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INCLUSÃO TECNOLÓGICA DE SURDOS : DORDELÍCIA NUMA INDÚSTRIA DESUMANA

Tem­po esti­ma­do de lei­tu­ra : 6 min

Há pou­co mais de um mês pas­sei pelo infor­tú­nio de uma mai­or degra­da­ção em minha audi­ção e isso me tor­nou ain­da mais depen­den­te de minhas pró­te­ses audi­ti­vas, par­ti­cu­lar­men­te para con­se­guir rea­li­zar tele­fo­ne­mas e ter aces­so aos reca­dos de voz, bas­tan­te comuns em apli­ca­ti­vos como o Mes­sen­ger e o WhatsApp.

Antes dis­so minha sur­dez era clas­si­fi­ca­da ape­nas como “mode­ra­da” e con­fes­so que não sabia o quan­to isso, ape­sar de ruim, era “bom”: às vezes até podia me dar ao luxo de rea­li­zar ati­vi­da­des sem usar os apa­re­lhos, pois a sen­sa­ção era (ape­nas) a de estar com um tra­ves­sei­ro ao redor da cabe­ça e, mes­mo com os sons aba­fa­dos e as vozes incom­pre­en­sí­veis, os sons do ambi­en­te eram dis­tin­tos… espe­ci­al e pra­ze­ro­sa­men­te a músi­ca.
Ago­ra nem com gran­de esfor­ço sou capaz de ouvir minha pró­pria voz, res­pi­ra­ção ou pul­sa­ção, quan­to mais a mai­or par­te do que soa no ambiente !

ACESSANDO AS DELÍCIAS DA TECNOLOGIA

OLHAAPARELHO ALI, EM CIMA DO CELULAR !

Este tex­to deve ser con­si­de­ra­do a sequên­cia ofi­ci­al do epi­só­dio nar­ra­do em “Pro­vi­dên­cia 2″ e, sim, eu fui tra­ba­lhar como Geren­te Adjun­to em Ser­vi­ços de Even­tos no Comi­tê Olím­pi­co Rio 2016 : dian­te da res­pon­sa­bi­li­da­de, desen­ter­rei o meu (pra­ti­ca­men­te inú­til) Rex­ton Cobalt+ para evi­tar ser um sur­do com­ple­ta­men­te ali­e­na­do, mas as pró­te­ses esta­vam guar­da­das e desa­ti­va­das por tan­to tem­po que com menos de um mês de uso come­ça­ram a apre­sen­tar uns piri­pa­ques, ruí­dos de cur­to cir­cui­to… às vezes até para­vam de fun­ci­o­nar sem mais nem menos !

Como aque­le empre­go esta­va pagan­do bem satis­fa­to­ri­a­men­te — dinhei­ro é coi­sa séria — e minha fun­ção nos jogos exi­gin­do todo um pla­ne­ja­men­to ante­ci­pa­do de ope­ra­ci­o­na­li­da­de e recur­sos huma­nos, seria impos­sí­vel pen­sar em me afas­tar para resol­ver isso : tinha gran­de difi­cul­da­de de aces­so à fono­au­dió­lo­ga com quem as adqui­ri, tan­to por sua agen­da quan­to pelos locais onde aten­dia, fora a gran­de des­con­fi­an­ça de que me aten­dia de má von­ta­de… então deci­di que era a hora de bus­car assis­tên­cia em outro lugar, com outra pes­soa.
Pela bon­da­de de Deus e pela efi­ci­ên­cia dos meca­nis­mos de bus­ca do Goo­gle aca­bei, entre as opções pes­qui­sa­das, entran­do em con­ta­to com o Dio­go Fle­ming, do CADI, que, por sua rela­ti­va pro­xi­mi­da­de com meu local de tra­ba­lho, pare­ceu ser a melhor opção para rea­li­zar quais­quer coi­sas rela­ci­o­na­da às próteses.

