Vista noturna do Paço Municipal de São José dos Campos iluminado, com trilhas de luz de veículos em movimento no primeiro plano.

O Mundo É Assim, São José (Conclusão)

Pitangas Choradas e Grito do Intelecto Amordaçado: Nem Biscoitos Nem 50 Centavos!

Continuando exatamente de onde parei no capítulo anterior, não tinha como prever o abismo que se abriria no mundo logo após aquele dia, mas cruzar 800 km de uma Dutra fantasmagórica em plena pandemia… só para, em São José dos Campos, consolidar o que chamo de “A Derrota Mais Vitoriosa” da minha vida!

O mapa final da nossa jornada e o destino em São José dos Campos:

Chegamos ao ponto final

Com a forte sensação de ter prestado um péssimo exame pela manhã, decidi partir da “capital do Vale” ainda naquele domingo, mas antes de pegar a estrada inventei de passar no Center Valle e acabei descobrindo que nenhum paraíso pode ser tão perfeito: o shopping estava tão lotado, mas tão lotado… que precisei dar três voltas inteiras (passando, inclusive, pelo prédio-garagem) até achar uma vaga para estacionar!!
Como eu gostaria que os problemas de minha cidade se resumissem a isso… e que essa história não tivesse um final tão ruim.

Infelizmente a jornada se tornou um tanto menos agradável desde que a surdez profunda me agarrou e passei a não conseguir mais ouvir música: particularmente naquele 1° de dezembro de 2019 o retorno ao Rio de Janeiro foi amargo, tanto pela insatisfação com meu desempenho no certame quanto pela preocupação em deixar minha irmã sozinha na casa onde minha mãe falecera na semana anterior
Sei bem que muitos leitores não acreditam em Deus, mas confio que graças a Ele tudo correu o melhor possível: chegamos bem e as tarefas típicas de fechamento de ano ocuparam meus dias.

TÉDIO, MEU CARCEREIRO

E, aproveitando que acabei de fazer referência ao Criador, é a Ele que elevo meus pensamentos enquanto executo as bucólicas tarefas domésticas como, por exemplo, limpar o quintal ou lavar a louça: antes costumava ter o prazer de ouvir música enquanto fazia tais coisas, mas a surdez se encarregou de tirar até a simples alegria de meus deleites musicais e me condenou ao monólogo incessante da própria mente.
A surdez sequestrou a trilha sonora da minha vida, deixando apenas o eco dos meus próprios pensamentos como companhia.

De fato, é mesmo, mas essa tem sido minha realidade desde o final de 2018 e, de certa forma, estou até me adaptando… tanto que, ao final de março de 2020, quando a pandemia de Corona vírus chegou, pouquíssima coisa mudou em minha rotina: se a falta de oportunidades em eventos já era dramática, a crise financeira não piorou porque eu já perdia algumas noites de sono desde antes… a única diferença foi só não mais precisar levar as crianças à escola.
Sinceramente não me comovi quando, em pouco tempo, começaram a aparecer muitas pessoas reclamando da “agonia da quarentena”, pois eu já vinha vivendo essa realidade há mais de um ano.

Estava eu resilientemente — existe essa palavra? — administrando toda essa desgraça quando, na tarde do último dia de março, meu mundo vira de cabeça para baixo: no exato momento em que eu aprendia a aceitar o fracasso, a tela do celular brilhou com a prova de que minha mente ainda era um território de alta performance.

Captura de tela de um e-mail oficial da Prefeitura de São José dos Campos convocando Geovane Souza para o cargo de Fiscal de Postura e Estética Urbana.
A lufada de esperança em meio ao caos: o e-mail de convocação para o cargo de Fiscal de Postura enviado pela PMSJC em março de 2020.

No concurso em que me vi derrotado… eu estava sendo convocado!!
E, para confirmar a mim mesmo que minha deficiência era somente auditiva, mas nunca mental, ainda houve mais um detalhe importantíssimo:

Sim, por conta da surdez acabei conduzido à 1º colocação… da lista especial, mas ainda assim foi uma lufada de contentamento: meus olhos brilharam de esperança e minha vida ganhou sentido de novo!

QUEBRA-CABEÇA

Se em dias comuns preparar documentação já nem é uma coisa que flui com facilidade, imagine no meio de uma pandemia!?

