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PRIMEIRA PARTE : ADMIRANDOINALCANÇÁVEL

Tem­po esti­ma­do de lei­tu­ra : 6 min

DE 1973 ATÉ 1980

A fal­ta da figu­ra, de fato, pater­na, me levou a invo­lun­ta­ri­a­men­te ir bus­can­do pos­sí­veis subs­ti­tu­tos ao lon­go de minha vida juve­nil. O pri­mei­ro e mais óbvio foi meu irmão, nas­ci­do 11 anos antes de mim e pos­sui­dor de um espí­ri­to aven­tu­rei­ro e livre, talha­do, ape­sar dos con­fli­tos, sob a cons­tan­te som­bra do pai que, no meu caso, foi irregular.

Por incrí­vel que pare­ça, nos­so con­ta­to tam­bém foi pou­co… para não dizer míni­mo : logo após eu haver com­ple­ta­do 5 anos, ele, então com 16, ingres­sou para a Esco­la de Espe­ci­a­lis­tas de Aero­náu­ti­ca. Levan­do em con­ta a bai­xa ren­da de nos­sa famí­lia e o nível tec­no­ló­gi­co vigen­te no ano de 1978, o gran­de núme­ro de regis­tros foto­grá­fi­cos rea­li­za­do por ele, des­de a 1ª série, em Gua­ra­tin­gue­tá, pode ser con­si­de­ra­do como pro­va de seu gos­to pelo esti­lo de vida mili­tar. Não tenham dúvi­da de que toda aque­la vibra­ção aca­bou me influ­en­ci­an­do e, sem dúvi­da, o cre­den­ci­ou como…

O Primeiro Herói De Minha Vida

A fic­ção pode, sim, ser ele­men­to de gran­de influên­cia na for­ma­ção do cará­ter de uma cri­an­ça : lamen­to pro­fun­da­men­te quan­do vejo a ganân­cia das edi­to­ras tor­nan­do mui­tos dos heróis em aber­ra­ções de moral e pro­ce­der condenáveis.

Minha irmã mais velha, Gei­sa, já havia me leva­do ao cine­ma — se não me falha a memó­ria, via­jou comi­go até a Zona Sul para assis­tir­mos “Bran­ca de Neve e Os Sete Anões” — , porém o meu pri­mei­ro fil­me com ato­res (e não ani­ma­ções) e uma das expe­ri­ên­cia mais mar­can­tes (e digo isso em rela­ção à tota­li­da­de de minha vida!) foi o abso­lu­ta­men­te incrí­vel e ines­que­cí­vel “Super­man, O Fil­me” que, pos­so afir­mar, teve cada míni­ma cena valo­ri­za­da e memo­ri­za­da por aque­la cri­an­ça que eu fui, ten­do, sem dúvi­da, for­ja­do par­te de minha per­so­na­li­da­de : saí do cine­ma com o cora­ção sal­ti­tan­do de tan­ta emo­ção, espe­ran­ça, amor e hon­ra e, até hoje, ao escre­ver sobre aque­la oca­sião, fica difí­cil dri­blar as lágri­mas — bem antes do final do livro vocês enten­de­rão o moti­vo — e, por fim, a asso­ci­a­ção foi ine­vi­tá­vel : meu irmão era meu Superman !

“Esse voar manei­ro foi nin­guém que me ensi­nou, não foi pas­sa­ri­nho…” (Ednar­do — Enquan­to Engo­mo A Calça)