Enfim, por mais libe­ral que pre­ten­des­se soar a polí­ti­ca de tra­ba­lho por obje­ti­vos do Comi­tê, uma coi­sa que hei de res­sal­tar num futu­ro tex­to é a per­cep­ção incô­mo­da que as pes­so­as têm de quan­do pre­ci­sa­mos nos ausen­tar do tra­ba­lho para resol­ver assun­tos duran­te o “expe­di­en­te”, por qual­quer razão que seja, por mais domí­nio que você tenha de suas tare­fas… e naque­la tar­de de maio, antes de sair do MPC, tomei o cui­da­do de impri­mir ante­ci­pa­da­men­te todos os rela­tó­ri­os e entre­gá-los, numa pas­ta, a meu geren­te… e ain­da assim isso não impe­diu que, estan­do já dis­tan­te e pres­tes a des­cer pela esca­da rolan­te, meu che­fe bra­das­se para que todo o andar ouvis­se : “vol­te logo!”, como se eu esti­ves­se sain­do para uma ses­são de cine­ma ou qual­quer outra for­ma de ati­vi­da­de recre­a­ti­va.
A sur­dez não che­ga a ser uma van­ta­gem, mas pelo menos pude fazer cara de pai­sa­gem e seguir andan­do como se não tives­se escu­ta­do aqui­lo.
Só ago­ra, depois de velho, estou apren­den­do a lidar com esse for­te sen­ti­men­to de cul­pa por ante­ci­pa­ção : levei todo o tra­je­to sen­tin­do o peso de agir como se esti­ves­se rou­ban­do algo de alguém…

Ao che­gar ao con­sul­tó­rio e apre­sen­tar meu pro­ble­ma, já come­cei a ser “que­bra­do” quan­do, com um sor­ri­so, o dou­tor Dio­go me infor­mou que o apa­re­lho teria de ser envi­a­do a São Pau­lo para repa­ros e aqui­lo me dei­xou atô­ni­to : como eu iria inte­ra­gir em meu tra­ba­lho duran­te esse perío­do ? Será que isso sig­ni­fi­ca­ria o fim de minhas ati­vi­da­des olímpicas ?

Enquan­to ia sofren­do por ante­ci­pa­ção com mais essas ques­tões, o dou­tor olha­va seri­a­men­te para a audi­o­me­tria bem recen­te que eu havia rea­li­za­do duran­te o pro­ces­so de admis­são e, antes que eu pudes­se for­mu­lar qual­quer ques­tão, dis­se sim­ples­men­te que enquan­to a pró­te­se esti­ves­se em manu­ten­ção ele iria… me empres­tar outra que valia “ape­nas” pelo menos TRÊS VEZES MAIS que a defei­tu­o­sa!!!
Aí eu entrei em pâni­co : e se essa joia do tesou­ro der algum pro­ble­ma ? E se tiver um arras­tão quan­do eu pas­sar ali pela Cida­de de Deus ? E se meu suor cor­ro­si­vo des­truir essas péro­las… como vou poder pagar por isso se aca­bei de entrar num empre­go jus­ta­men­te na inten­ção de qui­tar uma pesa­da dívi­da que con­traí ao adqui­rir o anterior ?

Após lutar alguns ins­tan­tes con­tra essa for­te tem­pes­ta­de de ques­tões, a pri­mei­ra ques­tão que con­se­gui for­mu­lar foi : e quan­do eu venho pegar esse apa­re­lho empres­ta­do ?
— Pode ser ago­ra !
Ima­gi­no os olhões que eu devo ter arre­ga­la­do, mas se o fiz, ao menos não assus­tei o dou­tor, que pron­ta­men­te foi pegan­do as cai­xi­nhas para abrir, extrain­do as pró­te­ses novi­nhas, conec­tan­do ao com­pu­ta­dor atra­vés de uns cabos dife­ren­ci­a­dos (que eu, tam­bém téc­ni­co de infor­má­ti­ca, nun­ca havia vis­to), pro­gra­man­do minha audi­o­me­tria em um soft­ware espe­ci­a­li­za­do, colo­can­do cui­da­do­sa­men­te os apa­re­lhos em meu ouvi­do e, tudo em posi­ção, come­çou a fazer per­gun­tas sobre a qua­li­da­de de minha audi­ção atra­vés des­sas novas pró­te­ses : está metá­li­co ? Está com mui­to ruí­do ? Está com micro­fo­nia ? E des­se outro jei­to… fica melhor ?

