fbpx

O Mundo É Assim, São José (Conclusão)

Foto de abertura: Paço Municipal de São José dos Campos – Vista Noturna,
por Durval Carvalho dos Santos em Outubro de 2018.

ALÉM DE PITANGAS, O QUE DEVE CHORAR QUEM PRECISA GANHAR MAIS QUE BISCOITOS?

Continuando exatamente de onde parei no capítulo anterior, não tinha como prever o tanto que o mundo ia piorar depois daquele dia, mas… (já disse isso) viajar pela Via Dutra é uma das coisas que mais gosto de fazer nessa vida!
Com a forte sensação de ter prestado um péssimo exame pela manhã, decidi partir da “capital do Vale” ainda naquele domingo, mas antes de pegar a estrada inventei de passar no Center Valle e acabei descobrindo que nenhum paraíso pode ser tão perfeito: o shopping estava tão lotado, mas tão lotado… que precisei dar três voltas inteiras (passando, inclusive, pelo prédio-garagem) até achar uma vaga para estacionar!!
Como eu gostaria que os problemas de minha cidade se resumissem a isso… e que essa história não tivesse um final tão ruim.

Infelizmente a jornada se tornou um tanto menos agradável desde que a surdez profunda me agarrou e passei a não conseguir mais ouvir música: particularmente naquele 1° de dezembro de 2019 o retorno ao Rio de Janeiro foi amargo, tanto pela insatisfação com meu desempenho no certame quanto pela preocupação em deixar minha irmã sozinha na casa onde minha mãe falecera na semana anterior
Sei bem que muitos leitores não acreditam em Deus, mas confio que graças a Ele tudo correu o melhor possível: chegamos bem e as tarefas típicas de fechamento de ano ocuparam meus dias.

TÉDIO, MEU CARCEREIRO

E, aproveitando que acabei de fazer referência ao Criador, é a Ele que elevo meus pensamentos enquanto executo as bucólicas tarefas domésticas como, por exemplo, limpar o quintal ou lavar a louça: antes costumava ter o prazer de ouvir música enquanto fazia tais coisas, mas a surdez se encarregou de tirar até a simples alegria de meus deleites musicais e me obrigou a me isolou na solidão do raciocínio.
Conversar consigo mesmo te parece tedioso?
De fato, é mesmo, mas essa tem sido minha realidade desde o final de 2018 e, de certa forma, estou até me adaptando… tanto que, ao final de março de 2020, quando a pandemia de Corona vírus chegou, pouquíssima coisa mudou em minha rotina: se a falta de oportunidades em eventos já era dramática, a crise financeira não piorou porque eu já perdia algumas noites de sono desde antes… a única diferença foi só não mais precisar levar as crianças à escola.
Sinceramente não me comovi quando, em pouco tempo, começaram a aparecer muitas pessoas reclamando da “agonia da quarentena”, pois eu já vinha vivendo essa realidade há mais de um ano.

Estava eu resilientemente administrando toda essa desgraça quando, na tarde do último dia de março, meu mundo vira de cabeça para baixo:

No concurso em que me vi derrotado… eu estava sendo convocado!!
E, para confirmar a mim mesmo que minha deficiência era somente auditiva, mas nunca mental, ainda houve mais um detalhe importantíssimo:

Sim, por conta da surdez acabei conduzido à 1º colocação… da lista especial, mas ainda assim foi uma lufada de contentamento: meus olhos brilharam de esperança e minha vida ganhou sentido de novo!

QUEBRA-CABEÇA

Se em dias comuns preparar documentação já nem é uma coisa que flui com facilidade, imagine no meio de uma pandemia!?
Eu poderia forçá-los a sofrer com meu relato sobre como é estranho e apocalíptico andar por ruas vazias e tudo fechado, além da agonia de ter apenas três dias para conseguir uma documentação que nenhum órgão carioca sequer conhece o nome ou o código, mas vou aliviar contando que o desespero por trabalhar era tão grande que, pelo “cartório on-line” fui cobrado em mais de trezentos reais para conseguir todos os meus “nada consta” no Rio de Janeiro e — de quebra, por segurança e mesmo não sendo residente em São Paulo — ainda fui até o link indicado na mensagem de convocação e pedi tudo por lá também!

E o medo de ser contaminado então?
Eu poderia relatar o sentimento de insegurança por estar deixando a família em casa e indo cruzar mais de trezentos quilômetros de estrada com uma cópia impressa do edital de convocação em mãos para o caso de ser parado em alguma barreira sanitária, mas, ao contrário da expectativa “Mad Max” da jornada, acabei encontrando a melhor e mais linda Via Dutra pela qual já passei em toda a minha vida!

Para alguém que teve que pedir esmola em dezembro de 2019, foi um peso muito grande pôr o combustível para tamanha aventura, mas a expectativa de mudar essa vida miserável que tenho suportado no Rio de Janeiro me fez ignorar até isso: eu faria de tudo para poder evitar que minha esposa tivesse que continuar se expondo aos riscos inesperados das madrugadas violentas quando, para sobreviver, ia trabalhar em eventos que acabavam duas, às vezes três da manhã! Apesar de eu ir buscá-la na maioria das vezes, cruzar a Avenida Brasil às duas da manhã — seja no transporte que for — te coloca numa condição de estar jogando com a sorte e apenas esperando qual o dia em que se vai deparar com alguma manifestação do mal…

Não posso deixar de registrar todo o apoio e carinho que recebi de minha sobrinha e seu marido, que todas as vezes — e especialmente nessas, durante a pandemia — graciosamente me receberam em sua casa e fizeram todo o possível para que pudéssemos logo nos tornar também, como eles, cidadãos joseenses.
Acabei tendo de ir até lá ainda mais uma vez além dessa primeira, mas…

O TEXTO MAIS DIFÍCIL DE TODA A MINHA VIDA

As pessoas que sabiam da aprovação ficavam animadas, mas quem me conhece de verdade sempre perguntava como eu ia me virar para ser Fiscal de Posturas Municipal com esse braço direito cheio de placas metálicas e surdo.
Ora, meus queridos — respondia eu empolgado — eu fui militar, controlador de tráfego aéreo por 20 anos: sei muito bem o que é disciplina! Esses 10 anos no mundo de eventos ainda me deu a experiência de lidar com o público… vai ser perfeito zelar por uma cidade tão mais civilizada que esse inferno carioca!