Eu poderia forçá-los a sofrer com meu relato sobre como é estranho e apocalíptico andar por ruas vazias e tudo fechado, além da agonia de ter apenas três dias para conseguir uma documentação que nenhum órgão carioca sequer conhece o nome ou o código, mas vou aliviar contando que o desespero por trabalhar era tão grande que, pelo “cartório on-line” fui cobrado em mais de trezentos reais para conseguir todos os meus “nada consta” no Rio de Janeiro e — de quebra, por segurança e mesmo não sendo residente em São Paulo — ainda fui até o link indicado na mensagem de convocação e pedi tudo por lá também!

E o medo de ser contaminado então?
Eu poderia relatar o sentimento de insegurança por estar deixando a família em casa e indo cruzar mais de trezentos quilômetros de estrada com uma cópia impressa do edital de convocação em mãos para o caso de ser parado em alguma barreira sanitária, mas, ao contrário da expectativa “Mad Max” da jornada, acabei encontrando a melhor e mais linda Via Dutra pela qual já passei em toda a minha vida!

Para alguém que teve que pedir esmola em dezembro de 2019, foi um peso muito grande pôr o combustível para tamanha aventura, mas a expectativa de mudar essa vida miserável que tenho suportado no Rio de Janeiro me fez ignorar até isso: eu faria de tudo para poder evitar que minha esposa tivesse que continuar se expondo aos riscos inesperados das madrugadas violentas quando, para sobreviver, ia trabalhar em eventos que acabavam duas, às vezes três da manhã!

Apesar de eu ir buscá-la na maioria das vezes, cruzar a Avenida Brasil às duas da manhã — seja no transporte que for — te coloca numa condição de estar jogando com a sorte e apenas esperando qual o dia em que se vai deparar com alguma manifestação do mal…

Não posso deixar de registrar todo o apoio e carinho que recebi de minha sobrinha e seu marido, que todas as vezes — e especialmente nessas, durante a pandemia — graciosamente me receberam em sua casa e fizeram todo o possível para que pudéssemos logo nos tornar também, como eles, cidadãos joseenses.
Acabei tendo de ir até lá ainda mais uma vez além dessa primeira, mas…

VITORIOSA DERROTA

As pessoas que sabiam da aprovação ficavam animadas, mas quem me conhece de verdade sempre perguntava como eu ia me virar para ser Fiscal de Posturas Municipal com esse braço direito cheio de placas metálicas e surdo.
Ora, meus queridos — respondia eu empolgado — eu fui militar, controlador de tráfego aéreo por 20 anos: sei muito bem o que é disciplina! Esses 10 anos no mundo de eventos ainda me deu a experiência de lidar com o público… vai ser perfeito zelar por uma cidade tão mais civilizada que esse inferno carioca!

Eu já podia antever meus filhos matriculados em algumas das melhores escolas públicas do Brasil, fora o alívio de não ter que cruzar a Avenida Brasil inteira para, numa emergência, ir de Campo Grande até o HCA, na Tijuca… eu sonhava com viver e não apenas sobreviver!
Só que justamente o fato de ter sido, ou melhor, não ter deixado de ser militar, acabou com o meu sonho:

Captura de tela do e-mail da Prefeitura de São José dos Campos (PMSJC) informando a desclassificação de Geovane Souza por incompatibilidade de acúmulo de cargo.
O ponto final de um sonho: a devolutiva oficial que selou a “Vitoriosa Derrota” de Geovane Souza em São José dos Campos.

De que adianta a FAB ter me dado um documento dizendo que “posso trabalhar” se a estrutura tributária brasileira pune quem tenta somar esforços?
De que me valeram as horas estudando com fones especiais se, na ponta do lápis, aceitar a vaga significaria pagar para trabalhar, engolido pela alíquota máxima do IRPF e pela perda da minha parca estabilidade anterior?
Vitoriosa Derrota…

Nesse dia meu sonho acabou, meu mundo caiu e acabei passando até um tempo longe da internet…
Perdi meu orgulho e acho que agora, com as dívidas desse 2020 catastrófico batendo às portas, vou perder minha vergonha e sair pedindo esmola.
Se você leu até aqui esperando um final feliz, saiba que quando comecei a escrever nem eu esperava tamanha decepção.