Eu jogava check-ins no foursquare!

ERATIPO DE CHATO QUE GUARDAVA DATAHORA DE CADA COISA !

Qua­se uma hora após minha che­ga­da, saí dali abso­lu­ta­men­te ator­do­a­do usan­do um Rex­ton Eme­rald S40 todo ajus­ta­do à minha defi­ci­ên­cia e, fun­ci­o­nan­do no pilo­to auto­má­ti­co, fui diri­gin­do de vol­ta ao tra­ba­lho : só após ter pas­sa­do a Cida­de de Deus, ain­da por bai­xo do ele­va­do da Linha Ama­re­la, é que fui me dar con­ta de um baru­lho agu­do, repe­ti­ti­vo… tic, tic, tic…
Era a seta do car­ro!!
Após dois anos sem escu­tar aqui­lo, de repen­te pude per­ce­ber o quan­to real­men­te esti­ve sur­do e mal cui­da­do por todo esse tem­po… e as lágri­mas come­ça­ram a rolar e retor­na­vam con­tra minha von­ta­de a cada nuan­ce sono­ra que vol­ta­va a reco­nhe­cer, a cada ruí­do novo-velho que ia per­ce­ben­do… como era bom ouvir novamente !

Nes­se dia 19 de maio de 2016 reple­to de aven­tu­ras e emo­ções, tam­bém che­guei a duas con­clu­sões :
1. Minha pri­mei­ra fono­au­dió­lo­ga era uma cor­sá­ria mer­ce­ná­ria, inte­res­sa­da ape­nas em empur­rar um pro­du­to carís­si­mo no qual jamais sequer um ajus­te rea­li­zou, por isso eu ouvia tão mal e, deses­ti­mu­la­do, nem mes­mo uti­li­za­va a pró­te­se : por cau­sa de gen­te assim qual­quer um pode ter sua con­di­ção de saú­de pio­ra­da !
2. A fun­ção do líder é, sim, ser obs­tá­cu­lo aos subor­di­na­dos e, con­se­quen­te­men­te, o papel dos subor­di­na­dos, os bons ao menos, é supe­rar tais desa­fi­os com o máxi­mo pos­sí­vel de gra­ci­o­si­da­de : mal entrei de vol­ta no escri­tó­rio e meu geren­te se apro­xi­mou com uma expres­são de ago­nia e urgên­cia, ques­ti­o­nan­do por algu­ma infor­ma­ção cru­ci­al que deve­ria ter sido pres­ta­da por mim para que ele pudes­se apre­sen­tar em uma reu­nião com outros geren­tes ain­da mai­o­res que esta­vam todos ao redor da mesa dele, olhan­do para mim com uma expres­são de con­de­na­ção…
Sor­ri­den­te (sim, sor­ri­so da mais cáus­ti­ca aci­dez), andei até a mesa dele, pro­cu­rei pela pas­ta que havia entre­gue tão cui­da­do­sa­men­te em suas mãos antes de sair (e ago­ra esta­va soter­ra­da por cro­quis das ins­ta­la­ções), fiz cara de sério ao olhar para den­tro dela (que mal­di­to ator eu sou às vezes : que­ria mes­mo que achas­sem que falhei!) e, de repen­te, puxei duas folhas de papel de lá e — voilà ! — eram exa­ta­men­te as lis­tas atu­a­li­za­das que que­ri­am que eu não tives­se pre­pa­ra­do para poder ale­gar minha incom­pe­tên­cia !
Não foi magia nem tec­no­lo­gia : foi um pou­co de desa­ten­ção dele e, não cabe modés­tia aqui, com­pe­tên­cia minha mes­mo. (Numa pró­xi­ma publi­ca­ção vou con­tar que tudo isso foi orques­tra­ção de uma pes­soa inco­mo­da­da, sim­ples­men­te, com minha exis­tên­cia…)
Já sou sur­do e, pas­sí­vel de não escu­tar algum deta­lhe expos­to oral­men­te, é por isso que, quan­do líder, sem­pre dou a mai­or aten­ção aos subor­di­na­dos que retor­nam infor­man­do cum­pri­men­to da fun­ção dele­ga­da : pri­mei­ro para com­pro­var se foi, de fato rea­li­za­da a con­ten­to (e, se não, qual a razão ; sem­pre toman­do os pro­ce­di­men­tos cabí­veis) e segun­do para ade­quar aque­la par­te, com­ple­ta, ao todo !

