de maté­ri­as, obri­ga­tó­ri­as ao nível médio, que nada teri­am a ver com os con­cur­sos que eu obje­ti­va­va e uma em par­ti­cu­lar me encheu de ter­ror — Lite­ra­tu­ra ! — que tam­bém seria minis­tra­da pelo rei da inqui­si­ção foné­ti­ca, o dis­se­ca­dor de figu­ras de lin­gua­gem, o mes­tre dos sin­tag­mas elíp­ti­cos… o pro­fes­sor Ramos !
Fora isso, lem­bro bem, eu, ado­les­cen­te machão e sem nenhu­ma pres­são des­sa baba­qui­ce poli­ti­ca­men­te cor­re­ta dos dias de hoje, tam­bém acha­va que poe­sia era coi­sa de viado !

E esta­va cons­truí­do um obs­tá­cu­lo que, na minha ima­tu­ra visão ado­les­cen­te, seria intrans­po­ní­vel… até o momen­to em que minha mãe me cha­mou no can­to e me deu seu exem­plo mais ines­que­cí­vel de sabe­do­ria, dizen­do :
— Fin­ja que gos­ta.
Como é que é?!?!?!
— Isso mes­mo : quan­do você esti­ver achan­do a coi­sa toda mui­to cha­ta, mui­to cheia de fres­cu­ra… faça como os ato­res e fin­ja que está gos­tan­do mui­to !
— Mas mãe, como eu vou gos­tar des­se tre­co cheio de pala­vras estra­nhas e velhas, cheio de rimi­nhas no final das fra­ses?!?!
— Vai lá, meu filho, e ten­ta… se eles estão riman­do, vai e rime tam­bém ! Se eles estão falan­do difí­cil, vai e des­cu­bra pala­vras ain­da mais difí­ceis para ver se eles vão entender !

Sabe o que acon­te­ceu ?
Eu fui… e fiz.
E se você está len­do esse tex­to é por­que eu caí numa arma­di­lha : eu até era bom em Por­tu­guês e já gos­ta­va de ler, mas depois des­sa “ten­ta­ti­va”, logo dei­xei de fin­gir e pas­sei a ver­da­dei­ra­men­te amar escre­ver, seja em pro­sa, seja em ver­so…
Se minha espo­sa, na épo­ca em que era ape­nas um inte­res­se platô­ni­co, não tives­se tra­ta­do as poe­si­as chei­as de sin­ce­ri­da­de e sen­ti­men­to que lhe dedi­quei como se fos­sem papel higi­ê­ni­co sujo… tal­vez esti­ves­se poe­ti­zan­do até hoje.
Mas, ao menos, per­se­ve­rei na pro­sa e tenho guar­da­do comi­go o orgu­lho de ter sido o apoio peda­gó­gi­co dela enquan­to cur­sou o nível supe­ri­or e se for­mou em Letras !
(Ao mes­mo tem­po em que adqui­ri e ain­da tenho a pétrea con­vic­ção de que nível supe­ri­or, nes­se país, não ser­ve pra nada!)

Enfim, hoje eu creio ser capaz de me expres­sar melhor pela lin­gua­gem escri­ta do que pela fala­da e esco­lhi con­tar esse epi­só­dio por­que nele fica fácil iden­ti­fi­car um dos mai­o­res obs­tá­cu­los que já tive em toda a minha vida… e do qual hoje che­go a sen­tir um aper­to no cora­ção ao lem­brar, cheio de sau­da­de, do meu que­ri­do pro­fes­sor Ramos.
(Mal­di­tos nin­jas cor­ta­do­res de cebola!!!)

INIMIGOS

Enquan­to fui ali lavar o ros­to e secar uma agui­nha que esta­va sain­do dos meus olhos, topei com minha espo­sa indo colo­car as cri­an­ças para dor­mir e ten­tei ante­ci­par a ela sobre o que acon­te­ceu na aca­de­mia e sobre o que estou escre­ven­do…
(Não adi­an­ta mui­to, pois — mais ou menos como na épo­ca das poe­si­as igno­ra­das — ela fica assis­tin­do um mon­te de outras pes­so­as — a Lara via­jan­do para o Ori­en­te, a Mi DeSi­mo­ne e seus tan­tos empre­gos, o dou­tor Bara­kat… — mais liga­das à área de saú­de. Admi­to que eu até gos­to de ouví-la con­tan­do o resu­mo de tudo o que eles publi­cam, mas, ao mes­mo tem­po, não con­si­go de me dei­xar, como o pró­prio Cris­to dis­se, um “pro­fe­ta sem hon­ra den­tro da pró­pria casa”…)
Enfim, quan­do men­ci­o­nei o ter­mo “ini­mi­gos” ela logo ficou desa­gra­da e dis­se que essa é uma “expres­são infan­til”…
Parei, pen­sei (e quan­do pen­so é num sen­ti­do macro, não ape­nas no que foi dito, mas em tudo aqui­lo que levou a pes­soa a dizer aqui­lo)… e des­co­bri que ela, como mui­tas outras pes­so­as sofis­ti­ca­das (espe­ci­al­men­te na área pro­fis­si­o­nal), ten­tam evi­tar o uso de cer­tas pala­vras ou, até mes­mo, assu­mir algu­mas pos­tu­ras mais inci­si­vas.
Refutei‑a com a voz, mas, como dis­se, escre­vo melhor que falo, e vou desen­vol­ver aqui o argu­men­to sobre a exis­tên­cia, sim, de inimigos.