Então, antes de me criticar, por favor, valorize o esforço do escritor e me ajude a pagar uma conta, porque, como surdo, a maioria das pessoas só espera me ver sinalizando, como se a falta de audição limitasse a complexidade do meu raciocínio. Elas oferecem subempregos braçais como caridade, ignorando que o que busco não é piedade, mas a validação da minha capacidade técnica.

Confesso que já pedi a Deus para me tirar essa vida e não entendo a razão de ter chegado até aqui… é para expor minha esposa e fazer meus filhos passar vergonha e necessidade?
Não vou dar cabo da vida… longe disso!

Vista noturna do Paço Municipal de São José dos Campos iluminado, com trilhas de luz de veículos em movimento no primeiro plano.
O Paço Municipal de São José dos Campos: o centro do poder e o cenário final onde minha “Vitoriosa Derrota” foi selada.

Eu segui em frente, sufocado pelas máscaras de proteção e registrando dias cada vez piores para toda a humanidade, mas, do meio da desolação, decidi dar a volta por cima desse episódio com final tão frustrante e absolutamente infeliz que, confesso, nem sei como arrumei coragem e disposição para registrar.

A Conexão Literária

Acho importante explicar o título que escolhi para a trilogia: o mundo é assim, né, São José?

  • A Inversão de Perspectiva: No livro de Orígenes Lessa, “O mundo é assim, Taubaté”, a história é narrada sob o ponto de vista de um macaco que observa os seres humanos de dentro de uma jaula, invertendo os papéis e questionando o comportamento da sociedade.
  • O Olhar Crítico: Existe um paralelo claro entre o narrador de Lessa e a minha própria percepção: olhar para o “zoológico humano” — seja no Rio de Janeiro ou na burocracia paulista — com uma visão inteligente e questionadora.
  • A Geografia do Vale: Orígenes Lessa viveu em São José dos Campos, e embora a biblioteca municipal da cidade leve o nome do poeta Cassiano Ricardo, Lessa utilizou a vizinha Taubaté como cenário para essa reflexão sobre a estranheza do mundo.
    Meu título, portanto, é um tributo geográfico e intelectual ao Vale do Paraíba.

Logo após esse episódio, recebi a oportunidade mais espetacular que me tirou dessa condição tão miserável: um amigo que mora do outro lado do planeta me perguntou se realmente eu era capaz de aprender rápido e, preservando detalhes e identidade, hoje estou atuando como Administrador de Sistemas Operacionais durante as madrugadas.

Por fim, vendo tantos surdos vivendo apenas através das moedas de 50 centavos e da piedade alheia — vítimas da armadilha da acomodação, em que se diminuem até parecer menores do que a plenitude intelectual que podem alcançar, apenas para garantir a caridade e a atenção dos outros — decidi lutar pelo conceito AudioAtivo.

Trata-se de uma tecnologia que quebra o silêncio e valida a performance intelectual: é o meu modo de operação, ativado pela energia e pela recusa em ser o “maluco do vilarejo” (entenda no vídeo ao lado) que aceita migalhas; é a vontade de provar que a surdez não é um limite, mas um ponto de partida para a excelência.

Um abraço.

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Ana Paula Azevedo
Ana Paula Azevedo
26 de octubre de 2020 9:00

Puxa , lamentável o final disso tudo! Será que não cabe recurso?
Diante mão fico na torcida pela vida de vocês !
Como creio que nada acontece por acaso, acredito piamente que Deus te reserva algo de melhor!
Um grande abraço! Fiquem bem!

Filomena Gonçalves
28 de octubre de 2020 19:44

Boa noite Geovane,á anos que venho seguindo seus posts e naturalmente cheguei a este…Sei que DEUS paea tudo tem um propósito na vida e consigo não é diferente.Observo desde o início dos seus escritos um descrer e diminuição de fé por via da sua trajectória de vida,mas mantenha a fé e sua perseverança em DEUS pois E’le ainda vai bradar na sua vida e dos seus…Sou portuguesa e senti de DEUS de o ajudar,não sei como mas DEUS vai-me mostrar o modo,visto viver em Portugal,mas á sempre um jeito.Se puder envie-me o número da sua conta,o nome do banco e o seu nome..Aqui em Lisboa existem esses tipo Luso transfers,logo verei como darei o jeito..Fique na paz e aquiete seu coração,pois DEUS não o desamparou…Um abraço,Filomena.