LUA DE MEL ACABA TÃO RÁPIDO ?

O apa­re­lho velho até vol­tou do repa­ro, mas além de não abran­ger a mes­ma ampli­tu­de sono­ra do novo, logo come­çou a apre­sen­tar ruí­dos estra­nhos e engui­çar sem mais nem menos : foi uma pró­te­se pouquís­si­mo uti­li­za­da, mas mes­mo assim come­çou a “mor­rer” com apro­xi­ma­da­men­te dois anos após ser desem­ba­la­da… e naque­le momen­to ain­da nem esta­va con­si­de­ran­do a ques­tão da obso­les­cên­cia pro­gra­ma­da : fiz das tri­pas cora­ção, conhe­ci o emprés­ti­mo aces­si­bi­li­da­de do Ban­co do Bra­sil e cum­pri todos os requi­si­tos para con­se­guir, com juros bem abai­xo do mer­ca­do, par­ce­lar em 60 vezes o cus­to de qua­se 10 mil reais.

Por um aca­so do des­ti­no, topei levar, por duzen­tos reais a mais, um S60 no lugar de um S40, só que no momen­to da com­pra o fabri­can­te só dis­pu­nha de apa­re­lhos S80 e, no final das con­tas, foi com esse que aca­bei fican­do e, numa pro­mo­ção extre­ma­men­te benig­na, aca­bei tra­zen­do jun­to um pode­ro­so aces­só­rio cha­ma­do “Smart Con­nect”, que usa a tec­no­lo­gia Blu­e­to­oth para, entre outras coi­sas, via­bi­li­zar aces­so às mídi­as e tele­fo­ne­mas sem sequer haver a neces­si­da­de de manu­seio do apa­re­lho celu­lar.
Cos­tu­ma­va cha­má-lo de “colar mági­co”, pois me per­mi­tia tam­bém ajus­tar o volu­me e alte­rar o per­fil de uso — auto­má­ti­co, ambi­en­tes baru­lhen­tos, músi­ca… — ape­nas tocan­do em seus botões e, quan­do ali­a­do ao celu­lar, ain­da tinha o poder de veri­fi­car a car­ga das bate­ri­as e fazer um dire­ci­o­na­men­to sono­ro mais ade­qua­do con­for­me algu­ma situ­a­ção, como uma con­ver­sa impor­tan­te no meio de um ambi­en­te baru­lhen­to, se apresentasse.

Tra­ba­lhan­do, de apa­re­lhos e aces­só­rio novos… tudo per­fei­to ?
Qua­se : ape­sar do inver­no ter sido bas­tan­te agra­dá­vel, algu­mas ati­vi­da­des como even­tos de tes­te e reu­niões aca­ba­vam exi­gin­do que, às vezes, cami­nhás­se­mos por lon­gas dis­tân­ci­as… que tal sair cami­nhan­do do MPC para fazer uma simu­la­ção de aces­so do públi­co no Par­que Maria Lenk ?