  • O ini­mi­go é a pes­soa que quer ver o seu mal.
  • O ini­mi­go é a pes­soa que, mes­mo sem moti­vo, quer te cau­sar prejuízo.
  • O ini­mi­go é a pes­soa que, a des­pei­to do que você faça, nun­ca vai reco­nhe­cer nem seus esfor­ços e mui­to menos seus méritos.
  • O ini­mi­go é a pes­soa que vai te acu­sar até mes­mo pelo que você não tenha feito.
  • O ini­mi­go, dian­te de qual­quer con­fli­to, sem­pre vai bus­car um moti­vo para dar razão e jus­ti­fi­car quem esti­ver con­tra você.
  • O ini­mi­go é quem não acei­ta que você se des­ta­que fazen­do algu­ma coi­sa, mes­mo que ele pró­prio nada faça.
  • O ini­mi­go é quem não tem capa­ci­da­de, conhe­ci­men­to e /​ou sabe­do­ria, mas se ira ao ver seu “nicho de como­di­da­de” ame­a­ça­do quan­do você, mes­mo sem pre­ten­der ser ame­a­ça, demons­tra capa­ci­da­de, conhe­ci­men­to e /​ou sabedoria.
  • O ini­mi­go vai sem­pre exi­gir mais e mais de você, porém sem nun­ca cola­bo­rar de for­ma algu­ma para o seu aperfeiçoamento.
  • O ini­mi­go não faz crí­ti­cas cons­tru­ti­vas : ele sem­pre vai bus­car o pior e, se por aca­so você tiver fei­to algo per­fei­to, ape­nas se calará.
  • O ini­mi­go está ávi­do para te ver cair, falhar, vaci­lar, fra­que­jar e não per­de­rá a opor­tu­ni­da­de para tri­pu­di­ar com vora­ci­da­de pre­da­tó­ria sobre você se isso ocorrer.
  • O ini­mi­go vai lem­brar de qual­quer falha sua, por menor que seja, e sem­pre esta­rá com ela viva na memó­ria e enga­ti­lha­da para jogar na sua cara, em qual­quer opor­tu­ni­da­de, a des­pei­to de que tenham se pas­sa­do décadas.

Pro­va­vel­men­te o ini­mi­go é uma pes­soa inca­paz de agre­gar, pior ain­da quan­do está em posi­ção de des­ta­que, pois por não saber divi­dir sua pro­e­mi­nên­cia (seja pro­fis­si­o­nal, seja fami­li­ar) dan­do cré­di­tos a quem mere­ce, vai optar por todos os pro­ce­di­men­tos cáus­ti­cos, difa­ma­tó­ri­os, ofen­si­vos e pre­ju­di­ci­ais possíveis.

Se, por aca­so, o ini­mi­go che­gar a fazer algo que che­gue a te bene­fi­ci­ar, pode ter cer­te­za de que aqui­lo será joga­do em sua cara pelo res­to de sua vida : é uma dívi­da que só a mor­te, sua ou dele, vai extin­guir.
(E se for a sua, pode con­tar que ain­da have­rá cha­co­ta e ques­ti­o­na­men­to de sua memória)

Enfim, qui­se­ra eu que fos­se ape­nas uma infan­ti­li­da­de e até nem tenho mui­tos, mas tenho, sim, pes­so­as que atu­am como ini­mi­gos.
Pode­ria citá-los pelo nome, um a um, pois os tenho em núme­ro menor que os dedos de minhas mãos, mas… é mais con­ve­ni­en­te a opção de lan­çá-los ao lim­bo.
E você… tem inimigos ?

DISCERNINDOCONCLUINDO

Abai­xo está o (link indi­re­to para o) vídeo onde regis­trei a fase embri­o­ná­ria do raci­o­cí­nio que desen­vol­vo nes­se texto :

Então, defi­ni­ti­va­men­te eu sou meu mai­or obs­tá­cu­lo, mas cer­ta­men­te não sou meu mai­or ini­mi­go : vou me esfor­çar e me aper­fei­ço­ar de modo a con­se­guir fazer melhor tudo o que esti­ver a meu alcan­ce, seja na área físi­ca, seja na área intelectual !

