Geovane Souza, criança, agachado ao lado de seu irmão, Ignácio, sob a sombra de uma árvore em 1978.

Meu Irmão

Primeira Parte: Admirando O Inalcançável

DE 1973 ATÉ 1980

A falta de uma figura paterna factual me empurrou, involuntariamente, a uma busca por substitutos.
O primeiro e mais óbvio foi meu irmão.
Onze anos mais velho e dono de um espírito livre, ele foi talhado sob a sombra constante de um pai que, no meu caso, foi apenas irregular e intermitente.
Por incrível que pareça, nosso contato também foi pouco… para não dizer mínimo: logo após eu haver completado 5 anos, ele, então com 16, ingressou para a Escola de Especialistas de Aeronáutica.

Levando em conta a baixa renda de nossa família e o nível tecnológico vigente no ano de 1978, o grande número de registros fotográficos realizado por ele, desde a 1ª série, em Guaratinguetá, pode ser considerado como prova de seu gosto pelo estilo de vida militar.
Não tenham dúvida de que toda aquela vibração acabou me influenciando e, sem dúvida, o credenciou como…

O Primeiro Herói De Minha Vida

Christopher Reeve como Superman voando sobre Metropolis em 1978, arquétipo moral para Geovane Souza.
A ficção como pilar ético: lamento ver a ganância das editoras transformar heróis em aberrações morais, distanciando-os da honra que influenciou meu caráter na infância.

Minha irmã mais velha, Geisa, já havia me levado ao cinema — se não me falha a memória, viajou comigo até a Zona Sul para assistirmos “Branca de Neve e Os Sete Anões” — , porém o meu primeiro filme com atores (e não animações) e uma das experiência mais marcantes (e digo isso em relação à totalidade de minha vida!) foi o absolutamente incrível e inesquecível “Superman, O Filme”.

Posso afirmar que a criança que fui valorizou e memorizou cada mínima cena, tendo, sem dúvida, forjado parte de minha personalidade: saí do cinema com o coração saltitando de tanta emoção, esperança, amor e honra e, até hoje, ao escrever sobre aquela ocasião, fica difícil driblar as lágrimas — bem antes do final do livro vocês entenderão o motivo — e, por fim, a associação foi inevitável: meu irmão era meu Superman!

Jorge Ignácio, meu irmão, em uniforme militar paramentado para salto na Escola de Especialistas de Aeronáutica.
“Esse voar maneiro foi ninguém que me ensinou, não foi passarinho…” (Ednardo — Enquanto Engomo A Calça)

Tudo bem que o meu irmão dependia dos aviões, mas — caramba! — ele VOAVA!! Lembro de todo o entusiasmo que ele transmitiu quando se qualificou para a especialidade de “Mecânico de Voo”, da ansiedade e das histórias sobre o treinamento e os preparativos para seu primeiro salto de paraquedas…tudo registrado com fotos!
Talvez eu ainda não houvesse assimilado a noção exata de tempo, mas recordo do quanto eu esperava pela chegada do meu irmão, cheio de novidades!

Mas se ele chegava, também havia a partida… e essa angústia vespertina dominical tornou-se um marco somático: a família inteira o acompanhava até o Posto Mangueira (cruzamento da Antiga Rio-São Paulo com Rio do A) para aguardar a Viação São José. Quando o ônibus partia, o vazio amargo subia do estômago à boca. Ele ia, e eu ficava com a promessa de um retorno.
Meu irmão, meu pioneiro…

Todas as lembranças que tenho dele revelam uma personalidade intensa, altruísta e de uma alegria disposta a transpor as restrições impostas pela pobreza: jogador d’A Patotinha do São Basílio, delirava nos jogos do Flamengo, time herdado do pai.
Se eu quase cheguei a gostar um pouco de futebol, a culpa foi dele, pois me fazia conseguir suportar a duração de um jogo inteiro só para, se o Flamengo ganhasse, ser arremessado muito alto no ar e, na queda, amparado por seus braços… ele era o único que conseguia fazer isso com aquela criança enorme e pesada que eu fui… o único!

E o violão? Até 1980 posso afirmar que ele não tinha nada a ver com pagode e era adepto de uma vertente musical intensamente nordestina, introduzindo as obras de Raimundo Fagner, Zé Ramalho, Ednardo, Elba Ramalho, Caetano Veloso, Gilberto Gil… a família conheceu a MPB através dos muitos LP’s desses artistas e dos festivais musicais que ocorriam na época — eventos cuja qualidade o tempo e a tecnologia só fizeram degradar — cujas músicas eram atenciosamente ouvidas, às vezes com o “Vigu” (revista Violão & Guitarra) ao lado, até que fosse capaz de executá-las fielmente e, daí, pudesse nos deleitar… a nós e ao seu grêmio de admiradores e admiradoras que, por sinal, não eram poucas…

Fazer o que se o cara era bonito? Além de ser um mulato (com a pele mais escura, mas o cabelo melhor que o meu) com olhos cor de mel, ainda contava com seus 1,83m que eram suficientes para que todos o achassem muito alto. Fora o “glamour” que a carreira militar trazia na época e além de tocar violão, o cara também dançava e estava por dentro até dos passos da “Disco Dance”… ele fazia e era tantas coisas que fica até complicado listar, mas acho que agora, arriscando que as imagens e o áudio possam expressar mais que palavras, seria um bom momento para expor uma singela homenagem que preparei:

Catalisador

Diante de mim, meu irmão sempre se relacionou à busca pela ação, sempre demonstrou uma fome de viver tão intensa que creio nunca ter visto igual em nenhuma outra pessoa. Na verdade, até hoje não entendo como ele, tão jovem e sem carro, despencava de Campo Grande para participar de bailes (ou festas?) lá no Sítio das Morangas, no alto da Estrada do Catonho… hoje chego a pensar: seria esse comportamento uma espécie de pressentimento?