Tudo bem que o meu irmão depen­dia dos aviões, mas — caram­ba ! — ele VOAVA!! Lem­bro de todo o entu­si­as­mo que ele trans­mi­tiu quan­do se qua­li­fi­cou para a espe­ci­a­li­da­de de “Mecâ­ni­co de Voo”, da ansi­e­da­de e das his­tó­ri­as sobre o trei­na­men­to e os pre­pa­ra­ti­vos para seu pri­mei­ro sal­to de paraquedas…tudo regis­tra­do com fotos ! Tal­vez eu ain­da não hou­ves­se assi­mi­la­do a noção exa­ta de tem­po, mas recor­do do quan­to eu espe­ra­va pela che­ga­da do meu irmão, cheio de novi­da­des ! Mas se ele che­ga­va, tam­bém havia a par­ti­da… e essa angús­tia ves­per­ti­na domi­ni­cal tam­bém foi uma das pri­mei­ras que me mar­ca­ram : ia a famí­lia intei­ra com ele até o (não mais exis­ten­te) Pos­to Man­guei­ra, cru­za­men­to das estra­das Anti­ga Rio São Pau­lo com Rio do A, aguar­dar a che­ga­da do ôni­bus da via­ção São José… e, quan­do ele ia embo­ra, a sen­sa­ção che­ga­va a cau­sar um vazio amar­go que ia do estô­ma­go até a boca. Meu irmão, meu pioneiro…

Todas as lem­bran­ças que tenho dele reve­lam uma per­so­na­li­da­de inten­sa, altruís­ta e de uma ale­gria dis­pos­ta a trans­por as res­tri­ções impos­tas pela pobre­za : joga­dor d’A Pato­ti­nha do São Basí­lio, deli­ra­va nos jogos do Fla­men­go, time her­da­do do pai. Se eu qua­se che­guei a gos­tar um pou­co de fute­bol, a cul­pa foi dele, pois me fazia con­se­guir supor­tar a dura­ção de um jogo intei­ro só para, se o Fla­men­go ganhas­se, ser arre­mes­sa­do mui­to alto no ar e, na que­da, ampa­ra­do por seus bra­ços… ele era o úni­co que con­se­guia fazer isso com aque­la cri­an­ça enor­me e pesa­da que eu fui… o único !

E o vio­lão ? Até 1980 pos­so afir­mar que ele não tinha nada a ver com pago­de e era adep­to de uma ver­ten­te musi­cal inten­sa­men­te nor­des­ti­na, intro­du­zin­do as obras de Rai­mun­do Fag­ner, Zé Rama­lho, Ednar­do, Elba Rama­lho, Cae­ta­no Velo­so, Gil­ber­to Gil… a famí­lia conhe­ceu a MPB atra­vés dos mui­tos LP’s des­ses artis­tas e dos fes­ti­vais musi­cais que ocor­ri­am na épo­ca — even­tos cuja qua­li­da­de o tem­po e a tec­no­lo­gia só fize­ram degra­dar — cujas músi­cas eram aten­ci­o­sa­men­te ouvi­das, às vezes com o “Vigu” (revis­ta Vio­lão & Gui­tar­ra) ao lado, até que fos­se capaz de exe­cu­tá-las fiel­men­te e, daí, pudes­se nos delei­tar… a nós e ao seu grê­mio de admi­ra­do­res e admi­ra­do­ras que, por sinal, não eram poucas…

Fazer o que se o cara era boni­to ? Além de ser um mula­to (com a pele mais escu­ra, mas o cabe­lo melhor que o meu) com olhos cor de mel, ain­da con­ta­va com seus 1,83m que eram sufi­ci­en­tes para que todos o achas­sem mui­to alto. Fora o “gla­mour” que a car­rei­ra mili­tar tra­zia na épo­ca e além de tocar vio­lão, o cara tam­bém dan­ça­va e esta­va por den­tro até dos pas­sos da “Dis­co Dan­ce”… ele fazia e era tan­tas coi­sas que fica até com­pli­ca­do lis­tar, mas acho que ago­ra, arris­can­do que as ima­gens e o áudio pos­sam expres­sar mais que pala­vras, seria um bom momen­to para expor uma sin­ge­la home­na­gem que preparei :

Catalisador

Dian­te de mim, meu irmão sem­pre se rela­ci­o­nou à bus­ca pela ação, sem­pre demons­trou uma fome de viver tão inten­sa que creio nun­ca ter vis­to igual em nenhu­ma outra pes­soa. Na ver­da­de, até hoje não enten­do como ele, tão jovem e sem car­ro, des­pen­ca­va de Cam­po Gran­de para par­ti­ci­par de bai­les (ou fes­tas?) lá no Sítio das Moran­gas, no alto da Estra­da do Cato­nho… hoje che­go a pen­sar : seria esse com­por­ta­men­to uma espé­cie de pressentimento ?