O INIMIGO, sem­pre que puder, fará de tudo para se trans­for­mar em um obs­tá­cu­lo !
Se pudes­se, se faria intrans­po­ní­vel.
A melhor solu­ção é o afas­ta­men­to, pois rela­ci­o­na­men­tos tóxi­cos podem cau­sar ansi­e­da­de, depres­são e, até mes­mo, a mor­te.
Se for no meio pro­fis­si­o­nal, con­si­de­re bem : não tem dinhei­ro no mun­do que pague a sua paz, mui­to menos a sua vida.
Per­ce­ba que não exis­te “bom ini­mi­go”: esse seria o obstáculo.

O OBSTÁCULO não é neces­sa­ri­a­men­te seu ini­mi­go e exis­te para ser supe­ra­do : há pes­so­as cujo papel em nos­sa vida é exa­ta­men­te esse e, após todo o pro­ces­so — e isso pode levar anos — cor­re­mos até o ris­co, como no exem­plo que dei aci­ma, de lem­brar com ter­nu­ra de alguns epi­só­di­os.
Supe­rar o obs­tá­cu­lo nos aper­fei­çoa e, nor­mal­men­te, pas­sa­mos a con­si­de­rá-lo fácil : na aca­de­mia sim­ples­men­te aumen­ta­mos o peso ou o núme­ro de repe­ti­ções ; na vida, creio que nos­so papel pas­sa a ser o de auxi­li­ar outras pes­so­as que pos­sam estar pas­san­do por situ­a­ções parecidas.

Ah ! Base­an­do-me no que apren­di sobre COMPETÊNCIAS, os obs­tá­cu­los pro­fis­si­o­nais são desa­fi­os que, se vão além dos limi­tes de seus conhe­ci­men­tos aca­dê­mi­cos, cer­ta­men­te podem ser solu­ci­o­na­dos por alguém devi­da­men­te qua­li­fi­ca­do naque­la área.
Cabe a você ava­li­ar se o obs­tá­cu­lo é tão impor­tan­te que vale a pena tam­bém se qua­li­fi­car para lidar com ele… ou (lar­gar de ser mão de vaca e) con­tra­tar alguém com­pe­ten­te naque­la área para supe­rá-lo por você !
Não é vergonha.

Mui­to obri­ga­do por sua aten­ção e espe­ro que pos­sa, de algu­ma for­ma, ter lhe aju­da­do ou, ao menos, distraído.


SONETO PEDIÁTRICO

Quan­do de teus ver­des olhos
O lam­pe­jar me alu­ci­na
Toda a lou­cu­ra e a luci­dez
Têm o teu nome… Carina.

Tal­vez seja o ine­xis­ten­te
que con­tém os uni­ver­sos,
mis­té­ri­os que um peni­ten­te
dese­ja por nes­tes versos.

Lou­co eu sou e te con­fes­so
que meu peca­do é te que­rer.
De tua bus­ca não cesso…

Pro­cu­ro por um aces­so,
meus lou­cos esfor­ços não meço :
… só serei feliz com você.

Eu, após ter des­co­ber­to que poe­sia não é só “coi­sa de via­do”, aos 17 anos.

(Ter­mi­nei de escre­ver por vol­ta das 4:00h, mas para ela, que não vai ler, impor­ta mais que eu lave as pane­las… e, para falar a ver­da­de, a mim tam­bém !
Sem cur­ti­das nem aplau­sos, sem comen­tá­ri­os nem com­par­ti­lha­men­tos, vão-se embo­ra as expec­ta­ti­vas de um livro.
Só você pode me aju­dar.
Obri­ga­do.)

Me dá um “joi­nha”?
Gos­tou ? Me aju­de compartilhando…

Geovane Souza

Já fiz e faço tantas coisas que só criando um site para concentrar e apresentar essa variedade.

  • El Misionero Matsuura Junichiro disse:

    Per­gun­ta que não quer calar…
    Se alguém afir­ma que­rer o TEU bem, quan­do na ver­da­de, dese­ja ver o bem DELA na TUA vida, essa pes­soa é um ini­mi­go, ou um obstáculo ?

    • Geovane Souza disse:

      Pelo que enten­di é alguém que não te cau­sa mal, que­ren­do ape­nas tirar algu­ma van­ta­gem por estar ao seu lado, é isso ?

      Bom, nes­se caso não é ini­mi­go nem obs­tá­cu­lo e, ten­do sido capaz de iden­ti­fi­car esse com­por­ta­men­to na pes­soa, cabe intei­ra­men­te a você deci­dir o que fará : se até os ani­mais (que nada que­rem além de tirar van­ta­gem de nos­sa exis­tên­cia) podem ser ades­tra­dos a nos dar algu­ma satis­fa­ção, não pre­ci­sa sair chu­tan­do a cri­a­tu­ra só por não retri­buir suas expec­ta­ti­vas… se não esti­ver cau­san­do pre­juí­zo, só o tem­po pode res­pon­der se vale a pena man­ter algo assim.

      Obri­ga­do por comentar!!

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