Enfim, foram dias inten­sos e ines­que­cí­veis na pre­pa­ra­ção para o mai­or even­to espor­ti­vo do mun­do (e cer­ta­men­te vou pos­tar mais sobre o que vivi e apren­di), mas tam­bém foram dias de mui­to, mui­to suor que pene­trou em meu “colar mági­co”, cor­ro­eu seus cir­cui­tos e tor­nou seu fun­ci­o­na­men­to inter­mi­ten­te até o dia em que, duran­te os jogos para­lím­pi­cos, falhou defi­ni­ti­va­men­te.
Mais uma vez, por estar na garan­tia, meus que­ri­dos fono­au­dió­lo­gos pro­vi­den­ci­a­ram rapi­da­men­te a subs­ti­tui­ção e deter­mi­na­ram que aque­la mara­vi­lha tec­no­ló­gi­ca deve­ria sem­pre ser usa­da por cima de qual­quer rou­pa que eu esti­ves­se usan­do… nun­ca por dentro !

Encer­rei 2016 endi­vi­da­do até 2021, mas ao menos esta­va escu­tan­do melhor do que nos últi­mos anos. Em 2017 me esfor­cei para fazer revi­sões nos apa­re­lhos a cada tri­mes­tre, ain­da assim meu suor cor­ro­si­vo con­se­guiu des­gas­tar algu­ma coi­sa por den­tro deles e, para impe­dir que pio­ras­se, aca­bei inves­tin­do em um desu­mi­di­fi­ca­dor, mas em 2018, ape­nas dois anos após tão dis­pen­di­o­sa aqui­si­ção e já sem garan­tia, nenhum de meus esfor­ços me pre­pa­rou para a catas­tró­fi­ca sequên­cia de even­tos que se sucedeu…

Mes­mo usan­do o Smart Con­nect por sobre as rou­pas e bem lon­ge de meu cor­po, a expo­si­ção ao ambi­en­te e até o ato de car­re­gar meu filho de 1 ano no colo gerou des­gas­tes e atri­tos que come­ça­ram a fra­tu­rar o cha­ma­do “cabo de indu­ção”: pri­mei­ro as capi­nhas exter­nas que pro­te­gi­am seus plu­gues racha­ram para, na sequên­cia virar pó. Logo em segui­da, a estru­tu­ra metá­li­ca inter­na resol­veu se reve­lar bem nes­se fatí­di­co pon­to de jun­ção e, pou­co tem­po depois o con­ta­to entre ela e o plu­gue se rom­peu, fazen­do com que o apa­re­lho ficas­se pis­can­do em laran­ja sem con­se­guir conec­tar às pró­te­ses, me dei­xan­do total­men­te sem aces­so aos tele­fo­ne­mas e mídi­as que me foram comuns nos últi­mos dois anos.

AH, MAS É  UM CABINHO

Foi o que eu pen­sei e ime­di­a­ta­men­te come­cei a pes­qui­sar por sua repo­si­ção e, de uma manei­ra assus­ta­do­ra, não há sequer refe­rên­cia a tal obje­to em local nenhum des­se mer­ca­do (que até então eu pen­sa­va ter tudo) cha­ma­do inter­net : nem mer­ca­do livre, nem e‑bay… só o pro­du­to intei­ro apa­re­ce nas bus­cas e, se ganhei de brin­de o pri­mei­ro, o pre­ço de uma repo­si­ção é abso­lu­ta­men­te tene­bro­so !
Ten­tei con­se­guir essa peça de repo­si­ção atra­vés de meu fono­au­dió­lo­go, mas ele tam­bém não con­se­guiu.
Por fim, já come­çan­do a ficar deses­pe­ra­do, ten­tei por mais uma fon­te e o diá­lo­go apre­sen­ta­do na ima­gem dei­xa expos­ta a “boa von­ta­de” dos fabricantes :

Sim, essas cri­a­tu­ras fofi­nhas que­rem que, inde­pen­den­te de sua con­di­ção finan­cei­ra, um sim­ples cabo te obri­gue a des­car­tar todo o pro­du­to, a des­pei­to do núcleo estar fun­ci­o­nan­do per­fei­ta­men­te, e com­prar um lin­do con­jun­to novi­nho por uma baga­te­la supe­ri­or a mil reais!!
Ser refém de uma empre­sa cuja ganân­cia te man­tém impos­si­bi­li­ta­do de se comu­ni­car é uma sen­sa­ção bas­tan­te frus­tran­te… e não sou des­ses que fica cala­do dian­te de um abu­so : o que será que esse mal­di­to cabo tem de tão espe­ci­al ? Será que esses com­po­nen­tes são real­men­te tão raros e exclu­si­vos assim ?