Recor­do tam­bém de um car­na­val, o pri­mei­ro que ele saiu ves­ti­do de mulher, quan­do bebeu além da con­ta e, ao che­gar em casa, se tran­cou no banhei­ro… e parou de res­pon­der ! Foi angus­ti­an­te ver todos gri­tan­do e ten­tan­do des­per­tá-lo sem suces­so e eu, mui­to novo, olhan­do pelas fres­tas da por­ta e ven­do aque­la figu­ra paté­ti­ca ain­da usan­do ves­ti­do e dor­min­do sen­ta­do no vaso sani­tá­rio… esta­ria em coma ? O deses­pe­ro cres­ceu até o pon­to onde se fez neces­sá­rio cha­mar os vizi­nhos para arrom­bar a porta.

É incrí­vel como todas as minhas lem­bran­ças rela­ci­o­na­das a pes­so­as que inge­ri­ram álco­ol sejam, sem exce­ção, extre­ma­men­te desa­gra­dá­veis.
Um outro exem­plo ter­rí­vel foi o do Natal de 1978, quan­do o estru­pí­cio do meu ex-cunha­do, devi­da­men­te alco­o­li­za­do, fez seu “show­zi­nho”… isso depois da “par­ti­ci­pa­ção espe­ci­al” de meu pai, que apro­vei­tou o fato de meu irmão ter sido apro­va­do na EEA­er e foi lá só para falar uma fra­se des­gra­ça­da (que deve ser céle­bre entre aque­les que não têm ins­pi­ra­ção pró­pria e vivem de citar fra­ses fei­tas com gran­de gra­vi­da­de) da qual recor­do com per­fei­ção milimétrica :

Meu filho, quan­do nas­ces­te todos sor­ri­am e você cho­ra­va.
Viva de for­ma que, quan­do mor­rer, todos cho­rem e só você sorria”

Só era cha­to quan­do os car­ri­nhos fica­vam agar­ra­dos no meio do caminho…

Acho que essa foi uma das pri­mei­ras vezes que me dei con­ta da rea­li­da­de da mor­te e, pior ain­da, de acor­do com aque­le papo quem ia mor­rer — mal­di­tas pre­mo­ni­ções ! — seria meu irmão ! Dian­te dis­so, fui toma­do por uma cri­se de cho­ro que demo­rou a pas­sar… acho que tive­ram até que ante­ci­par a entre­ga de meu pre­sen­te (acho que a Gei­sa me deu um Auto­ban!)… e aí só lem­bro de estar brin­can­do e ser inter­rom­pi­do pelos gri­tos do Elber Gil­ber­to Alves Perei­ra, bêba­do e exal­ta­do, con­vo­can­do meu irmão para ir até a rua “sair na por­ra­da” com ele…

Não hou­ve a reque­ri­da “por­ra­da”, mas não enten­do como, mes­mo dian­te do abso­lu­to des­res­pei­to daque­le ani­mal para com abso­lu­ta­men­te toda a minha famí­lia, minha irmã tenha per­ma­ne­ci­do com ele… às vezes, por esse e por outros com­por­ta­men­tos estra­nhos, eu até che­go a me ques­ti­o­nar se ela é mes­mo minha irmã…

Mas não é só de memó­ri­as som­bri­as que são fei­tos meus capí­tu­los : meu irmão tam­bém foi o cata­li­sa­dor de minha pri­mei­ra via­gem inte­res­ta­du­al e fomos, eu e minha mãe, de ôni­bus, para Gua­ra­tin­gue­tá, visi­tá-lo duran­te a cha­ma­da “qua­ren­te­na”! Lem­bro do fran­go com gos­to engra­ça­do que come­mos, com gua­ra­ná, na can­ti­na ; lem­bro da bal­de­a­ção que fize­mos, no retor­no, em Vol­ta Redon­da… e lem­bro da soli­dão que sen­ti duran­te toda a via­gem, pois minha mãe, que só dor­mia, enfren­tou jus­ta­men­te naque­la oca­sião a sua pri­mei­ra cri­se de erisipela !