Recordo também de um carnaval, o primeiro que ele saiu vestido de mulher, quando bebeu além da conta e, ao chegar em casa, se trancou no banheiro… e parou de responder! Foi angustiante ver todos gritando e tentando despertá-lo sem sucesso e eu, muito novo, olhando pelas frestas da porta e vendo aquela figura patética ainda usando vestido e dormindo sentado no vaso sanitário… estaria em coma? O desespero cresceu até o ponto onde se fez necessário chamar os vizinhos para arrombar a porta.

É incrível como todas as minhas lembranças relacionadas a pessoas que ingeriram álcool sejam, sem exceção, extremamente desagradáveis.
Um outro exemplo terrível foi o do Natal de 1978, quando o estrupício do meu ex-cunhado, devidamente alcoolizado, fez seu “showzinho”… isso depois da “participação especial” de meu pai, que aproveitou o fato de meu irmão ter sido aprovado na EEAer e foi lá só para falar uma frase desgraçada (que deve ser célebre entre aqueles que não têm inspiração própria e vivem de citar frases feitas com grande gravidade) da qual recordo com perfeição milimétrica:

“Meu filho, quando nasceste todos sorriam e você chorava.
Viva de forma que, quando morrer, todos chorem e só você sorria”

Acho que essa foi uma das primeiras vezes que me dei conta da realidade da morte e, pior ainda, de acordo com aquele papo quem ia morrer — malditas premonições! — seria meu irmão! Diante disso, fui tomado por uma crise de choro que demorou a passar… acho que tiveram até que antecipar a entrega de meu presente (acho que a Geisa me deu um Autoban!)… e aí só lembro de estar brincando e ser interrompido pelos gritos do Elber Gilberto Alves Pereira, bêbado e exaltado, convocando meu irmão para ir até a rua “sair na porrada” com ele…

Caixa e componentes do brinquedo clássico Auto-Ban, presente de Natal de Geovane Souza que servia de refúgio emocional durante as partidas dominicais de seu irmão.
Só era chato quando os carrinhos ficavam agarrados no meio do caminho…

Não houve a requerida “porrada”, mas não entendo como, mesmo diante do absoluto desrespeito daquele animal para com absolutamente toda a minha família, minha irmã tenha permanecido com ele… às vezes, por esse e por outros comportamentos estranhos, eu até chego a me questionar se ela é mesmo minha irmã…

Mas não é só de memórias sombrias que são feitos meus capítulos: meu irmão também foi o catalisador de minha primeira viagem interestadual e fomos, eu e minha mãe, de ônibus, para Guaratinguetá, visitá-lo durante a chamada “quarentena”! Lembro do frango com gosto engraçado que comemos, com guaraná, na cantina; lembro da baldeação que fizemos, no retorno, em Volta Redonda… e lembro da solidão que senti durante toda a viagem, pois minha mãe, que só dormia, enfrentou justamente naquela ocasião a sua primeira crise de erisipela!

E Me Diz: Pra Mim… O Que É Que Ficou?

Eu, até os meus 7 anos, via esse jovem homem tão imenso que já sabia que nunca seria capaz de copiá-lo… certamente, do meu jeito infantil, o invejava, mas nunca, desde esta época, tive a pretensão de imitá-lo ou substituí-lo. No subtítulo desta obra prometo que vou falar mal de mim mesmo, então talvez seja a hora de começar a revelar o quão péssimo eu era desde pequeno.

Assim que meu irmão foi para Guaratinguetá, passei a ter acesso, dado por ele mesmo, às suas revistas “Homem” — cuja marca logo evoluiu para “Playboy” — e, creiam, além de olhar peitos e bundas (na época não era permitida nudez frontal!), eu LIA detalhadamente os artigos, as entrevistas, as piadas e as seções que apresentavam produtos “chiques” que comporiam aquele estilo de vida…toda aquela informação foi somada à minha personalidade passional e acabou tendo uma influência tão forte que, bem mais tarde, tive de parar, identificar e renegar, mas isso é assunto para um outro capítulo…

Neste basta registrar que eu via tudo aquilo com uma normalidade tão grande que, ainda no primário, era conhecido pelos outros alunos por sempre ter uma Playboy e certa vez (se lembro bem apenas uma) alguma professora encontrou uma edição comigo e, levado à diretoria, chegaram a chamar minha mãe!

Na verdade, acho que pouquíssimas vezes cheguei a ficar excitado com aquelas publicações, mas era interessante observar o quão parvos os outros meninos se tornavam ao vê-las: para um garoto gordo que sofria bullying — termo que nem existia na época — aquela revista não era um objeto de luxúria, mas uma tecnologia de status: ler os artigos e portar a Playboy me conferia um poder social, uma armadura de maturidade que mantinha os agressores à distância.
Foi meu primeiro legado de sobrevivência herdado dele.… do qual custei muito a me libertar.

Quase A Despedida…

E aí chegou 1980 e, em dezembro, meu irmão se formou: foi graduado 3º sargento da aeronáutica e partiu para ser mecânico de voo láááááá em Manaus, no 1º/9º GAv, lidando com os C-115 e, por fora, construindo uma carreira musical que chegou a se destacar, mas… vamos voltar a falar dele e de toda a sua influência sobre minha vida alguns capítulos mais a frente, quando serei obrigado a tentar relatar um momento que provavelmente foi o mais estranho e terrível de toda a minha vida…

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