Lem­brei da épo­ca quan­do, bem cri­an­ça, ia para a casa do meu pai e jun­to com meu irmão quei­má­va­mos as pon­tas dos dedos sol­dan­do cabi­nhos para ligar a gui­tar­ra à cai­xa de som… invo­quei todos os meus conhe­ci­men­tos de infor­má­ti­ca prá­ti­ca e de aná­li­se de sis­te­mas (que, aliás, tran­quei no 3º perío­do) e deci­di me empe­nhar no apa­ren­te e ini­ci­al­men­te com­ple­xo caso do cabi­nho com fio que­bra­do : peguei o car­ro e fui falar com o Vitão em sua loja de ele­trô­ni­ca !
Expli­quei a situ­a­ção e, de come­ço com algum receio, ele des­co­nec­tou e olhou bem para o cabo, fez medi­ções com o vol­tí­me­tro… e deu uma gar­ga­lha­da daque­las :
— Pô, isso aqui é um cabo comum!!!
Pegou a sol­da, refez as cone­xões e… o bichi­nho vol­tou a encon­trar meus apa­re­lhos com per­fei­ção !
— E cadê os plu­gues novos ? Do jei­to que está aí vai arre­ben­tar assim que teu filho meter a mão !
Pois é… eu não tinha plu­gues novos…
Mas a pers­pec­ti­va de não ape­nas frus­trar a ganân­cia daque­le fabri­can­te, mas de auxi­li­ar outras pes­so­as que pos­sam estar pas­san­do por uma situ­a­ção pare­ci­da e — somos bons, mas tam­bém pre­ci­sa­mos sobre­vi­ver — con­se­guir refor­çar a ren­da fez meus olhos bri­lhar e, no dia seguin­te, lá esta­va eu atrás des­ses pecu­li­a­res plu­gues nas lojas de ele­trô­ni­ca de meu bairro !

Falei pecu­li­a­res ? Acho que foi pou­co : os plu­gues sim­ples­men­te não são encon­trá­veis ! Nem no comér­cio do meu bair­ro e nem no dos bair­ros vizi­nhos!!!
Naque­le dia aca­bei des­co­brin­do o lin­do tubo ter­mo­con­trá­til que foi usa­do no mes­mo dia, pois, de fato, a pri­mei­ra coi­sa que meu meni­no fez quan­do viu o colar no meu pes­co­ço foi meter a mão e arre­ben­tar a sol­da pali­a­ti­va que havia sido fei­ta.
Fui encon­trar o plu­gue em um úni­co ven­de­dor do Mer­ca­do Livre e já come­cei enco­men­dan­do cin­co ! Ago­ra era só esperar…

Infe­liz­men­te o verão che­gou pri­mei­ro e não foi qual­quer verão­zi­nho des­ses, mas o pró­prio repre­sen­tan­te do infer­no cha­ma­do “verão cari­o­ca”: um calor meio úmi­do que cau­sa a sen­sa­ção de pele fri­tan­do e, de mim, faz jor­rar litros de desa­gra­dá­vel e cáus­ti­co suor até duran­te o sim­ples ato de pen­sar, quan­to mais se rea­li­zar algum esfor­ço !
E eu, sen­do mari­do cava­lhei­ro, deci­di auxi­li­ar minha espo­sa, ceri­mo­ni­a­lis­ta, em uma fes­ta de ani­ver­sá­rio : era só subir com algu­mas coi­sas até a cober­tu­ra e, che­gan­do lá, mais dois lan­ces de esca­da até de onde se podia ver a exten­são do hori­zon­te… e foi dian­te daque­la visão mag­ní­fi­ca e suan­do como um por­co na sau­na a vapor que deci­di des­li­gar minhas pró­te­ses, lavar a cabe­ça e dar um tem­po rela­xan­do e cur­tin­do um silên­cio forçado…