E Me Diz : Pra Mim… O Que É Que Ficou ?

Eu, até os meus 7 anos, via esse jovem homem tão imen­so que já sabia que nun­ca seria capaz de copiá-lo… cer­ta­men­te, do meu jei­to infan­til, o inve­ja­va, mas nun­ca, des­de esta épo­ca, tive a pre­ten­são de imi­tá-lo ou subs­ti­tuí-lo. No sub­tí­tu­lo des­ta obra pro­me­to que vou falar mal de mim mes­mo, então tal­vez seja a hora de come­çar a reve­lar o quão pés­si­mo eu era des­de peque­no, pois, assim que meu irmão foi para Gua­ra­tin­gue­tá, pas­sei a ter aces­so, dado por ele mes­mo, às suas revis­tas “Homem” — cuja mar­ca logo evo­luiu para “Play­boy” — e, crei­am, além de olhar pei­tos e bun­das (na épo­ca não era per­mi­ti­da nudez fron­tal!), eu LIA deta­lha­da­men­te os arti­gos, as entre­vis­tas, as pia­das e as seções que apre­sen­ta­vam pro­du­tos “chi­ques” que com­po­ri­am aque­le esti­lo de vida…toda aque­la infor­ma­ção foi soma­da à minha per­so­na­li­da­de pas­si­o­nal e aca­bou ten­do uma influên­cia tão for­te que, bem mais tar­de, tive de parar, iden­ti­fi­car e rene­gar, mas isso é assun­to para um outro capítulo…

Nes­te bas­ta regis­trar que eu via tudo aqui­lo com uma nor­ma­li­da­de tão gran­de que, ain­da no pri­má­rio, era conhe­ci­do pelos outros alu­nos por sem­pre ter uma Play­boy e cer­ta vez (se lem­bro bem ape­nas uma) algu­ma pro­fes­so­ra encon­trou uma edi­ção comi­go e, leva­do à dire­to­ria, che­ga­ram a cha­mar minha mãe ! Na ver­da­de, acho que pouquís­si­mas vezes che­guei a ficar exci­ta­do com essa publi­ca­ção, mas era inte­res­san­te obser­var o quão par­vos os outros meni­nos se tor­na­vam ao vê-la : para um gor­do que sofria bullying — e na épo­ca esse nome nem exis­tia — aque­la revis­ta era mais uma for­ma de pare­cer mais adul­to e ter cer­to poder do que, de fato, algo que me inte­res­sas­se. Quem estu­dou comi­go cor­re o ris­co de lem­brar e acho bom encer­rar esse assun­to por enquan­to, mas, sem dúvi­da, esse foi um for­tís­si­mo lega­do dei­xa­do por meu irmão… do qual cus­tei mui­to a me libertar.

Quase A Despedida…

E aí che­gou 1980 e, em dezem­bro, meu irmão se for­mou : foi gra­du­a­do 3º sar­gen­to da aero­náu­ti­ca e par­tiu para ser mecâ­ni­co de voo láááááá em Manaus, no 1º/​9º GAv, lidan­do com os C‑115 e, por fora, cons­truin­do uma car­rei­ra musi­cal que che­gou a se des­ta­car, mas… vamos vol­tar a falar dele e de toda a sua influên­cia sobre minha vida alguns capí­tu­los mais a fren­te, quan­do serei obri­ga­do a ten­tar rela­tar um momen­to que pro­va­vel­men­te foi o mais estra­nho e ter­rí­vel de toda a minha vida…

Me dá um “joi­nha”?
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    Sha­re

Geovane Souza

Já fiz e faço tantas coisas que só criando um site para concentrar e apresentar essa variedade.

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