Eu já podia antever meus filhos matriculados em algumas das melhores escolas públicas do Brasil, fora o alívio de não ter que cruzar a Avenida Brasil inteira para, numa emergência, ir de Campo Grande até o HCA, na Tijuca… eu sonhava com viver e não apenas sobreviver!
Só que justamente o fato de ter sido, ou melhor, não ter deixado de ser militar, acabou com o meu sonho:

De que adianta a FAB ter me dado um documento dizendo que “posso trabalhar” se não posso ter um emprego estável que pague um salário que não será consumido pela ascensão na alíquota do IRPF?
De que me valeram tantas horas de sacrifício, com fones de ouvido especiais, estudando para aprender coisas que nunca vou poder utilizar? Só para me provar que minha mente até pode ser boa, mas que devo continuar miserável e sem merecer um trabalho digno por não conseguir mais atender telefonemas?

Nesse dia meu sonho acabou, meu mundo caiu e acabei passando até um tempo longe da internet…
Perdi meu orgulho e acho que agora, com as dívidas desse 2020 catastrófico batendo às portas, vou perder minha vergonha e sair pedindo esmola.
Se você leu até aqui esperando um final feliz, saiba que quando comecei a escrever nem eu esperava tamanha decepção.
Então, antes de me criticar, por favor, valorize o esforço do escritor e me ajude a pagar uma conta, porque, como surdo, a maioria das pessoas só espera me ver sinalizando, restringindo meu vocabulário e a complexidade de meu raciocínio para poder, se achando misericordiosas, me oferecer um subemprego braçal e “com carteira” pelo qual, pelas regras do imposto brasileiro, no final das contas eu vou acabar pagando para trabalhar!

Confesso que já pedi a Deus para me tirar essa vida e não entendo a razão de ter chegado até aqui… é para expor minha esposa e fazer meus filhos passar vergonha e necessidade?
Não vou dar cabo da vida… longe disso!
Vou seguir em frente, sufocado pelas máscaras de proteção e olhando esses dias cada vez piores para toda a humanidade, mas realmente não vejo mais pelo o que possa me esforçar ou dedicar: o desânimo é tanto que tranquei a faculdade, parei os cursos livres e nem sei como hoje, de 25 para 26 de outubro, arrumei coragem e disposição para contar esse episódio com final tão frustrante e absolutamente infeliz, mas que certamente justifica o título que escolhi para a trilogia: o mundo é assim, né, São José?

Um abraço.

Me dá um "joinha"?

4 comentários em “O Mundo É Assim, São José (Conclusão)

Adicione o seu

  1. Puxa , lamentável o final disso tudo! Será que não cabe recurso?
    Diante mão fico na torcida pela vida de vocês !
    Como creio que nada acontece por acaso, acredito piamente que Deus te reserva algo de melhor!
    Um grande abraço! Fiquem bem!

    1. Pois é, Aninha… não cabe recurso, mas pelo menos a gente continua estando por perto por mais um tempinho, pois de tudo que reclamo abertamente dessa cidade infernal onde vivemos, pessoas especiais como você e sua família são o que ainda nos consola por estar aqui.
      Que Deus os abençoe!

  2. Boa noite Geovane,á anos que venho seguindo seus posts e naturalmente cheguei a este…Sei que DEUS paea tudo tem um propósito na vida e consigo não é diferente.Observo desde o início dos seus escritos um descrer e diminuição de fé por via da sua trajectória de vida,mas mantenha a fé e sua perseverança em DEUS pois E’le ainda vai bradar na sua vida e dos seus…Sou portuguesa e senti de DEUS de o ajudar,não sei como mas DEUS vai-me mostrar o modo,visto viver em Portugal,mas á sempre um jeito.Se puder envie-me o número da sua conta,o nome do banco e o seu nome..Aqui em Lisboa existem esses tipo Luso transfers,logo verei como darei o jeito..Fique na paz e aquiete seu coração,pois DEUS não o desamparou…Um abraço,Filomena.

    1. Filomena, sinto-me honrado e agradecido por ter se expressado aí de Portugal e apesar do cansaço e tristeza que passei, pode ter certeza que das poucas coisas que ainda tenho, a mais sólida é a fé: tentando escapar da dureza das palavras que tenho de falar, tentei criar outros caminhos, mas Deus tem me tocado de que minha missão, meu chamado… é aquele que comecei em 2005 e pelo qual tanto sofri.
      Pode ter certeza: recomecei a escrever e agora estou consciente de que vou sofrer ainda mais, porém, diante de tudo que está acontecendo no mundo, sou levado a crer que será o “arranque final” e só vou parar quando estiver pessoalmente com o Senhor Jesus Cristo.

      Que Ele nos proteja e sustente. Um fraternal abraço!

Deixe um comentário