Enquan­to aguar­da­va, lem­bro bem, fiquei pen­san­do que com tan­tas tec­no­lo­gi­as pro­te­ti­vas já comuns (como a IP68) e de van­guar­da (como a novís­si­ma IP69K) já sen­do uti­li­za­das até em apa­re­lhos celu­la­res, por­que as pró­te­ses audi­ti­vas, que podem cus­tar até mais que alguns auto­mó­veis, são cons­truí­das com tan­ta e incô­mo­da fra­gi­li­da­de ?
Esta­ri­am as indús­tri­as sen­do tão cana­lhas a pon­to de explo­rar abu­si­va­men­te os defi­ci­en­tes atra­vés de suas deman­das mais essen­ci­ais e fabri­can­do pro­du­tos capa­zes de fun­ci­o­nar ape­nas até um pou­co além do pra­zo da garantia ?

Tan­ta coi­sa sus­pei­ta que fui fican­do até tris­te, mas duran­te essas diva­ga­ções deu tem­po da cabe­ça ficar sequi­nha e esta­va na hora de come­çar a peque­na cerimô­nia para a qual, afi­nal de con­tas, eu tam­bém esta­va con­vi­da­do : colo­quei e liguei tudo, des­ci um lan­ce de esca­da e na hora exa­ta em que sen­tei ao lado de minha espo­sa… meu apa­re­lho esquer­do come­çou a fazer ruí­do de cur­to cir­cui­to e parou de funcionar !

Ime­di­a­ta­men­te remo­vi o apa­re­lho, tirei a bate­ria de den­tro e reco­lo­quei para ver se vol­ta­va a fun­ci­o­nar : mor­to !
Tirei de novo, aguar­dei por uns 10 minu­tos : a cerimô­nia rolan­do toda lin­da e emo­ci­o­nan­te e eu sem con­se­guir escu­tar nada, mas ao menos ia baten­do pal­mas quan­do a gale­ra aplau­dia, rin­do jun­to sem enten­der o moti­vo… um per­fei­to figu­ran­te, ner­vo­so de sen­tir tre­mer tudo pro den­tro !
Reco­lo­quei a bate­ria, colo­quei no ouvi­do e pude ouvir a glo­ri­o­sa musi­qui­nha da rei­ni­ci­a­li­za­ção, dei um sus­pi­ro. enquan­to ela ia tocan­do, mas assim que aca­bou entrou nova­men­te o pavo­ro­so cur­to-cir­cui­to e o apa­re­lho des­li­gou. Resol­vi não arris­car mais : ple­na noi­te de sába­do e eu man­dan­do men­sa­gem pro meu ama­do fono e que­rem saber ? Ele res­pon­deu!!!
Se dispôs até a ir em encon­trar no dia seguin­te – isso mes­mo, no domin­go ! – para me aju­dar : a gale­ria onde fun­ci­o­na o con­sul­tó­rio nem ia abrir, mas ele dis­se que ia pegar a cha­ve só para me aten­der!!!
Me sen­ti impor­tan­te, mas ia ficar puxa­do sair de uma fes­ta em Copa­ca­ba­na lá pelas 3 da manhã, ir até a dimen­são para­le­la de Cam­po Gran­de e retor­nar para o Cate­te no dia seguin­te : melhor resol­ver­mos isso só na segun­da mesmo…

Aca­bou a cerimô­nia e eu esta­va meio que em pâni­co : fui total­men­te sur­do e mal-humo­ra­do para a fes­ta e, para pio­rar meu deses­pe­ro, minha espo­sa ain­da não tinha enten­di­do com­ple­ta­men­te a pro­fun­di­da­de da minha sur­dez e, dizen­do que as músi­cas esta­vam óti­mas, até me con­vi­dou para dan­çar!!
A ani­ma­ção dela era dire­ta­men­te pro­por­ci­o­nal ao meu mal estar : ela que­ren­do ficar “de boas” e eu pro­cu­ran­do um bura­co para me enfi­ar…
Real­men­te ela não enten­dia que eu não esta­va escu­tan­do NADA e, quan­do a ficha come­çou a cair, aca­bei ganhan­do uma his­tó­ria para con­tar em qual­quer pales­tra moti­va­ci­o­nal que eu for apre­sen­tar :
— Amor, olha as pes­so­as dan­çan­do… as músi­cas são as que você gos­ta ! Você não pode ficar um pou­co feliz ?
— Lin­da, olha aque­le avião pas­san­do lá no céu : estão indo pra Euro­pa ! Tem uma pri­mei­ra clas­se mara­vi­lho­sa onde estão beben­do Char­don­nay e comen­do foie gras com tor­ra­di­nhas sal­te­a­das de ervas finas… e quer saber ? Que­ro que todos, os que estão via­jan­do e os que estão dan­çan­do, sejam mui­to feli­zes, mas nes­se exa­to momen­to me sin­to como um eunu­co no meio de uma suru­ba : ven­do todo mun­do ser feliz, mas sem ter o equi­pa­men­to neces­sá­rio para par­ti­ci­par da feli­ci­da­de !
…e aca­bei cho­ran­do.
(Não, eu não cur­to suru­ba : usei uma figu­ra de lin­gua­gem cha­ma­da metá­fo­ra… hein?! Não, nin­guém meteu em lugar nenhum, nem den­tro, nem fora… e nem no eunu­co!!! Não, não exis­te euno­de­do… e para de me olhar com essa cara!!!)

O tex­to já está fican­do bem gran­de e vou aper­tar o botão de avan­ço rápi­do : do meio da fes­ta em dian­te minha capa­ci­da­de de lei­tu­ra labi­al subi­ta­men­te melho­rou – sério ! – e a noi­te não foi um com­ple­to desas­tre.
Che­gan­do em casa enfi­ei a pró­te­se no desu­mi­di­fi­ca­dor e fiz umas dez ses­sões com­ple­tas até segun­da-fei­ra, quan­do fui ao con­sul­tó­rio e se cons­ta­tou que só envi­an­do para São Pau­lo mes­mo…
A dose de ner­vo­so foi tão for­te que explo­diu uma mega her­pes labi­al : vul­ne­rá­vel, eu?! Total­men­te !
Ain­da na segun­da final­men­te che­ga­ram os plu­gues, con­se­gui con­ser­tar o cabo de indu­ção do Smart Con­nect e ficou lindo !

Só fal­ta ago­ra o apa­re­lho vol­tar fun­ci­o­nan­do de São Pau­lo para que, final­men­te, sai­ba­mos se ao menos o segre­do des­se cabo foi des­ven­da­do e eu pos­sa com­par­ti­lhar o pro­du­to de minha rebel­dia com outros sur­dos que este­jam pas­san­do por situ­a­ção parecida.

Enfim, fica o con­vi­te para que cur­tam essa pos­ta­gem, cur­tam o site, cur­tam minhas pági­nas nas redes soci­ais e, espe­ci­al­men­te, com­prem as cami­sas que come­cei a cri­ar com base em minhas expe­ri­ên­ci­as des­de que as pro­fun­de­zas da sur­dez me tra­ga­ram : o pla­no é aumen­tar a visi­bi­li­da­de dos sur­dos ora­li­za­dos e ir sen­do aju­da­do e aju­dan­do quem pas­sar pelo cami­nho.

Um abra­ço.

Me dá um “joi­nha”?
Gos­tou ? Me aju­de compartilhando…

Geovane Souza

Já fiz e faço tantas coisas que só criando um site para concentrar e apresentar essa variedade.

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